Como definir Pai Mãe Irmã Irmão, o filme de Jim Jarmusch que, no passado mês de setembro, foi consagrado com o Leão de Ouro do Festival de Veneza? De tão óbvia, a pergunta parece difícil de satisfazer com uma resposta adequada. Começando pelo mais básico, diremos que se trata, não de uma história, mas de três histórias, cada uma delas no espaço privado de uma família – a primeira centrada no pai, a segunda na mãe, a última num par de irmãos.
Há alguma relação entre as três famílias? Não, mas há uma espécie de pontuação dramática, mais ou menos risonha, através de pormenores que se “repetem” de uma história para outra. Exemplo? Em todas elas alguém possui (ou possuiu) um relógio Rolex que, na primeira história, suscita aos filhos que visitam o pai, uma dúvida sobre a sua autenticidade: parece falso, mas será verdadeiro? E se é verdadeiro, porque é que o pai insiste em dizer que não passa de uma imitação barata? Seja como for, essa dúvida contamina as histórias seguintes, levando-nos a supor que os novos Rolex podem ser falsos…
Tanto basta para que acompanhemos as histórias que nos são contadas com uma pequena antologia de acontecimentos que ecoam uns nos outros, justificando alguma generalização temática. Todos os pormenores são significativos, a começar pelo facto de o título original, Father Mother Sister Brother, não colocar qualquer vírgula entre as personagens citadas (o que, felizmente, foi preservado no título português). Assim se sugere que, mesmo não pertencendo a uma única família, aquelas personagens e as suas ações existem ligadas por um labirinto secreto, porventura indecifrável, de factos objetivos e emoções subjetivas.
Evitemos, por isso, o cliché moral do “filme sobre a família”. Todas as telenovelas, com a sua avalanche de estereótipos psicológicos, são “sobre a família”, mas seria grosseiro e, mais do que isso, insultuoso considerar que a filigrana dramática de Jarmusch tem o que quer que seja de “novelesco”. O que ele filma é o sistema de ilusões inerente ao espaço social da família – enfim, das famílias que o seu filme retrata. Porquê ilusões? Porque, mesmo quando as personagens não mentem, dir-se-ia que a estrutura familiar se sustém, paradoxalmente, não através do conhecimento, mas do desconhecimento dos seus membros.