O histórico Convento dos Cardaes, no coração de Lisboa, prepara-se para receber, já a partir do próximo sábado, 10 de janeiro, o Curso Intensivo de Pintura de Ícones segundo o método grego bizantino. A formação, pensada e orientada pelo pintor e professor Nelson Ferreira, marca o início de um projeto ambicioso: a criação de uma academia de arte sacra na capital portuguesa, dedicada à preservação e transmissão das técnicas tradicionais da arte religiosa. E desengane-se quem pensa que o curso (e a academia) se destina apenas a artistas experientes e cristãos: “não é necessário ter experiência prévia, nem fé… Está aberto a todos e todos serão bem acolhidos”.

A garantia é dada pelo próprio artista ao 7MARGENS. “Os participantes neste primeiro curso – tanto iniciantes como artistas experientes – aprenderão a recriar o famoso Pantocrator do Monte Sinai, uma das obras mais influentes da história da arte sacra”, explica Nelson Ferreira, adiantando que “o programa abrange desde a preparação do painel de madeira, passando pela douradura com folha de ouro e bolo arménio, até à pintura com têmpera de ovo, técnica tradicional que confere aos ícones a sua luminosidade e durabilidade características”.

No final do curso, que poderá ser feito na modalidade de dois fins de semana (10/11 e 17/18 janeiro) ou “semana intensiva” (12 a 16), os participantes “sairão com um ícone completo”, feito por eles próprios, e também com “uma compreensão profunda do processo técnico e espiritual que torna esta arte uma verdadeira oração pintada”.

Exposição de ícones de Nelson Ferreira na igreja dos Redentoristas, no Porto. Foto Kako Art

No final do curso, os participantes “sairão com um ícone completo”, feito por eles próprios. Foto © Kako Art

Uma escola para os tempos de hoje?

A ideia de criar a academia e o curso “nasceu da constatação de uma lacuna profunda na formação artística em Portugal”, conta Nelson Ferreira, 47 anos, em declarações ao 7MARGENS.

Tendo estudado e vivido em Londres, o artista plástico natural da Cova da Piedade (Almada) contactou diretamente com “um ecossistema cultural que valoriza e preserva as técnicas tradicionais das belas-artes”, como a pintura a têmpera, escultura, douramento, iluminura, vitral, entre outras. “Instituições como a King’s Foundation [anteriormente The Prince’s Foundation] mantêm viva essa herança, transmitindo métodos que remontam à Idade Média e ao Renascimento, onde a arte era indissociável do ofício e da dimensão espiritual”, assinala Nelson, lamentando que em Portugal estas práticas estejam hoje “quase restritas à conservação e restauro” e só “raramente” sejam ensinadas a artistas “no contexto criativo e devocional que lhes deu origem”.

A nova academia surge, assim, da vontade de reintroduzir essas linguagens no ensino artístico contemporâneo, “oferecendo um espaço onde se possa aprender e praticar arte sacra como expressão viva, e não apenas como património a preservar”, sublinha o pintor.

E a quem lhe pergunta se faz sentido um espaço como esse nos tempos de hoje, Nelson Ferreira não hesita na resposta: “Faz pleno sentido, talvez mais do que nunca”, afirma, apontando várias justificações, a começar pela “revalorização do património e da identidade” nacionais, e pela importância de preservar saberes em risco. “As técnicas tradicionais (como têmpera de ovo, douradura, preparação manual dos painéis e pigmentos minerais) estão a desaparecer, e a academia garante a transmissão direta desses conhecimentos, que exigem prática e rigor artesanal”, refere.

Exposição de ícones de Nelson Ferreira na igreja dos Redentoristas, no Porto. Foto Kako Art

Nelson Ferreira durante uma palestra sobre iconografia na igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, no Porto, no último fim de semana. Para o artista, criar uma academia de arte sacra nos tempos de hoje “faz pleno sentido, talvez mais do que nunca”. Foto © Kako Art

Mas não é só: para Nelson Ferreira, nestes tempos “dominados pela imagem instantânea e tecnológica”, a arte sacra clássica oferece “um espaço de silêncio, e de contemplação” que é essencial e se configura como “um contraponto á produção digital e efémera”.

Até porque “a iconografia não é apenas técnica: é uma disciplina espiritual e simbólica, unindo fé, estética e filosofia”, assinala. “E essa abordagem holística é rara, e geralmente inexistente, nas escolas de arte atuais”, pelo que é particularmente importante para a “formação integral de um artista”.

Por fim, mas não menos importante, Nelson considera que há uma “dimensão terapêutica” neste tipo de arte. E “num tempo de ansiedade e dispersão, a pintura de ícones oferece concentração meditativa e ritmo humano. É uma prática quase monástica, oferecendo verdadeiro mindfulness“, defende.

Exposição de ícones de Nelson Ferreira na igreja dos Redentoristas, no Porto. Foto Kako Art

Há uma “dimensão terapêutica” neste tipo de arte, considera Nelson Ferreira. Foto © Kako Art

Um curso único… e solidário

Não existindo ainda na capital portuguesa um centro especializado neste domínio, Nelson Ferreira considera que “uma academia assim pode tornar-se referência internacional, atraindo artistas, restauradores e estudiosos de várias tradições”.

O pintor, que já lecionou em instituições de renome mundial como a National Portrait Gallery (Londres) e deu aulas a artistas dos estúdios Walt Disney, começou a estudar iconografia na então Prince’s Foundation há 20 anos e ainda hoje mantém o estudo com três mestres, continuando a aperfeiçoar as técnicas do douramento.

Depois de se ter sagrado o primeiro artista de sempre a realizar uma exposição oficial em Borobudur (Indonésia), o maior templo budista do mundo, e de ter realizado a primeira residência artística documentada no templo de Angkor Wat (Camboja), Nelson Ferreira está de regresso a Portugal, mais concretamente ao Convento dos Cardaes, para iniciar mais um ambicioso projeto.

Nelson Ferreira durante a residência artística no templo de Angkor Wat (Camboja). Foto DR

Nelson Ferreira durante a residência artística no templo de Angkor Wat (Camboja). Foto: Direitos reservados

As inscrições no curso terminam esta sexta-feira e podem ser feitas através do sítio oficial, do telefone +351 966 474 188
ou pelo endereço de e-mail cursos@conventodoscardaes.com.

Quanto ao valor da inscrição (450 euros), inclui todos os materiais artísticos necessários (painéis, pigmentos, folha de ouro, etc.). E, deste montante, 100 euros revertem como donativo para apoiar as jovens acolhidas pela Associação Nossa Senhora Consoladora dos Aflitos, a instituição que gere o Convento dos Cardaes desde o século XIX. Esta associação acolhe, em regime de lar residencial permanente, cerca de 35 mulheres adultas com necessidades especiais (muitas delas com deficiência intelectual, visual ou outras limitações, algumas já idosas), que muitas vezes não têm apoio familiar.

Deste modo, Nelson Ferreira quis assegurar que “ao participar no curso, cada aluno contribui diretamente para a sustentabilidade deste projeto social centenário”. Para o artista , esta “é uma forma bonita de unir a aprendizagem da arte sacra à prática da caridade concreta, transformando a aprendizagem numa experiência que também consola os mais vulneráveis”.

Portanto, mais do que um curso, esta é “uma oportunidade única”, conclui o professor e pintor, “para quem deseja mergulhar na arte sacra, apoiar uma causa social e participar no renascimento da iconografia em Portugal”.