Os Jardins Botânicos Reais de Kew, em Londres, elaboram anualmente uma lista com dez curiosas espécies de plantas e fungos descritas pela ciência pela primeira vez ao longo do ano passado. O inventário de 2025 apresenta-nos seres vivos singulares como um fungo zombie que parasita aranhas-de-alçapão no Brasil e uma orquídea “sanguinolenta” das florestas andinas do Equador.

O anúncio dos jardins botânicos de Londres sublinha a urgência da conservação num contexto de perda acelerada de biodiversidade. “É difícil proteger aquilo que não conhecemos, não compreendemos e nem temos um nome científico”, alerta Martin Cheek, líder de investigação na equipa africana dos Kew.

Martin Cheek recorda que a publicação de novas espécies deixou de ser um exercício académico livre de inquietações. “Agora, cada vez mais, descobrimos que estas espécies já estão ameaçadas, ou quase extintas, no momento em que as descrevemos”, afirma o especialista num comunicado dos jardins botânicos de Londres.

Estima-se que três em cada quatro plantas ainda por descrever estejam ameaçadas de extinção. “Para onde quer que olhemos, as actividades humanas estão a erodir a natureza até ao ponto da extinção”, adverte Martin Cheek. Nos jardins botânicos de Londres, iniciativas como a conservação de sementes no Millennium Seed Bank procuram reverter, ou pelo menos desacelerar, o actual cenário de perda progressiva de biodiversidade.

Em 2025, os cientistas dos Kew identificaram 190 novas espécies em colaboração com parceiros internacionais. Entre elas, destaca-se uma insólita espécie de campânula descoberta nos Balcãs e uma planta vermelhíssima baptizada em homenagem ao filme de animação O Castelo Andante (2004).

Ainda há muito por descobrir e caracterizar na natureza. Estima-se que haja cerca de cem mil espécies vegetais e entre dois e três milhões de fungos por identificar. “A taxonomia fúngica continua a ser uma das fronteiras mais estimulantes da ciência, embora também das mais intimidantes”, afirma Irina Druzhinina, especialista em diversidade micológica, para quem cada nova descoberta é “um privilégio”.

Eis a lista completa das dez mais “estranhas e maravilhosas” espécies descobertas pelos especialistas dos Kew em 2025:

O fungo zombie que infecta aranhas

Um dos mais recentes membros “oficiais” do reino dos fungos, Purpureocillium atlanticum, é um organismo que infecta aranhas enterradas no solo, cobrindo-as com uma rede de filamentos delicados e macios chamada micélio branco. Trata-se, portanto, de um fungo entomopatogénico, ou seja, que parasita e provoca doenças em insectos, razão pela qual é informalmente apelidado de “zombie”.




O fungo Purpureocillium atlanticum, descoberto na Mata Atlântica brasileira, parasita aranhas-de-alçapão
João Araújo / DR

Quando as aranhas-de-alçapão (ou aranhas-buraqueiras) já se encontram enredadas no micélio, a espécie Purpureocillium atlanticum faz emergir um corpo frutífero com cerca de dois centímetros, que atravessa a porta da toca para libertar esporos, as unidades reprodutivas dos fungos.

A descoberta, realizada na Mata Atlântica brasileira em Novembro de 2022, foi possível graças a tecnologia de sequenciação genética portátil. Este método permitiu à equipa de cientistas liderada por João Araújo decifrar o genoma no terreno e quase em tempo real. De acordo com os investigadores, este tipo de abordagem “acelera a descoberta de espécies e a compreensão ecológica”.

“Os fungos do género Purpureocillium infectam uma variedade de hospedeiros, incluindo pessoas com imunidade comprometida (mas não é o caso desse que descobrimos)”, explica ao Azul João Araújo. Espécies do grupo P. atypicola é especialista em parasitar aranhas, refere o especialista, sendo encontradas em várias partes do mundo, incluindo o Japão (local original da primeira descrição), os Estados Unidos e o Brasil.

Uma orquídea manchada de “sangue”

Nas florestas andinas de Cotopaxi, no Equador, os investigadores encontraram Telipogon cruentilabrum, uma orquídea de flores amarelas com veios vermelhos e um labelo cor de sangue. “O labelo é uma pétala modificada que em muitas espécies se parece com um lábio. Funcionalmente, é uma plataforma de aterragem de polinizadores na maioria das espécies”, explica ao Azul o biólogo João Farminhão, do Jardim Botânico da Universidade de Coimbra, que não esteve envolvido na descoberta.




