Apesar do bloqueio policial à entrada dos agricultores no coração da capital, os manifestantes chegaram esta madrugada a Paris, muitos vindos da Dordonha, no sudoeste do país, que haviam saído da região na segunda-feira de madrugada.
Os agricultores estacionaram tratores em frente à Torre Eiffel, do Arco do Triunfo e do Rio Sena, mas o contingente policial reencaminhou os manifestantes para ruas laterais, mantendo-se alguns tratores a bloquear esses marcos da capital francesa. Deixaram uma coroa de flores junto à Torre Eiffel “em homenagem aos agricultores franceses”.Os manifestantes dirigiram-se a pé até à Assembleia Nacional, tendo deixados os tratores junto aos principais monumentos da capital onde protestaram durante as primeiras horas da manhã, por ordem do ministério do Interior.
“Queremos ser recebidos hoje pela presidente da Assembleia Nacional e pelo presidente do Senado”, declarou o sindicalista Bertrand Venteau da Coordenação Rural. A presidente da Assembleia Nacional tentou falar com os agricultores junto ao parlamento, mas foi vaiada pelos manifestantes. No entanto, a presidente anunciou que irá reunir comos sindicatos dos agricultores às 14h (13h em Portugal Continental).

Os protestos, convocados pela Coordenação Rural, já resultaram na prisão de, pelo menos, três pessoas, junto à autoestrada A6, em Nemours, a 80 quilómetros da capital.
Uma estrada – de Porte d’Auteuil – foi bloqueada com o corte de árvores, assim como a autoestrada A13, em direção a Marselha e Lyon.
O governo francês reagiu através da sua porta-voz, Maud Bregeon, que classificou a ação como “ilegal”. “A situação que temos visto desde ontem à noite, esta manhã, é inaceitável”, lamentou Bregeon, que assegura que o governo tem mantido o diálogo com os sindicatos dos agricultores.
O ministro do Interior está a “monitorizar a situação de perto”, com a ministra da Agricultura a apelar à “calma” e a reconhecer as reivindicações como “legítimas”.
A polícia francesa decretou esta quarta-feira a proibição de acesso de tratores a certas áreas da capital francesa, como o Palácio do Eliseu, a residência oficial do chefe de governo, o Parlamento, entre outros.

Rosário Salgueiro, correspondente da RTP em Paris Polémico acordo UE-Mercosul
Uma das causas dos protestos é o acordo comercial entre a União Europeia (UE) e os países da Mercosul. Este acordo foi concluído em 2019, mas ainda não foi ratificado pela União Europeia, que enfrenta a oposição da França, Polónia, Hungria e Itália, mas o governo italiano admitiu esta quarta-feira dar luz verde ao acordo, se forem dadas garantias em matéria de normas ambientais e sanitárias.
O acordo prevê a eliminação gradual, ao longo de 15 anos, de tarifas até 91 por cento sobre as exportações da UE para o Mercosul, de automóveis, vinhos, entre outros produtos.Em contrapartida, a UE irá eliminar gradualmente, ao longo de 10 anos, as tarifas até 92 por cento sobre as exportações da Mercosul, sobretudo de produtos agrícolas, algo que preocupa os agricultores, que acusam o acordo de permitir importação barata de produtos do Mercosul que não respeitem as normas ambientais e de segurança alimentar da União Europeia.
A proibição do uso de pesticidas é um ponto sensível, com a França a exigir reciprocidade das normas de produção por parte da Mercosul, devido ao elevado preço dos fertilizantes para os agricultores.
No entanto, a UE defende o acordo como uma alternativa à dependência face à China e uma poupança de cerca de quatro mil milhões de euros em tarifas.
Na quarta-feira, os ministros da Agricultura da UE foram chamados a Bruxelas para uma reunião extraordinária para discutir os últimos pontos do acordo, com promessa de pagamentos aos agricultores europeus no próximo orçamento comunitário, de acordo com fontes da UE. Este pagamento serviria para atenuar o impacto da proposta redução da Política Agrícola Comum (PAC).
Na sexta-feira, o COREPER (Comité os Representantes Permanentes, órgão preparatório do Conselho da UE) irá reunir para a votação final do acordo. Ursula Von der Leyen está confiante que irá conseguir os votos necessários para a aprovação e espera estar no Paraguai no dia 12 de janeiro para fechar o acordo.