Por isso mesmo, há quem prefira continuar prescrevendo o donanemabe, cuja infusão é mensal e cujo tratamento só é feito por 12, no máximo 18 meses. “Isso porque, se eliminarmos as placas, sabemos que elas levarão mais dez anos para crescer”, justifica o neurologista gaúcho.
Continuará sendo uma boa opção ao menos até que se prove que o lecanemabe, por agir antes, consegue frear para valer o avanço da doença. E a gente não pode se esquecer do custo. O tratamento recém-aprovado poderá custar o dobro, isto é, há quem diga que cerca de 50 mil reais por mês — e por toda a vida.
Atenção: Alzheimer não é sinônimo de demência
Este, na verdade, é o desafio maior. “Há pouco mais de dez anos, pensávamos que ter Alzheimer era a mesma coisa de ter demência. Isso mudou”, observa Wyllians Borelli. “Hoje, Alzheimer é ter placas de amiloide no cérebro. Muito antes de ter demência, a pessoa começa a ter falhas cognitivas leves. Elas ainda não comprometem o seu dia a dia. Para começo de conversa, o indivíduo percebe que se esqueceu de algo. Ele consegue viver sozinho, lembrar-se da senha do banco, dirigir, trabalhar, cuidar de sua vida com autonomia.”
Segundo o especialista, se a gente der um passo atrás, encontraremos até mesmo pessoas com Alzheimer sem absolutamente qualquer sintoma. Por ironia, o problema é que o lecanemabe — assim como o donanemabe — funciona se o paciente é tratado quando, no máximo, apresenta uma perda de cognição bem leve. Se o neurônio já morreu por causa do Alzheimer, na fase de demência, ele não irá se recuperar quando o anticorpo monoclonal tirar a placa.
O difícil é flagrar quem está nessa situação. Nesse sentido, fica aqui uma dica preciosa do professor Borelli: “Se um paciente chega com queixas de memória e tem seus 50 anos ou menos, eu posso pensar em esgotamento, depressão, estresse. É muito raro alguém ter Alzheimer com menos de 65 anos”, diz ele. “No entanto, acima dos 60 anos, problemas de memória exigem investigação, com a realização de testes cognitivos validados e, se possível, exame de imagem que, no caso, seria a tomografia por emissão de pósitrons, capaz de acusar as placas.”