Esta nova espécie de orquídea, descoberta no Equador, apresenta estruturas amarelas e cor de sangue
Gabriel Iturralde / DR

A Telipogon cruentilabrum cresce nas florestas equatorianas sobre as margaridas-de-árvore, a poucos metros do solo, e recorre à mimetização para atrair moscas-macho em busca de acasalamento. “Esta espécie tem sido há muito identificada erroneamente como Teligopon dendriticus”, alerta o artigo científico que caracteriza a nova espécie.

A espécie foi avaliada como ameaçada, num contexto ecológico que tem sido agravado pela mineração e pela agricultura. “Mais de metade do seu habitat já foi destruída”, alerta a equipa liderada por Carlos Martel, que descreveu outras três espécies raras do género Telipogon em 2025, citado na nota de imprensa dos Kew.

Flores flamejantes como Calcifer

Uma acantácea de três metros descoberta no Peru, Aphelandra calciferi, exibe flores flamejantes em tons de laranja e amarelo que evocam Calcifer, o demónio de fogo de O Castelo Andante, um filme de animação do realizador japonês Hayao Miyazaki, dos estúdios Ghibli.




A nova espécie Aphelandra calcifer foi assim baptizada em homenagem à personagem Calcifer, oriunda de um filme de animação japonês
Rodolfo Vasquez/DR

Os investigadores acreditam que esta planta tem “grande potencial como ornamental de estufa”, segundo o artigo assinado por John Wood e Rosa Villanueva-Espinoza. O investigador John Wood, ligado à Universidade de Oxford, lidera a caracterização de novas espécies nos Kew em 2025, somando 25 descrições publicadas ao longo dos últimos 12 meses.

As “pedras vivas” da Namíbia

Da savana da Namíbia chega uma nova subespécie das célebres “pedras vivas”, plantas suculentas que se disfarçam de seixos para sobreviver em ambientes áridos e hostis. Chama-se Lithops gracilidelineata mopane e diferencia-se de outras subespécies pelo tom cinzento-claro, levemente esbranquiçado, e pela superfície lisa das folhas.




Nova subespécie de Lithops gracilidelineata
Sebastian Hatt/DR

“Difere de todas as outras espécies de Lithops por crescer na savana arbustiva de mopane de Colophospermum mopane, entre seixos de quartzo e cascalho”, lê-se no artigo publicado em Dezembro na revista científica Kew Bulletin. As florestas de mopane são dominadas pela Colophospermum mopane, uma árvore característica de regiões quentes e secas no sul do continente africano.

A recolha ilegal destas “pedras vivas” ameaça várias espécies do género Lithops. “Estamos a assistir a um risco real de extinção”, sublinha o investigador Sebastian Hatt, que liderou o estudo com parceiros namibianos.

Câmpanula-branca dos Balcãs

Nos Balcãs, nas pradarias subalpinas do monte Korab, entre a Macedónia e o Kosovo, foi identificada Galanthus subalpinus, uma nova espécie de câmpanula-branca que se confunde com outra mais comum, Galanthus nivalis. A confirmação chegou através da análise genética e do tamanho do genoma.




Galanthus subalpinus, uma nova espécie de campânula-branca descoberta nos Balcãs
Ian McEnery / DR

A nova espécie foi descrita em 2025 e já é considerada criticamente ameaçada devido à colecta para horticultura, ao sobrepastoreio e aos incêndios rurais. “A população é diminuta e enfrenta múltiplas pressões”, alerta o investigador Aaron Davis, que coordenou a investigação.

Frutos com sabor a banana e goiaba

Na ilha Manus, na Papuásia-Nova Guiné, a nova espécie Eugenia venteri surpreende pelo sabor dos seus frutos, descritos como uma mistura de banana e goiaba com um toque de eucalipto. Esta árvore de 18 metros produz flores brancas e frutos esféricos com sulcos vincados, que se desenvolvem em longas hastes (flagelos) que se assemelham a chicotes e serpenteiam pelo solo.




