O turismo global continua em crescimento. Dados da ONU indicam que de janeiro a setembro de 2025 mais de 1,1 mil milhões de turistas realizaram viagens internacionais, o que representa um crescimento de 5% em relação ao período homólogo. Tudo indica que, em 2026, o turismo será um setor em crescimento – esperando que não haja um acontecimento mundial, com o impacto de uma pandemia ou guerra, que volte a pôr as viagens em suspenso.

Contudo, por conta deste aumento, há destinos que estão sobrecarregados. O excesso de turismo não é uma novidade, existindo já muitos destinos que implementaram medidas para controlar e reduzir o acesso de visitantes, como Veneza, Barcelona ou Amesterdão.

Por outro lado, o excesso de turistas pode prejudicar ecossistemas que já se encontram fragilizados pelas alterações climáticas. E, por fim, existem destinos que se tornaram “virais” nos últimos anos, mas que podem representar alguns riscos no que toca à segurança do viajante.

Viajar é, sem dúvida, uma forma de exercer a liberdade e de quebrar preconceitos num mundo cada vez mais polarizado. Esta lista não tem a intenção de proibir destinos, apenas alertar para lugares que estão a sofrer com o excesso de visitantes ou que podem não ser as melhores opções para uma próxima viagem. Cabe aos viajantes fazerem escolhas sustentáveis e conscientes, afinal, para cada destino massificado, existem muitos ainda pouco conhecidos.

Bali, Indonésia

Turista num templo em Ubud, Bali

Turista num templo em Ubud, Bali
Créditos: AFP

É um dos destinos mais em alta nos últimos anos e conseguimos perceber o hype. Bali reúne vários ingredientes para uma viagem de sonho: da espiritualidade às praias, passando pelos arrozais, surf, cascatas e templos. A “ilha dos Deuses” é, sem dúvida, um destino incrível, mas o aumento galopante do turismo está a deixar marcas graves em Bali.

Do trânsito infernal ao excesso de lixo, passando pela construção desenfreada e pelas filas intermináveis para atrações, Bali tornou-se vítima do próprio sucesso, escreve a BBC neste artigo. Se foi através das redes sociais que o destino conseguiu a fama mais recente, é também aí que podemos encontrar muitos vídeos ao estilo “expetativa vs. realidade” que mostram o lado nada “instagramável” do excesso de turismo.

Claro que é um lugar que valerá sempre a pena conhecer, porém, há muitas ilhas na Indonésia menos visitadas e que são verdadeiros paraísos na terra. Se este é um dos seus destinos para 2026, pode pesquisar também por Raja Ampat, Lombok ou Wakatobi.

Pôr-do-sol em Bali

Pôr-do-sol em Bali
Créditos: Mauro-Fabio Cilurzo em Unsplash

Maiorca, Espanha

Mais uma ilha de sonho, esta já bem perto de nós, mas cujo excesso de turismo tem provocado a implementação de medidas e manifestações contra os turistas. “Voltem para casa”, “A cidade não está à venda”, “Aqui vivem pessoas, não posts de Instagram” foram algumas das frases de ordem num protesto na capital Palma em junho do ano passado. A escalada no preço da habitação é uma das principais queixas dos locais.

Em outubro, a autarquia de Palma proibiu novos alugueres turísticos na área municipal. A cidade também baniu os barcos de festa. Há uma estratégia em curso para promover um turismo de qualidade e sustentável, mas com números tão elevados – que devem chegar aos 20 milhões de visitantes em 2025 – fica difícil pensar em turismo sustentável.

Cartaz de protesto contra excesso de turismo em Maiorca

Cartaz de protesto contra excesso de turismo em Maiorca
Créditos: AFP

Se tem este destino na sua lista para 2025, a melhor opção é não ir durante a época alta e procurar ficar alojado noutras partes da ilha que não Palma. Menorca e Ibiza, outras ilhas do arquipélago das Baleares, também enfrentam problemas decorrentes do excesso de visitantes. Talvez a melhor estratégia seja procurar outra ilha do Mediterrâneo para as férias.

