O Observador publica aqui a tradução integral da transcrição dos vídeos gravados por Cláudio Neves Valente, o atirador que matou duas pessoas na Universidade de Brown e é suspeito do homicídio do físico português Nuno Loureiro, em dezembro passado. A tradução foi efetuada da versão inglesa divulgada na terça-feira pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, feita a partir dos vídeos originalmente gravados em português.

Suspeito da morte de físico português e tiroteio em Brown gravou vídeos depois dos ataques que preparava “há muito tempo”

“Ok, como podem ver, o meu olho está meio lixado. O cartucho da bala fez ricochete ali. Não sei se isso vai ter implicações no sucesso do que eu queria fazer ou não… Hum, está feito. Foram, foram seis meses, meu. Não seis meses, seis semestres. Eu já tinha planeado isto até há um pouco mais. Parece que estou a começar a ver um pouco melhor com o meu olho, mas muito pouco ou quase nada. Chegou a hora das conclusões finais. Chegou a hora das conclusões finais.

Hum, foi tudo um pouco incompetente, mas pelo menos algo foi feito. O único objetivo era… sair mais ou menos nos meus próprios termos, e… e já está… já foi muito atrasado. E pelo menos deixar que eu não seria… não seria aquele que acabaria por sofrer mais com tudo isto. Não, isso não pode acontecer. Portanto, se não gostas, azar. Azar. Também houve muitas merdas de que não gostei e tive de aturar.

Portanto, o que foi feito agora… Estou num armazém em Salem, tenho isto aqui há três anos, acho eu. Ainda tenho dinheiro. Teria dinheiro para mais alguns bons anos, se fosse em Portugal ou num lugar mais barato ainda daria para mais tempo, mas não me importo. Estou aqui… Estou aqui há muito tempo sem me importar. Dizer que estava extraordinariamente satisfeito, não, mas também não me arrependo do que fiz. Honestamente, o meu único arrependimento é esta coisa no olho.

Mas foi muito difícil, meu. Eu realmente tenho muita… muita inércia. Mas como quase fui confrontado por um tipo lá naquele dia… não quase, eu fui mesmo confrontado e ele sabia a minha… a minha… a minha matrícula, sinceramente, nunca pensei que demorariam tanto tempo a encontrar-me. Mas olha, eu fiz mais uma, basicamente, já que não tenho a certeza; foi feito a uma distância relativamente curta e rapidamente, e não sei exatamente quando fui atingido no olho, por isso não tenho a certeza… Espero que pelo menos o primeiro tenha acertado. Não sei. Não me importo. Está tudo acabado. Agora é a minha hora de partir, à minha maneira. E… que mais?

Não vou pedir desculpas, porque durante a minha vida ninguém me pediu desculpas sinceras. Nas poucas vezes em que parecia que isso tinha acontecido, mais tarde tive acesso às pessoas em privado, e as conversas que tivemos em privado mostraram que era tudo falso. Por isso, não vão levar nada de mim. Não gostava de nenhum de vocês. Eu vi toda essa merda desde o início. Comecei a suspeitar desde que mal tinha consciência de ter memória, aos três anos de idade. Aos cinco anos, eu já tinha certeza. Eu vi toda essa merda desde o início, com algumas exceções, e… esperava que fosse negociável, como uma questão de competência, moralidade.

É por isso que eu era um bom rapaz a todos os níveis; nem sempre, mas quase sempre, e… e, não. Não é… não há… não há nenhum tipo… é completamente inegociável. Então vão-se lixar, vão para o inferno. Três e-mails devem ser enviados hoje, esta noite, as pessoas vão recebê-los, basicamente. Não vou dizer mais nada. E o problema é que, com esta situação dos olhos, cheguei a pensar em fazer isto com óculos, mas, no último momento, pensei: não, porque os óculos embaciam, é uma distância curta. Fui estúpido. Se tivesse feito isso, não teria… mas também não tenho nenhum interesse em ficar aqui. É isso. Também não tenho interesse em ser famoso. Não ligo a mínima para como vocês me julgam ou o que pensam de mim. A grande maioria das coisas que vão ser ditas, até já consigo imaginar.

Na verdade, eu já estava a ler, gosto particularmente da merda do Trump, de me ter chamado de animal, o que é verdade. Eu sou um animal e ele também é, mas não tenho amor… Não tenho ódio pelos Estados Unidos, também não tenho ódio nenhum. Esta foi uma questão de… de oportunidade. Gostaria muito de agradecer pela única oportunidade que vocês me deram aqui, que foi esta, e… e olhem, é isso. Não tenho mais nada a dizer. Estamos terminados. Não pensei que seria exatamente nestes termos, nem estava a planear vir aqui, mas este é um lugar isolado, espero ficar aqui por pelo menos algumas boas horas sem… sem ser encontrado.

