O estudo de monitorização de envenenamento por raticidas na vida selvagem é o primeiro a ser realizado em Portugal. Foto de coruja-das-torres: Luc Viatour, CC BY-SA 3.0, via Wikimédia, Commons
Katia Catulo 07/01/2026 18:03 6 min
O uso de raticidas é uma prática generalizada em Portugal, sobretudo nas zonas rurais. A sua aplicação indiscriminada, no entanto, está a pôr em risco a vida selvagem. Essa é a conclusão do estudo conduzido por investigadores da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, em parceria com a Universidade de Gran Canaria, em Espanha.
A investigação esteve focada nas aves de rapina portuguesas, com os resultados a revelarem que mais de 80% das espécies analisadas estão contaminadas por raticidas anticoagulantes.
O número é tão avassalador que os especialistas temem estar diante de uma grave ameaça à sobrevivência de várias espécies, como o bufo-real (Bufo bufo), o Peneireiro-de-dorso-malhado (Falco tinuculus) ou a coruja-do-mato (Strix aluc), cujas percentagens atingiram os 90%.
O trabalho incidiu sobre 210 aves de 15 espécies, ao cuidado de centros de recuperação de animais selvagens no Continente e na Região Autónoma da Madeira. As contagens mostraram que a exposição a compostos usados nos tóxicos para roedores está a provocar um envenenamento secundário em animais selvagens não visados.
Estudo inédito no continente e Madeira
Do total de aves analisadas entre 2017 e 2024, 83% apresentaram sinais de pelo menos um raticida anticoagulante no fígado. Em quase 60% dos casos positivos surgiram dois ou mais compostos, aumentando o risco de efeitos cumulativos e potencialmente fatais.
Os estudos de monitorização de envenenamento secundário por raticidas são recorrentes em vários países europeus, mas este é o primeiro realizado em Portugal, segundo os investigadores.
O fenómeno é preocupante nas áreas rurais de todo o território nacional, mas, na Madeira, as proporções são ainda mais graves, segundo os investigadores. Quase 90% das aves apresentavam contaminação múltipla. As concentrações médias foram superiores às registadas no Continente, sugerindo um uso mais intensivo de raticidas no controlo de pragas insulares.
Os raticidas usados no controlo de pragas de roedores entraram nas cadeias alimentares da fauna selvagem, colocando várias espécies, como o peneireiro-de-dorso-malhado, em risco. Foto: CE3C
Os raticidas anticoagulantes, usados para controlar roedores, provocam hemorragias internas fatais ao impedir a coagulação do sangue. Ao persistem nos tecidos, porém, acumulam-se em predadores que consomem presas contaminadas, representando, portanto, um risco para a vida selvagem.
Estes compostos nas aves podem provocar sintomas graves como hemorragias internas, fraqueza, perda de coordenação e, em casos extremos, conduzir à morte. Mesmo em doses não letais, o envenenamento reduz as habilidades de caça, aumenta o risco de acidentes, comprometendo também a capacidade de reprodução dos animais.
Entre os compostos detetados destacam-se o Brodifacoum e a Bromadiolona, substâncias altamente persistentes e tóxicas. O estudo concluiu que as aves mais velhas apresentam maiores concentrações, o que faz sentido, tendo em conta o efeito de bioacumulação ao longo dos anos.
Medidas urgentes e monitorização contínua
Os biólogos que participaram no estudo acreditam que espécies comuns em todo o território, como o peneireiro-de-dorso-malhado e a coruja-das-torres, podem servir como sentinelas. Será preciso, como tal, prosseguir a monitorização para conseguir acompanhar a evolução da contaminação e o seu efeito na vida selvagem.
“Estes resultados demonstram que os raticidas utilizados no controlo de pragas de roedores estão a entrar nas cadeias alimentares da fauna selvagem, o que coloca estas espécies em risco e exige medidas de mitigação para reduzir os impactos.”
Sofia Gabriel, coordenadora do estudo e investigadora do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C).
O estudo confirma que o impacto dos raticidas já não é pontual, mas sim um fenómeno persistente e transversal, afetando várias gerações de aves e fragilizando populações que já são vulneráveis, mesmo sem a ameaça de raticidas.
As consequências para a biodiversidade são significativas, podendo comprometer o equilíbrio dos ecossistemas se espécies essenciais diminuírem drasticamente ou desaparecerem de determinadas regiões.
O bufo-real é uma das aves mais afetadas pelo envenenamento provocado por raticidas. Foto: Pixabay
Os autores defendem, por isso, medidas urgentes, como a monitorização regular, restrições ao uso indiscriminado de raticidas, promoção de alternativas mais seguras no controlo de roedores e ações de sensibilização e pedagogia junto das populações.
Referências da notícia
Ana Carromeu-Santos, Beatriz Martín-Cruz, Tomé Neves, Andrea Acosta-Dacal, Ana Macías-Montes, María Casero, Maria da Luz Mathias, Octavio P. Luzardo & Sofia I. Gabriel. Toxic legacy: The hidden impact of anticoagulant rodenticides on Portuguese raptors. Science of The Total Environment
João Silva. Contaminação por raticidas ameaça aves de rapina em Portugal. Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C). Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa

