“La Casa de Papel” abriu caminho: desde o sucesso desta série da Netflix, as produções espanholas proliferaram nas plataformas de streaming, principalmente em França, explorando com sucesso uma vasta gama de géneros, desde o ‘thriller’ “O Jardineiro” ao drama romântico “Los Años nuevos”.

“Há alguns anos, não só houve um aumento de interesse, como também uma comprovada profissionalização espanhola que se consolidou e afirmou na televisão”, disse à agência France-Presse (AFP) Carlo Fasino, programador do festival internacional Séries Mania, realizado no norte de França desde 2018.

Duas produções ibéricas recentes alcançaram um sucesso considerável na Netflix.

Lançada em abril, a série “O Jardineiro”, que acompanha um assassino contratado fanático por plantas, figurou entre as mais vistas em língua não inglesa, enquanto “Cidade de Sombras”, sobre uma investigação policial na Barcelona de Gaudí, alcançou o top 10 das mais vistas na primeira semana de lançamento, em dezembro.

“O Jardineiro”
Créditos: Netflix

Nenhuma produção espanhola alcançou o estrondoso sucesso da quadrilha de “La Casa de Papel”, que teve cinco temporadas a partir de 2018, ou dos grandes ‘blockbusters’ em inglês, mas a vaga espanhola ultrapassou agora a Netflix e o território já bastante explorado dos dramas policiais.

Apresentada no Festival de Veneza em 2024, “Los Años nuevos” (“Os Anos Novos”), que explora a história de amor de dois trintões ao longo de dez vésperas de Ano Novo, é um grande sucesso na plataforma de streaming do canal franco-alemão Arte, onde já foi vista pelo menos 3,7 milhões de vezes.

Também exibida pela Arte, “Querer” explora o impacto causado pelas acusações de violação feitas por uma mãe ao marido e ganhou o grande prémio na última edição do Series Mania, enquanto “La Mesias” conta a história de um irmão, uma irmã e a sua mãe em plena rutura religiosa.

Para Carlo Fasino, esta proliferação de produções ibéricas resulta, nomeadamente, do facto de Espanha ser “um dos poucos países da Europa Ocidental (…) onde não existe qualquer barreira entre o mundo do cinema e da televisão” e “desta visão algo elitista” que a indústria cinematográfica tem em relação às séries televisivas.

O lado muito pop

Os Anos Novos

Os Anos Novos
Créditos: Divulgação

As produções espanholas têm também “esta particularidade de serem inventivas, muito diferentes e originais, e ao mesmo tempo possuírem uma visão autoral bastante comprometida”, explicou à AFP Alexandre Piel, diretor adjunto da unidade de ficção da Arte France.

A este propósito, Carlo Fasino fala de “uma certa frescura” nas produções espanholas, que também se pode observar nos filmes de Pedro Almodóvar ou Bigas Luna.

“Mesmo que sejam séries dramáticas ou mais trágicas, há sempre um lado muito pop, muito colorido, por vezes até muito melodramático”, observa.

Graças a estas qualidades, a Espanha tornou-se um ator importante na produção de conteúdos para televisão e cinema.

Entre 2022 e o primeiro semestre de 2025, mais de um quarto (26,1%) das produções em língua não inglesa mais vistas em streaming eram espanholas, ficando apenas atrás da Coreia do Sul e em primeiro lugar na Europa, de acordo com um relatório da Parrot Analytics e do Instituto Espanhol de Comércio Externo (ICEX) publicado em outubro.

“A indústria cinematográfica espanhola já não depende de um número limitado de sucessos globais, mas está muito mais diversificada em termos de tipos de conteúdo e sucessos”, confirma Jaime Otero, Vice-Presidente de Alianças Estratégicas da Parrot Analytics.

A gigante Netflix contribuiu em grande parte para esta evolução. Em 2019, inaugurou os seus primeiros estúdios fora dos EUA, perto de Madrid. E em junho último, anunciou que iria investir mais de mil milhões de euros em produções espanholas até 2028.