A HISTÓRIA: Um ator americano em crise existencial tenta reencontrar um propósito na vida. A sua jornada leva-o a aceitar um trabalho inesperado numa agência japonesa especializada em “famílias de aluguer”, onde passa a interpretar vários papéis como substituto na vida de desconhecidos. À medida que mergulha nas histórias dos seus clientes, os laços criados tornam-se cada vez mais autênticos, esbatendo a linha entre representação e realidade.

“Família de Aluguer”: nos cinemas desde 8 de janeiro de 2026 (visionado no BFI London Film Festival 2025 em outubro).

Por Manuel São Bento (aprovado no Rotten Tomatoes. Membro de associações como OFCS, IFSC, OFTA. Veja mais no portfolio).
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“Família de Aluguer” é um triunfo agridoce sobre a verdade emocional que nasce da mentira contratual. Um filme elevado pela interpretação contida e profundamente honesta de Brendan Fraser e pela banda sonora transcendente que sublinha a jornada da sua personagem através da solidão e da procura pela família escolhida. Embora a narrativa seja previsível, a sua sinceridade pura desarma. Um lembrete de que, sob todas as camadas de isolamento e performance social, a única coisa que realmente procuramos é a necessidade genuína de pertença.

Família de Aluguer

Família de Aluguer
Créditos: NOS Audiovisuais

A crítica

Já era um fã incondicional de Brendan Fraser, mas não posso negar que me senti ainda mais investido na sua carreira após a sua prestação inesquecível em “A Baleia”, vencedora do Óscar. Sabendo da sua história de vida pessoal, é quase impossível não sentir uma compaixão profunda e uma felicidade extra pelo sucesso que tem vindo a reencontrar. Dito isto, a minha curiosidade estava no máximo ao vê-lo como o único ator americano num filme japonês, sob a direção de Hikari (“37 Seconds”) — argumento assinado pela própria e Stephen Blahut — uma cineasta com quem não estava familiarizado.

A ideia central é simples e, simultaneamente, fascinante. “Família de Aluguer” conta a história de Phillip Vandarpleog (Fraser), um ator americano a viver em Tóquio que luta para encontrar o seu propósito. A sua sorte muda quando aceita um emprego invulgar: trabalhar para uma agência japonesa de “famílias de aluguer” gerida por Shinji (Takehiro Hira, “Shōgun”), que contrata atores para desempenhar papéis temporários na vida de estranhos — seja um familiar, um amigo ou até mesmo um parceiro — em diversas situações da vida real. À medida que Phillip mergulha nos seus papéis, as linhas entre a performance e a realidade começam a esbater-se e ele é forçado a confrontar as complexidades morais do seu trabalho enquanto, ironicamente, redescobre um sentido de pertença.

Família de Aluguer

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Créditos: NOS Audiovisuais

Esta foi a última sessão a que assisti no BFI London Film Festival e fiquei extremamente feliz por terminar com uma história adorável e emocionalmente envolvente. “Família de Aluguer” constitui, acima de tudo, um estudo profundo da natureza humana verdadeira, navegando pelos temas da verdade vs mentira, com toques de família, amor, altruísmo e as questões mais sentimentais que se possam imaginar. Trata-se de uma obra intrinsecamente introspetiva, daquelas experiências que, independentemente da opinião final que se tenha sobre a mesma, dificilmente deixarão alguém indiferente.

“Família de Aluguer” explora assuntos universais de solidão, o conceito de família escolhida, a importância da ligação humana genuína e como o ato de representar pode, paradoxalmente, colmatar o afastamento emocional. A força motriz da narrativa reside na tensão entre a falsidade do serviço de aluguer e a autenticidade das emoções geradas. A agência não vende mentiras, vende a sensação de estar conetado, oferecendo aos seus clientes um conforto momentâneo numa sociedade onde o isolamento é uma epidemia crescente. É nesta dualidade que o artista brilha, personificando a contradição própria de ser pago para se importar.

Família de Aluguer

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Créditos: NOS Audiovisuais

O poder do argumento manifesta-se especialmente em duas linhas narrativas principais, ambas profundamente memoráveis. A primeira envolve uma criança, Mia (Shannon Mahina Gorman), cuja mãe contrata Phillip para ser um pai substituto. Esta vertente foca-se diretamente na falta de uma parentalidade honesta e íntima e na vulnerabilidade de uma criança que desesperadamente precisa de uma figura paterna na sua vida. A relação entre Phillip e Mia é o coração pulsante de “Família de Aluguer”, explorando até que ponto a simulação pode evoluir para algo genuíno. Apesar do final deste arco pecar em parte por ser excessivamente seguro — um fecho mais poderoso seria mais realista e até brutal — a sua execução é tão imbuída de autenticidade que o impacto emocional foi sentido na mesma.

O segundo arco narrativo memorável centra-se num ator idoso, Kikuo Hasegawa (Akira Emoto, “Villain”), que luta contra a sua perda de memória. Neste papel, Phillip atua como um jornalista contratado para fazer uma reportagem sobre a sua carreira, embarcando numa viagem pelo legado e memória de uma vida inteira. Esta secção é belíssima, pois foca-se na necessidade humana de que a nossa história e o nosso impacto sejam reconhecidos e lembrados. Emoto e Fraser oferecem momentos de graça tranquila, elevando a noção de que a interpretação pode ser um veículo para a catarse e o respeito pela história de alguém.

Família de Aluguer

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Créditos: NOS Audiovisuais

É verdade que ambos os enredos são, de certa forma, previsíveis e formulaicos, à semelhança da estrutura geral de “Família de Aluguer”. No entanto, o que distingue o filme de outros parecidos é a sua execução impecável, feita com uma sinceridade tão pura que desarma qualquer criticismo cínico. Confia na sua premissa e nos seus atores para transmitir a mensagem, sem precisar de se desviar para manipulações narrativas complexas.

Neste aspeto, Fraser sobressai naturalmente, entregando uma prestação incrivelmente humana e honesta. É um desempenho bastante contido, que não mergulha nas dramatizações pesadas a que assistimos em “A Baleia”. A história, por si só, é a chave para chegar aos nossos corações, dispensando a necessidade de atuações extremas. Fraser, tal como todo o elenco de apoio — incluindo Mari Yamamoto (“Tokyo Vice”) excelente como Aiko Nakajima, uma colega de Phillip — acerta perfeitamente na nota, dando peso e leveza aos respetivos papéis.

Família de Aluguer

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Créditos: NOS Audiovisuais

Tecnicamente, o aspeto que mais ressalta é a banda sonora, composta por Jónsi e Alex Somers (“Lost & Found”). Funciona como uma personagem em si, envolvendo-nos numa bolha inspiradora de reflexão pessoal. É um testamento ao seu poder emocional que, mesmo sendo o meu vigésimo primeiro filme visto no BFI London Film Festival no espaço de oito dias, exibido às oito da manhã e com o cansaço já há muito instalado, nem uma única pessoa na sala de visionamento pestanejou ou adormeceu por um minuto. Aliás, o que mais se viu — e ouviu — foram lágrimas e soluços sentidos.