Mesmo que o estúpido carro esteja lá fora, e obviamente haja um registo da minha entrada, e haja câmaras e toda essa merda, mas provavelmente levará algumas boas horas, então, quanto mais tempo ficar aqui, melhor. Vamos ver se tenho coragem de fazer isto a mim mesmo agora, porque foi muito difícil fazer isso com todas essas pessoas, meu. Foi muito difícil. Tenho inveja daqueles que nascem, por natureza ou não, ou por causa de… Tenho inveja daqueles que não têm dificuldades em fazer isso, e essas pessoas existem. É disso que realmente tenho inveja. O resto não significa nada para mim. Vamos ver se tenho coragem. São 22h, e é isto.”

“Quando digo que não tenho ódio pelos Estados Unidos, também não tenho amor por eles — mal dá para perceber isso — não tenho amor. Na verdade, acho que vir para cá, as duas vezes que vim, foi uma grande asneira. Mas dizer que vocês são extraordinariamente maus, isso seria… nem… nem… nem mau nem bom. É a mesma merda. Vocês são macacos como os outros.

Mas eu queria deixar isto… Eu estava a ler a gravação que fiz… não, não a ler, mas a ver. Eu disse que não tinha ódio, mas também não tenho amor. É a mesma coisa com Portugal e com a maioria dos lugares onde estive. Não me diz nada. Onde quer que um tipo vá, é assim que as coisas são. Vamos ver como isto vai funcionar agora. Se eu realmente tenho coragem para fazer isto. Nestas duas instâncias, eu precisei de um catalisador — para ambas. Mas para a primeira, foi o facto de ter sido confrontado, e na segunda, eu também tive um, pode-se dizer, um pouco. Então…”

“Que eu, obviamente, preferiria fazer qualquer outra coisa a isto. Porque é difícil. Em particular, porque não quero falhar, certo? Estou a pensar se devo usar uma arma, se devo usar as duas. Já sei que vão dizer que sou doente mental ou alguma merda do género. Isso é tudo disparate. São todas desculpas esfarrapadas. Tu és… essas são todas desculpas para tu lixares quem não te importa. Eu sou… eu estou são.

[As luzes apagam-se] Ei, aquelas luzes ali estão a começar a apagar. Eu estou são e… O meu olho parece que está a começar a… ah, é porque está escuro. [fecha o olho direito duas vezes] Hum… sim, está lixado. Eu estou são, e sempre fui, mais ou menos. Não… não… não, ninguém é perfeito, mas… Na minha opinião sobre tudo isto… acho que o mundo não pode ser redimido. Resumindo, é isso.

Nem sei se vou deixar isto aqui. Mas mesmo que eu apague, está num cartão SD, vai ser um pouco difícil. Quero saber se vão publicar isto, talvez eu prefira que não… e não me importo nada com ser famoso, deixar um legado, e essas merdas, manifestos e essas coisas. Não tenho absolutamente paciência nenhuma para isso. Mesmo que eu tivesse muito a dizer e a escrever, não me importo. Não vos vou dar esse direito.”

“Só mais uma cena. Parece que alguém disse que eu estava a dizer que era… Allah Akbar ou alguma merda do género. Não me lembro de ter dito nada. Se disse alguma coisa, deve ter sido algum tipo de… exclamação, porque pensei que aquele… eu…

Nunca quis fazer isto num auditório. Eu queria fazer isto numa sala normal. E tive muitas oportunidades, especialmente neste semestre, tive muitas oportunidades, mas desisti sempre, e já expliquei porque é que o fiz desta vez. Então, correu tudo mal. Acho que lá fora foi o que correu melhor, mas quando entrei no auditório, basicamente só vi um tipo lá em baixo, se é que o vi inicialmente. E pensei, porra… foi, e devo ter feito uma exclamação como “Oh, não!”, ou algo assim, para expressar que estava vazio, isto é, se é que eu disse algo assim.

Pensei que as pessoas tivessem saído. Porque elas eram meio estúpidas. Há… há uma saída de emergência no lado inferior direito. Elas… todas aquelas pessoas que estavam escondidas, debaixo da… mesa, ou sei lá o quê, podiam perfeitamente ter saído por ali. Pensei que elas tinham… que era isso que tinha acontecido quando eu estava lá fora, o que presumo que tenha sido o melhor, mas talvez não, na verdade, porque quando saí, não vi mais ninguém lá. Presumi… pensei que todos tivessem saído por ali. Mas depois percebi que não. Que estavam todos escondidos debaixo das… das… cadeiras e… era difícil ver, mas foi isso. Hum, agora deve estar tudo”.