A Russian Railways, maior empresa ferroviária da Rússia e uma das maiores do mundo, atravessa a mais grave crise financeira de sua história recente. O monopólio estatal, responsável por cerca de 2,5% do PIB do país, sofre os efeitos diretos da guerra na Ucrânia, que já caminha para o quinto ano e impõe custos crescentes à economia russa. As informações são da Radio Free Europe.
Com uma malha de 85 mil quilômetros de trilhos, 700 mil funcionários e operações que cruzam 11 fusos horários, a companhia viu seu modelo de negócios ser profundamente afetado pela priorização do transporte militar. Desde 2024, trens carregando tropas e equipamentos passaram a ter preferência absoluta na rede ferroviária, reduzindo a capacidade de escoamento de cargas civis e comprometendo receitas.
Locomotiva da Russian Railways em Yalutorovsk, foto de 2023 (Foto: WikiCommons)
Os impactos são visíveis. Em 2024, o volume transportado foi 4% menor do que em 2021, último ano antes da invasão da Ucrânia, atingindo o menor patamar desde a crise financeira global de 2009. Ao mesmo tempo, a empresa acumula uma dívida estimada em US$ 51 bilhões, pressionada pelas altas taxas de juros adotadas pelo Banco Central russo para conter a inflação.
A deterioração financeira da Russian Railways se tornou um reflexo das fragilidades mais amplas da economia russa. Sanções internacionais reduziram fluxos comerciais, dificultaram exportações de matérias-primas e forçaram uma reorientação logística em direção à Ásia, especialmente à China. Esse processo exigiu novos investimentos e mais endividamento.
Analistas apontam que a crise ferroviária tem efeito em cadeia. Entre os principais credores da empresa estão bancos estatais, como o VTB, considerado sistêmico para o sistema financeiro russo. Qualquer dificuldade no pagamento de juros ou na rolagem das dívidas pode gerar instabilidade em outros setores estratégicos.
Diante do cenário, o governo russo avalia medidas de socorro para manter a empresa em funcionamento. Entre as opções discutidas estão o aumento das tarifas de frete, ampliação de subsídios, redução de impostos e até a conversão de dívidas em participação acionária. Todas as alternativas, no entanto, carregam riscos, sobretudo em uma economia já pressionada por inflação elevada e crescimento limitado.
Embora seja considerada “grande demais para falir”, a Russian Railways segue operando sob forte estresse financeiro. Especialistas alertam que, sem uma solução estrutural, a companhia dependerá cada vez mais de injeções diretas do Estado, perdão de dívidas e empréstimos compulsórios de bancos públicos, um modelo que pode comprometer ainda mais a saúde econômica da Rússia no médio prazo.