O eurodeputado Sebastião Bugalho alerta para a persistência de um quadro de incerteza política na Venezuela após a detenção de Nicolás Maduro. Defendendo que o futuro do país deve ser decidido pelos venezuelanos, Bugalho lamenta que a detenção de Nicolás Maduro não tenha alterado, para já, as estruturas de poder, nem aberto um caminho claro para uma transição democrática.
Em entrevista ao programa da TSF Fontes Europeias, o eurodeputado afirma que a saída de Maduro da cena política não significa, por si só, o fim do regime. “Infelizmente, acho que ainda não podemos dizer isso. Sabemos o que aconteceu, mas não sabemos o que vai acontecer”, diz, considerando que, por agora, apenas “saiu o ditador, mas não está a sair a ditadura”.
Bugalho aponta para a permanência das estruturas centrais do poder e dos mecanismos de repressão como fatores determinantes dessa incerteza, referindo que o aparelho de Estado permanece intacto e que as principais figuras do regime continuam em funções. Além disso, a atual Presidente interina mantém uma linha política que classificou como “tão ou mais brutal do ponto de vista político do que Nicolás Maduro”. Bugalho acrescenta ainda que “o aparelho de repressão do Estado e os grupos paramilitares nas ruas de Caracas continuam lá” e que “os presos políticos continuam detidos”, concluindo que “não há ainda motivos para celebrar”.
Estados Unidos
Questionado sobre comparações entre a operação norte-americana na Venezuela e a invasão russa da Ucrânia, o eurodeputado rejeita qualquer equivalência, afirmando ficar “mesmo chocado” com esse tipo de leituras. Bugalho sublinha que “os Estados Unidos da América não invadiram militarmente a Venezuela”, nem “anexaram nenhum território venezuelano”, acrescentando que, “até ver”, Washington “ainda nem sequer fomentou um golpe de Estado, porque o estado de coisas continua o mesmo”.
Admitiu, por outro lado, perplexidade face às declarações iniciais do Presidente norte-americano sobre a oposição venezuelana, classificando-as como “desanimadoras” e contrapôs essa posição às palavras do secretário de Estado Marco Rubio, que considerou mais moderadas. Bugalho recorda que “quase oito a nove milhões de venezuelanos saíram do país desde 2014” e defende que uma transição democrática exige protagonistas políticos capazes de a liderar.
O eurodeputado considera que o futuro da Venezuela deve ser “decidido pelos venezuelanos e por aqueles que os escolhem nas urnas, democraticamente”, referindo ser “muito claro que a líder das forças democráticas da Venezuela é María Corina Machado”. Sebastião Bugalho reconhece, porém, que Corina Machado não tem, com o aparelho armado do Estado, a mesma relação que tem na base civil. “A questão aqui é a lealdade do aparelho militar”, frisa.
União Europeia
No plano europeu, o eurodeputado valoriza a declaração subscrita por 26 Estados-membros que separa a ilegitimidade de Maduro da soberania venezuelana e defende uma solução democrática liderada por venezuelanos. No entanto, observa que os Estados Unidos, embora falem em “prosperidade” e “sucesso”, ainda “não usam a palavra democracia”, nem definem um calendário para eleições livres.
O eurodeputado recorda a resolução do Parlamento Europeu aprovada em setembro de 2024, que reconheceu Edmundo González como vencedor das eleições presidenciais, sublinhando que foi o próprio Sebastião Bugalho quem a redigiu e negociou. Na sua avaliação, esse reconhecimento foi decisivo para garantir “referências democráticas” no atual contexto venezuelano. Acrescenta que os críticos dessa resolução “têm muito pouca moral para vir agora falar sobre o futuro da Venezuela”.
O eurodeputado diz manter a expectativa de assistir presencialmente à tomada de posse do Presidente eleito, afirmando: “Eu espero mesmo lá estar.”
Gronelândia
Questionado sobre a Gronelândia, Bugalho considera que a União Europeia deve manter a posição que sempre adotou, “defendendo as suas fronteiras e a soberania do seu território” e afastando cenários de dramatização.
“Sem querer cair no excesso de otimismo, creio que os Estados Unidos da América quererão aumentar a dependência da Gronelândia do ponto de vista económico. Não espera uma intervenção militar americana”, afirma.
O eurodeputado rejeita a ideia de que a eficácia da política externa se meça pelo “volume do tom de voz” em relação aos Estados Unidos, defendendo que uma postura mais “proclamatória” não produziria melhores resultados práticos nem para Portugal, nem para a União Europeia.
Ucrânia
Sobre as negociações de paz na Ucrânia, Bugalho afirma ter expectativas positivas, sustentando que o atual momento representa um patamar inédito de garantias de segurança. Refere que, no quadro discutido na reunião desta semana, em Paris, “a Ucrânia não estará na NATO, mas a NATO estará na Ucrânia”, acrescentando que o país poderá ficar “tão ou mais protegido do que o próprio artigo 5.º”.
Quanto ao alargamento da União Europeia, destaca os progressos de países candidatos, como Montenegro e Albânia, e defende que a Europa não deve temer uma UE com mais membros, lembrando que “a economia europeia cresceu 27% em 22 anos desde o último alargamento”. Ainda assim, reitera que a Ucrânia deve cumprir os mesmos critérios que os restantes candidatos, alertando para os riscos de uma integração apressada.