Espanha, o segundo país mais visitado do mundo a seguir a França, está a sentir os efeitos do turismo massificado noutros destinos, como as Ilhas Canárias e Barcelona.

Antártida

Antártida, o último reduto intocado do planeta, recebe cada vez mais visitantes

Antártida, o último reduto intocado do planeta, recebe cada vez mais visitantes
Créditos: Freysteinn G. Jonsson em Unsplash

De acordo com o site de viagens Fodor’s, a Antártida é um destino que não deveria estar na bucket list de nenhum viajante. O continente gelado tem assistido a um aumento exponencial de visitantes. Na temporada de 2023 e 2024, foram cerca de 124 mil, sendo que nos anos de 1990 o número não ultrapassava os 8 mil visitantes por temporada.

Muitos turistas pagam um preço elevado por expedições ao destino considerado o último reduto inexplorado e selvagem do planeta. Porém, o aumento da presença humana no continente austral está a provocar danos. Um estudo publicado na revista Nature Sustainability refere que o aumento do turismo e a expansão das bases de investigação estão a poluir o território, contribuindo para acelerar o degelo da neve e ameaçando ecossistemas frágeis já prejudicados pelas alterações climáticas.

Antártida

Antártida
Créditos: Derek Oyen em Unsplash

“A crescente presença humana na Antártida suscita preocupações sobre os poluentes da combustão de combustíveis fósseis, incluindo os provenientes de navios, aviões, veículos e infraestruturas de apoio”, escreveram os autores do estudo, citados neste artigo.

A Antártida não é um destino que aparece nas listas dos mais populares, até pelos custos e deslocações que implicam as viagens. Mas será, certamente, um lugar que pagará um preço alto, se o excesso de visitantes não for regulamentado em breve

Socotra, Iémen

Uma ilha com paisagens extraordinárias e praias pristinas. Assim é Socotra, o arquipélago iemenita parece um paraíso surreal afastado de tudo. Mas, e apesar de ter sido um destino viral nas redes sociais durante o ano passado, não podemos esquecer que Socotra pertence a uma região envolvida em muitos conflitos.

Arquipélago de Socotra: um paraíso perdido

Arquipélago de Socotra: um paraíso perdido
Créditos: AFP

Esta semana, a ilha entrou nas manchetes através da notícia de que 600 turistas ficaram retidos depois de as ligações aéreas terem sido canceladas por causa da retirada das tropas dos Emirados Árabes Unidos do território do Iémen.

O país enfrenta uma guerra civil desde 2014, quando os rebeldes xiitas houthis, apoiados pelo Irão, tomaram a capital Sana. A Arábia Saudita, por seu lado, declarou apoio ao governo iemenita contra os houthis.

Mesmo que voar para uma ilha paradisíaca e isolada possa parecer tentador, é sempre bom informar-se sobre o estado do conflito na região e ponderar se vale mesmo pena realizar esta viagem durante 2026.

Arquipélago de Socotra: um paraíso perdido

Arquipélago de Socotra: um paraíso perdido
Créditos: AFP

Fronteira Tailândia-Camboja

O mesmo deverá fazer se tem nos seus planos viajar até estes dois países do Sudeste Asiático, cujo conflito fronteiriço recomeçou no ano passado e provocou dezenas de mortos e mais de 500 mil deslocados em dezembro, com uma nova escalada, após um cessar-fogo em julho. A situação entre os dois países continua tensa, apesar de terem assinado um novo cessar-fogo no final de 2025.

