Alfie Allen em Garota Sequestrada (Reprodução)

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Alfie Allen em Garota Sequestrada (Reprodução)

Ao menos à primeira vista, Alfie Allen é uma escolha inspirada para interpretar Rick Hansen – um professor de ensino médio amado pela sua comunidade no interior do Reino Unido, que esconde uma segunda vida como sequestrador e abusador de adolescentes – em Garota Sequestrada. O ator, afinal, fez uma carreira a partir de personagens lodosos e escorregadios, por vezes malignos de uma forma mesquinha; variações, enfim, do seu Theon Greyjoy de Game of Thrones.

Acontece que, em Garota Sequestrada, Allen brilha muito mais nas cenas em que precisa apresentar a face pública de Rick, simulando afabilidade e generosidade diante de pais, alunos e policiais que confiam nele quase irrestritamente. Nesses momentos, o ator encontra um equilíbrio delicado: ele deixa escapar a quantidade certa de olhares de soslaio sinistros, e assume uma fisicalidade apropriadamente repelente, para que entendamos a ameaça que o personagem representa nesse modo “lobo em pele de cordeiro”, mesmo que todos ao seu redor sigam crivelmente ignorantes do mesmo perigo.

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É quando Rick visita o cativeiro de sua mais recente vítima, Lily (Tallulah Evans), que as fragilidades de Garota Sequestrada – e de Allen – começam a aparecer. A mudança de persona de Rick é marcada de forma bem caricata na entrada do cativeiro, quando ele segue o ritual de se olhar num espelho e tirar os óculos, se livrando do disfarce de bom homem para assumir a pele do monstro que é. Allen endurece o olhar, endireita a postura, suspira com uma gravidade dramática… mas a transformação, quase um Superman às avessas, prelude o trato pouco sutil que a série dispensa aos seus momentos mais frontais.

Culpa que recai também, é claro, sobre a diretora Laura Way (Dead and Buried). Quando Garota Sequestrada está transitando pelas ruas estreitas, galpões abandonados e bosques úmidos do interior do Reino Unido, ela parece estar em seu elemento – sua câmera busca uma proximidade que beira a claustrofobia, mas nunca escorrega para uma versão alienante dela. Observados por frestas de portas e assombrados pelo vazio de cada cenário em que passam, os personagens deixam um rastro apropriadamente agourento em tela.

Eventualmente, no entanto, vai chegar a hora de chocar… Inspirada em um livro de Hollie Overton que se encaixa perfeitamente naquela prateleira popular de thriller criminal com temas relevantes (abuso, misoginia, o desmonte da fachada tranquila dos subúrbios), execução sensacionalista e apelo best-seller, Garota Sequestrada é – queira ela ou não – uma minissérie vendida na premissa das situações espinhosas e violentas que retrata. E Way parece paralisada diante dessa responsabilidade.

Dentro do cativeiro de Lily, como se acompanhando o seu protagonista (talvez seja mais correto dizer que o protagonista acompanha a série), Garota Sequestrada substitui ângulos observacionais e suspense por uma abordagem quadrada, esvaziada de estilo, de cor e de tensão tanto quanto é esvaziada de sons, de espaço para os atores respirarem. É uma escolha destexturizada que vem da ideia de “respeitar” essas cenas, abordar de maneira ética a violência que precisa ser mostrada – nobre, mas contraprodutivo. 

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Sem nenhum esforço para nos transmitir a gravidade e a perversidade do que se desenrola, Garota Sequestrada renuncia ao impacto que precisava ter, e assim falha até no teste que propôs a si mesma.