“Poeta, escritora, esposa, mãe e guitarrista medíocre do Colorado” a “experimentar Minneapolis”. A descrição surge na conta de Instagram de Renee Nicole Macklin Good, identificada como a mulher norte-americana de 37 anos morta a tiro por agentes do Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) na quarta-feira, no estado de Minnesota.
O Departamento de Segurança Interno (DHS) disse que Renee Good era uma manifestante violenta que confrontou os agentes durante uma operação em Minneapolis. Segundo a responsável, Kristi Noem, a mulher “perseguiu e impediu” os agentes de trabalhar durante o dia e usou o carro como “arma” para os atropelar, tendo um agente “usado o treino recebido para salvar a sua própria vida e a dos colegas”. O Presidente norte-americano, Donald Trump, descreveu-a como uma “agitadora” e o vice-presidente, JD Vance, afirmou que se tratou de uma “tragédia” provocada pela própria Renee Good.
A forma como o ICE lidou com a situação gerou duras críticas das autoridades locais e do Minnesota, que acusam o serviço de imigração de provocar o “caos” e tornar as comunidades “menos seguras”, e provocou uma onda de protestos em várias cidades, incluindo Chicago, Nova Iorque, São Francisco e Washington.
O presidente da câmara de Minneapolis, Jacob Frey, classificou os relatos das autoridades federais como um “disparate”, descrevendo os tiros como “um agente a usar o poder de forma imprudente”. “Não acreditem nesta máquina de propaganda”, disse por sua vez o governador de Minnesota, Tim Walz. “É nojento ver o Presidente Trump e a secretária Noem a tentarem enganar-nos irresponsavelmente com uma história de que esta mulher era perigosa e uma terrorista doméstica, aparentemente justificando esta violência sem qualquer investigação”, criticou ainda a senadora do Minnesota Tina Smith.
Vídeos do momento mostram um elemento do ICE a tentar abrir a porta do carro enquanto Good estava a fazer marcha atrás. O Honda avança então um pouco para frente, ficando muito próximo do local onde estava outro agente, que dispara junto à janela pelo menos duas vezes. O carro segue uns metros em frente e acaba por embater num outro que estava estacionado na rua.
Agente do ICE mata mulher a tiro durante operação policial em Minneapolis
Ao Washington Post, o pai de Renee Good disse que a família foi notificada da morte ao início do dia de quarta-feira. Adiantou que a filha viveu a maior parte dos seus anos no Colorado, mas que durante um curto período de tempo esteve com os pais em Kansas depois da morte do segundo marido, um veterano do exército, há cerca de três anos: Tim Macklin, comediante e antigo elemento da Força Aérea dos EUA.
Renee Good tinha um filho de seis anos dessa relação. Era também mãe de uma adolescente de 15 anos e de um rapaz de 12 de um casamento anterior. “Ela teve uma vida boa, mas difícil”, afirmou o pai, Tim Ganger, explicando que a família ainda estava a recolher informações sobre o que se passou.
A mãe de Renee Good disse ao jornal do Minnesota Star Tribune que a filha vivia atualmente em Minneapolis com a companheira. Sublinhou que a filha “não estava envolvida em nada” que estivesse relacionado com protestos contra o ICE. “A Renee era uma das pessoas mais gentis que já conheci. Era extremamente compassiva. Cuidou das pessoas a vida toda. Era amorosa, compreensiva e carinhosa. Era um ser humano incrível”, disse Donna Ganger.
Outros familiares partilharam com a imprensa norte-americana mais algumas informações sobre o último dia da vida de Renee Good. À KMGH, afiliada da CNN, o tio, Robert Ganger, disse que a sobrinha morreu no aniversário da irmã mais velha. Já o ex-marido, que pediu para não ser identificado, revelou que Renee tinha acabado de deixar o filho de seis anos na escola quando, ao regressar a casa com a atual companheira, se deparou com a operação do ICE.
O ex-marido descreveu Renee Good como uma cristã devota, que chegou a participar em missões de grupos de jovens na Irlanda do Norte. Disse também que adorava cantar, o que a levou a participar num coro durante o secundário e a estudar canto durante a faculdade. Acrescentou que não era uma ativista e que nunca tinha participado em protestos de qualquer tipo. A Associated Press avançou que a mulher não tem histórico de problemas com a justiça, além de uma multa de trânsito.
Sabe-se também que a norte-americana era licenciada em inglês, pela Universidade Old Dominion, em Norfolk, Virgínia. Num comunicado enviado ao Washington Post, o presidente da instituição disse que a morte da mulher é “outro exemplo claro do medo e da violência que infelizmente se tornaram um lugar comum” nos EUA, apelando à compaixão e a uma reflexão num período que “se está a tornar um dos mais negros e mais incertos” da história norte-americana. “Que a vida da Renee seja uma lembrança do que nos une: a liberdade, o amor, a paz”, sublinhou Brian O. Hemphill.
Renee Good acabou a licenciatura em 2020, ano em que venceu um prémio da Academia de Poetas Americanos para estudantes. “Quando não está a escrever, a ler ou a falar sobre escrever, faz maratonas de filmes e cria arte com a filha e os filhos”, lia-se na biografia publicada a propósito da distinção.
Na noite de quarta-feira uma multidão juntou-se para prestar homenagem junto à casa da família. “Vamos sentir a falta deles”, admitiu uma vizinha ao Star Tribune.