Cerimónia budista pelas vítimas do conflito Camboja-Tailândia e a favor da paz no Memorial Win-Win, em Phnom Penh

Cerimónia budista pelas vítimas do conflito Camboja-Tailândia e a favor da paz no Memorial Win-Win, em Phnom Penh
Créditos: AFP

Se Camboja e/ou Tailândia fazem parte dos seus planos de viagens para este ano, é importante traçar o roteiro levando em consideração esta situação. Os dois países continuam a receber turistas e algumas das principais atrações, como Banguecoque, Phuket, Chiang Mai, Siem Reap e Phnom Penh, estão afastadas dos lugares onde têm decorrido conflitos. Por outro lado, vários templos na fronteira encontram-se encerrados.

Veja também: 26 destinos que vão marcar o ano de 2026

Veneza, Itália

O destino tem lutado contra o número de cerca de 30 milhões de visitantes que, anualmente, visitam a cidade italiana, contribuindo para a sua degradação e perda de identidade. Atualmente, o centro de Veneza tem apenas 50 mil habitantes, em cerca de 70 anos, a cidade perdeu 125 mil habitantes. Os canais, a história e o romantismo, bem como a arquitetura e a gastronomia fazem de Veneza um destino de eleição, mas será que vale a pena pô-lo na bucket list deste ano?

Taxas, limite para grupos de visitantes, torniquetes para controlar o acesso e proibição de navios de cruzeiro no centro da cidade são algumas das medidas já adotadas por Veneza para tentar limitar o número de turistas.

Visitantes em esplanadas na praça de São Marcos durante a

Visitantes em esplanadas na praça de São Marcos durante a “acqua alta”
Créditos: AFP

O destino também está ameaçado pelas alterações climáticas. A subida do nível do mar põe em causa a própria existência de Veneza que sofre inundações mais frequentes e que atingem mais partes da cidade. No último século, Veneza afundou 25 centímetros e, desde 1900, o nível médio do mar na região subiu quase 30 centímetros.

Enquanto a cidade luta para não desaparecer do mapa, com vários projetos de engenharia em curso, os visitantes continuam a chegar. Será que muitos vêm com a ideia de que este é um destino para visitar antes que seja tarde demais?

Carnaval de Veneza e a sua magia especial

Carnaval de Veneza e a sua magia especial
Créditos: AFP

Quioto, Japão

A antiga capital imperial do Japão tem sido das que mais sofre o crescimento do turismo no país, com as multidões a lotarem ruas e templos históricos. Os residentes queixam-se da falta de respeito pelos costumes locais e de civismo (barulho, lixo, invasão de propriedade privada e bloqueio à circulação), bem como o facto de os turistas visitarem sempre os mesmos lugares, aqueles que aparecem na lista de obrigatórios, como a Floresta de Bambu de Arashiyama.

O excesso de turistas está a prejudicar Quioto

O excesso de turistas está a prejudicar Quioto
Créditos: AFP

Desde 2024, o Japão assistiu a um “boom” do turismo. Entre janeiro e setembro de 2025, o país recebeu o número recorde de 31,6 milhões de visitantes internacionais. Mas a nação nipónica já começou a pôr em curso estratégias para gerir melhor o fluxo de visitantes. Entre as medidas estão o aumento das taxas de visto e de alojamento.

Ainda assim, se o Japão faz parte dos seus planos para 2026, existem muitas formas de contornar o excesso de turistas que se concentra apenas em algumas regiões. Este guia (em inglês) deixa dicas para evitar os lugares mais congestionados.

Uma foto com vista para o Monte Fuji

Uma foto com vista para o Monte Fuji
Créditos: AFP

E Lisboa?

A capital portuguesa também sente o peso do excesso de turistas. Aliás, em 2025, Lisboa entrou na lista do Fodor’s como um dos destinos a não visitar. Se por um lado, há quem defenda que não existe excesso de turismo na cidade (e no país), só está é mal distribuído, por outro, os lisboetas sentem na pele o aumento exponencial do número de visitantes. Portanto, e considerando que Portugal tem tantos outros destinos incríveis e ainda poucos visitados, talvez seja melhor riscar Lisboa da sua lista de viagens para 2026.