Agentes da polícia federal norte-americana de imigração, o ICE, balearam mortalmente uma mulher desarmada durante um novo raide em Mineápolis, estado norte-americano do Minnesota. O incidente aconteceu esta quarta-feira e está a suscitar uma sucessão de reacções políticas. O Presidente Donald Trump diz que a vítima era uma “desordeira” e uma “agitadora profissional”, e membros da sua Administração acusam-na de “um acto de terrorismo doméstico”, argumentando que os agentes responderam a uma ameaça de atropelamento. “Eu vi o vídeo, não acreditem nesta máquina de propaganda”, reage o governador democrata Tim Walz, que se juntou a outros políticos locais na exigência da saída do ICE da cidade.
O incidente ocorreu durante a manhã, hora local, quando um contingente do ICE levava a cabo uma operação anti-imigração ilegal num bairro residencial do Sul de Mineápolis, nas proximidades do local da morte de George Floyd. A vítima conduzia um veículo com que terá bloqueado parcialmente a via, na Avenida Portland, presumivelmente em protesto contra a acção das autoridades, que se têm focado na abordagem a residentes oriundos da Somália.
A condutora terá sido instada a retirar-se do local. Um vídeo do site noticioso Minnesota Reformer, um de três que foram divulgados nas redes sociais, mostra um agente a tentar abrir a porta do veículo. A viatura recua e aparenta estar a iniciar marcha para abandonar o local. Momentos depois, a condutora é atingida a tiro a curta distância e o seu veículo, desgovernado, acabaria por colidir com outros automóveis estacionados a alguns metros.
A vítima é identificada pelo jornal local Minnesota Star Tribune como Renee Nicole Good, uma cidadã norte-americana de 37 anos, mãe de três filhos. O comandante da polícia da cidade, Brian O’Hara, diz que “nada indica que esta mulher fosse alvo de qualquer investigação das autoridades”.
“Ela estava a tentar fazer inversão de marcha, e o agente do ICE estava a frente do carro, e puxou de uma arma e empunhou-a para dentro do carro. A cintura dele estava junto ao pára-choques, ele esticou-se sobre o capô e disparou-lhe contra a cara três, quatro vezes”, relata à rádio pública NPR a testemunha Emily Heller.
“Um dos agentes do ICE tentou abrir a porta e outro pôs-se à frente do veículo e disse ‘pára’, antes de disparar três vezes seguidas a seguir a dizer ‘pára’”, conta outra testemunha, Connor Janeksela, ao New York Times.
A Administração Trump e as autoridades federais contam outra versão. “A mulher que estava a conduzir o carro foi muito desordeira, obstruindo e resistindo, e depois atropelou violentamente, deliberadamente e cruelmente o agente do ICE, que parece tê-la atingido em legítima defesa”, escreveu o Presidente norte-americano na rede social Truth Social, acusando ainda a mulher de 37 anos de ser uma “agitadora profissional”.
Kristi Noem, secretária de Segurança Interna, acusa a vítima de um “acto de terrorismo doméstico”, alegando que “tentou atropelar” os agentes do ICE no local, e que um destes “disparou defensivamente para se proteger a si e às pessoas em seu redor”. A acusação de “terrorismo doméstico” está a ser repetida por vários elementos do Governo, incluindo o conselheiro presidencial Stephen Miller.
Em conferência de imprensa, Noem disse que o agente do ICE autor dos disparos teve de receber assistência hospitalar. Nos diversos vídeos do incidente, o atirador sai do local pelo próprio pé, sem sinais visíveis de ferimentos.
Walz coloca Guarda Nacional em alerta
O governador democrata do Minnesota, Tim Walz, candidato à vice-presidência norte-americana em 2024, com Kamala Harris, contesta o relato das autoridades federais, qualificando-o de “propaganda”.
“Eu vi o vídeo”, diz Walz. “O estado vai garantir que haverá uma investigação completa, justa e célere para garantir o apuramento de responsabilidades e justiça”, declarou o governador, que acrescentou ter colocado a Guarda Nacional do Minnesota em alerta, aludindo implicitamente ao risco de protestos violentos em resposta ao incidente desta quarta-feira.
No terreno, realizavam-se ao final de quarta-feira vigílias em memória da vítima. Apesar de haver relatos de altercações entre manifestantes e agentes federais, não houve até ao momento registo de novos incidentes graves.
“Tenho uma mensagem muito simples. Não necessitamos de mais nenhuma ajuda do Governo Federal. Donald Trump e Kristi Noem, já fizeram o suficiente”, acrescentou Walz, que também apelou aos habitantes da cidade e do estado para não “morderem o isco” e não cometerem actos que possam desencadear uma declaração do estado de insurreição. “Não permitam que eles declarem a lei marcial”, exigiu.
Peggy Flanagan, vice-governadora do Minnesota, apelou ao ICE para sair do estado “imediatamente”, acusando a polícia de imigração de ter cometido um “indescritível acto de violência”, mas exortando os habitantes de Mineápolis a “permanecerem pacíficos, calmos e unidos”.
“Saiam desta cidade”, exigiu também o mayor democrata de Mineápolis, Jacob Frey, pedindo a retirada do ICE numa declaração de vernáculo intraduzível: “Get the fuck out.” Em reacção, pelo menos dois congressistas republicanos apelaram à detenção do autarca.
Em Washington, os líderes das minorias democratas no Senado e na Câmara dos Representantes, Chuck Schumer e Hakeem Jeffries, exigiram a abertura de uma investigação criminal. Em resposta às acusações de “terrorismo doméstico” apresentadas pela secretária da Segurança Interna, Jeffries acusou Noem de ter “zero credibilidade”. Schumer, por seu turno, responsabilizou a presença do ICE em diversas cidades do país “sem qualquer cooperação com as forças de autoridade locais” pela ocorrência de “tragédias horríveis”.
O ICE executava o segundo de 30 dias de uma operação especial em Mineápolis. Em 2025, e de acordo com contas do jornal britânico The Guardian, morreram pelo menos 32 pessoas sob custódia do ICE, o número mais elevado das últimas duas décadas.
O New York Times contabiliza nove casos, desde Setembro, de pessoas baleadas dentro dos seus veículos por agentes do ICE. Um dos casos envolveu um cidadão português, Tiago Alexandre Sousa Martins, atingido a tiro num subúrbio de Baltimore, no Maryland.
Em Dezembro, aquela polícia federal mantinha detidos mais de 68 mil indivíduos, cerca de 75% dos quais sem qualquer acusação criminal. A Administração Trump diz ter deportado mais de 600 mil estrangeiros desde o regresso do Presidente republicano à Casa Branca.