Centenas de pessoas estiveram reunidas em protesto contra a morte de uma mulher de 37 anos, já identificada pelas autoridades como Renee Nicole Good, às mãos de um agente do ICE, a agência de controlo de imigração norte-americana. Good era escritora e deixa dois filhos e uma filha. Uma das crianças, um rapaz de seis anos, fica órfão, uma vez que já tinha perdido o pai em 2023.
O Departamento de Segurança Interna dos EUA (DHS) confirmou a morte de Good, que aconteceu na quarta-feira num bairro do sul de Minnesota, mas afirmou que os disparos foram um acto de legítima defesa, descrevendo a vítima como uma “manifestante violenta” e alegando que os agentes consideraram estar em perigo de vida.
No entanto, os vídeos divulgados por vários jornais, que mostram o sucedido a partir de vários ângulos, não revelam nenhum movimento do carro de Good contra os agentes, são até visíveis luzes de marcha-atrás quando os agentes se aproximam, indicando que Good estaria a tentar recuar para lhes ceder passagem. Um dos agentes dirige-se ao carro, tenta abrir a porta do lado do condutor mas, como está trancada, tenta abri-la por dentro, enfiando o braço pela janela aberta. Good tenta depois contornar um agente e um outro dispara a curta distância contra o vidro do seu carro. Mais dois tiros são ouvidos, e os vídeos parecem mostrar que pelo menos um é disparado pela janela aberta.
Um vídeo gravado de outro ângulo parece mostrar Good a ceder passagem aos veículos federais e a fazer-lhes sinal para avançarem, isto tudo antes de eles se dirigirem ao veículo.
O presidente da Câmara de Minneapolis, Jacob Frey, contestou publicamente a versão do DHS, e diz que o ICE está a tentar “manipular” os factos. A desculpa de legítima defesa é “um disparate”, disse Frey, depois de ter visto o vídeo. O governador do Minnesota, Tim Walz, já deu ordem de mobilização à guarda nacional estadual, que está em alerta caso seja preciso proteger os cidadãos contra o ICE.
Várias testemunhas disseram que Good se encontrava no local de uma rusga do ICE como observadora legal — uma voluntária que acompanha a polícia e as forças de segurança em protestos e operações. O objetivo destes observadores é ajudar a manter a calma, dissuadir condutas impróprias e garantir que os direitos legais sejam respeitados. A mãe de Good disse ao jornal “Minnesota Star Tribune” que a filha “não fazia parte de nada” que envolvesse confrontar agentes do ICE. O seu primeiro marido disse igualmente que Good não era activista contra o Governo.
A ministra da Segurança Interna, Kristi Noem, classificou a alegada tentativa de atropelamento como “acto de terrorismo doméstico” e defendeu que o veículo constituía uma “arma letal” contra os agentes do ICE. “O uso de força letal é perfeitamente legal quando existe uma ameaça”, afirmou Noem em conferência de imprensa, na quarta-feira. Numa publicação feita na quarta-feira na sua plataforma Truth Social, Donald Trump comentou o caso, e também culpou a vítima: “A mulher que conduzia o carro estava muito desordeira, a obstruir e a resistir, tendo depois atropelado de forma violenta, deliberada e cruel o agente do ICE, que parece tê-la baleado em legítima defesa”.
A rádio pública do Minnesota (MPR) esteve no terreno durante os protestos e ouviu algumas testemunhas que presenciaram o incidente. Uma residente do bairro onde tudo aconteceu disse a MPR que a mulher “não representava absolutamente nenhuma ameaça para qualquer um destes agentes”, contrariando a versão apresentada pelas autoridades federais. Ao voltar de um passeio com o seu cão, viu a cena a desenrolar-se. “O que vi ao virar a esquina foi um SUV vermelho escuro e um conjunto de veículos na rua, incluindo o que me pareceram ser agentes federais a rodear o veículo, bem como várias testemunhas do bairro no passeio”, disse. À medida que se aproximava, Betsy disse ter um homem a usar um colete à prova de bala preto, que estava “a gritar com a condutora”. Ela “parecia estar a tentar deslocar o veículo para sul, na Portland Avenue, para sair do caminho da atividade que estava a ocorrer”, disse ainda.
Após o tiroteio, uma grande multidão reuniu-se na zona, que fica a menos de um quilómetro do local onde George Floyd foi morto, em Maio de 2020.