Os frutos da nova espécie Eugenia venteri destacam-se pelo sabor de banana e goiaba com um toque de eucalipto
Fanie Venter/ DR

“A nova espécie Eugenia aqui descrita, da ilha de Manus, representa o único táxon Eugenia conhecido até agora que exibe caulifloria e a primeira espécie da Papuásia-Nova Guiné a fazê-lo”, refere o artigo científico publicado na revista Kew Bulletin. Caulifloria é um termo botânico que se refere às plantas que desenvolvem flores e frutos directamente nos caules principais ou troncos lenhosos (em vez de em novos brotos).

“As características morfológicas da nova espécie foram observadas a partir de colecções de herbários e complementadas com notas de campo fornecidas pelos colectores”, lê-se ainda na mesma publicação.

A espécie parece depender de ratos gigantes para polinização e dispersão. “É uma adaptação fascinante”, afirmam os colectores Arison Arihafa e Fanie Venter. A espécie foi baptizada como E. venteri em homenagem aos dois colectores.

Árvore leguminosa nos Camarões

Numa floresta remota dos Camarões, ergue-se Plagiosiphon intermedium, uma leguminosa que pode atingir 34 metros e pesar cinco toneladas, tornando-se a maior nova espécie descrita em 2025 pelos jardins botânicos de Kew. Trata-se da primeira adição ao género Plagiosiphon em quase oito décadas.




Foi descrita para a ciência em 2025 a portentosa árvore Plagiosiphon intermedium
DR

A nova espécie está restrita a duas localidades não protegidas em Ngovayang, região camaronense que é considerada um alfobre de biodiversidade e tem sido alvo de múltiplos projectos de mineração.

“A dependência de fungos ectomicorrízicos torna estas árvores ainda mais vulneráveis”, explica o investigador Xander van Der Burgt, que liderou a descrição com colegas do Instituto Nacional de Investigação Agrícola dos Camarões. Os fungos ectomicorrízicos desenvolvem-se no solo em simbiose com raízes de plantas.

O fungo das gramíneas

Na Mongólia Interior, uma região autónoma da China, os investigadores identificaram mais uma peça do vasto e complexo mundo fúngico. Magnaporthiopsis stipae, um fungo endófito isolado das raízes da gramínea Stipa sareptana, integra um conjunto de 24 novas espécies, 11 novos géneros e uma nova família descritos recentemente.




Imagem de microscopia electrónica da nova espécie de fungo Magnaporthiopsis stipae, com cor falsa
C. L. Zhang & Irina Druzhinina / DR

Estes organismos vivem dentro de plantas sem causar doença e, por vezes, beneficiam a hospedeira. O estudo, liderado por cientistas da Universidade de Zhejiang, sublinha que muitos fungos ainda por identificar são invisíveis ao olhar humano.

A palmeira dos frutos rubros

Já nas encostas calcárias de Samar, nas Filipinas, os investigadores encontraram uma palmeira elegante e rara, agora baptizada pela comunidade científica como Adonidia zibabaoa. Descoberta em 2013 por Jiro e Zhereeleen Adorador, esta espécie de frutos vermelhos, conhecida localmente como Amuring, cresce em zonas vulneráveis a tufões e já desperta interesse entre coleccionadores.




A palmeira filipina Adonidia zibabaoa
Jiro Adorador / DR

A sua classificação da nova palmeira constituiu um desafio. Foram as análises genéticas realizadas nos jardins botânicos de Kew que confirmaram a inclusão da planta no género Adonidia, que até agora contava apenas com duas espécies, incluindo a popular palmeira-de-natal.

A orquídea-lagarta da Indonésia

Na Nova Guiné e nas ilhas Molucas, territórios indonésios, seis novas orquídeas foram descritas, entre elas a curiosa Dendrobium eruciforme. Esta nova planta é chamada “orquídea-lagarta” devido ao porte diminuto e à aparência que evoca uma colónia de lagartas sobre troncos.




A nova espécie de orquídea Dendrobium eruciforme
Andre Schuiteman / Kew Gardens

Cinco destas seis novas espécies resultam do trabalho conjunto entre os Kew e parceiros locais no âmbito do projecto Tropical Important Plant Areas, que já identificou 13 áreas prioritárias para conservação. Três pertencem à região conhecida como Crown Jewel, um dos redutos mais ricos e intactos de floresta tropical, ocupado pelas aves-do-paraíso celebrizadas pelo naturalista britânico David Attenborough.