Em relação à oposição, o relatório das secretas dos Estados Unidos sublinhava que Edmundo González e María Corina Machado não gozavam de apoios suficientes dentro da Venezuela para assumirem as rédeas do país. Os dois opositores teriam dificuldades em ganhar legitimidade junto dos serviços de segurança (controlados por aliados de Nicolás Maduro), das forças armadas, das redes de tráfico de droga e até de outros oponentes políticos.
Na conferência de imprensa que deu no sábado, Donald Trump assinalou que, apesar de ser uma “grande mulher”, seria “muito difícil” para María Corina Machado liderar a Venezuela, espelhando a avaliação que a CIA fizera no relatório. “Ela não tem o apoio, nem o respeito dentro do país”, destacou o Presidente norte-americano, acrescentando mais tarde que a opositora só “conseguia ganhar uma eleição se a apoiasse”: “Não acho que ela tenha o apoio popular que tem de ter”.
Na Casa Branca, o Presidente norte-americano nunca foi o principal aliado de María Corina Machado, na verdade. O secretário de Estado e conselheiro de Segurança Nacional, Marco Rubio, é o interlocutor. À BBC, Santiago (nome fictício), analista político venezuelano, sinalizou que “Trump e Corina Machado nunca foram aliados. Ele nunca reconheceu a liderança dela. O interlocutor é Marco Rubio. A liderança da oposição venezuelana tem consciência disso e sabe como lidar com essa situação”.
Mas nem o maior aliado da oposição deseja ver já Edmundo González no poder. Para já, Marco Rubio mantém os elogios à “fantástica” María Corina Machado; no entanto, também lhe tirou o tapete, numa entrevista à NBC: “Estamos a lidar com uma realidade em que queremos uma transição para a democracia. A maior parte da oposição está no exílio e temos de pensar no futuro. Os primeiros passos envolvem a salvaguarda dos interesses nacionais dos EUA”.
Neste estado ainda de incerteza, ainda não há eleições no horizonte. Donald Trump recusou que vá haver presidenciais nos “próximos 30 dias” e a transição ainda deverá demorar alguns meses. Até lá, nem María Corina Machado, nem Edmundo González deverão governar a Venezuela. No futuro próximo, a opositora deverá retornar a território venezuelano, de onde saiu para Oslo para as cerimónias do Prémio Nobel. Sobre o candidato presidencial, Edmundo González está exilado em Madrid e não há sinais de que voltará à Venezuela.
Nas intervenções públicas, María Corina Machado mantém os elogios ao Presidente norte-americano: não só prometeu partilhar com ele o Nobel da Paz, como também usa a mesma retórica do que Donald Trump. Numa entrevista à Fox News, a opositora de Nicolás Maduro prometeu “deixar a destruição para trás do regime socialista e criminoso e tornar a Venezuela no maior aliado dos Estados Unidos da América na América Latina”.
VENEZUELAN OPPOSITION LEADER @MariaCorinaYA SAYS MADURO BANNED HER FROM THE BALLOT BECAUSE HE WAS AFRAID:
“We were able to bring the country together to carry these elections organized by civil society with millions of people participating. And the fact is that, cowardly, he… pic.twitter.com/3m2ys39Yh3
— Sean Hannity ???????? (@seanhannity) January 6, 2026
A administração Trump vai contar com Delcy Rodríguez por agora. A Presidente interina tomou oficialmente posse esta segunda-feira e jurou “priorizar relações internacionais equilibradas e respeitosas entre os Estados Unidos e a Venezuela”, assim como “igualdade na soberania entre países e na não-interferência”. Inicialmente, a política não estava alinhada com Washington e até ameaçou que Caracas nunca seria uma “colónia” dos EUA. Nos últimos dias, suavizou o discurso.
Delcy Rodríguez, que já veste vestidos da marca italiana Chiara Boni (uma das favoritas das apresentadores da Fox News e das trumpistas MAGA), terá de governar num difícil ato de equilibrismo. Por um lado, não pode desagradar os Estados Unidos, que já ameaçaram que o seu futuro “será pior” do que Nicolás Maduro se desobedecer às ordens da Casa Branca. Por outro, tem de satisfazer as milícias armadas e os militares da Guarda Nacional Bolivariana.
A Presidente interina combina características que agradam aos Estados Unidos para executarem a transição de poder na Venezuela: tem uma extensa experiência governativa — já liderou a pasta das Finanças, dos Negócios Estrangeiros e do Petróleo —, assim como é respeitada pelas Forças Armadas. Pela sua lealdade a Nicolás Maduro e por ser filha de um mártir para o regime (assassinado às mãos dos serviços secretos venezuelanos), Delcy Rodríguez é vista pelos militares como uma figura confiável.
María Corina Machado não gostou da escolha de Delcy Rodríguez para liderar a Venezuela. Na entrevista à Fox News, a política deixou duras críticas à Presidente interina: “É uma das principais culpadas da tortura, perseguição, corrupção e tráfico de drogas. É a principal aliada e o principal elo com a Rússia, a China e o Irão: certamente não é uma pessoa em que os investidores internacionais possam confiar e é amplamente rejeitada pelo povo venezuelano”.
María Corina Machado não conseguiu convencer os norte-americanos de que ela e Edmundo González eram as figuras ideais para a transição de poder na Venezuela. Mas a líder da oposição venezuelana parece ainda não ter deitado a toalha ao chão: continua a deixar rasgados elogios ao Presidente dos EUA e ainda mantém a esperança de que poderá governar a Venezuela um dia. A parte mais difícil de concretizar esse sonho? Convencer Donald Trump.