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Um asteroide maior que a maioria dos arranha-céus acaba de entrar para os livros de recordes da astronomia. Batizado de 2025 MN45, ele tem cerca de 710 metros de diâmetro e completa uma rotação inteira em apenas 113 segundos.
Isso equivale a pouco menos de dois minutos para girar sobre o próprio eixo. Nunca antes um asteroide com mais de meio quilômetro de diâmetro havia sido observado girando tão rápido.
A descoberta foi feita a partir das primeiras imagens do Observatório Vera Rubin, um dos projetos científicos mais ambiciosos da atualidade. O estudo, publicado na revista The Astrophysical Journal Letters, é também o primeiro artigo científico revisado por pares baseado em dados da câmera LSST, a maior câmera digital já construída.
O achado chama atenção não apenas pelo ineditismo, mas pelo que revela sobre a estrutura interna dos asteroides e sobre os processos que moldaram o Sistema Solar primitivo há bilhões de anos.
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Asteroides são grandes blocos de rocha e metal que orbitam o Sol. Muitos deles são remanescentes diretos da formação do Sistema Solar, há cerca de 4,5 bilhões de anos, antes que planetas e luas se consolidassem. Por isso, funcionam como cápsulas do tempo cósmicas. Ao estudar suas propriedades físicas, como tamanho, órbita e velocidade de rotação, os astrônomos conseguem reconstruir parte dessa história.
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A rotação, em especial, é um dado importante. À medida que orbitam o Sol, os asteroides também giram em torno de si mesmos, mas não todos na mesma velocidade. Essa taxa depende de fatores como colisões passadas, composição interna e formato do objeto. Em muitos casos, uma rotação rápida é indício de que o astro sofreu um impacto violento no passado, capaz de alterar seu movimento ou fragmentar um corpo maior.
O problema é que girar rápido demais pode ser fatal para um asteroide. A maioria deles é formada pelo que os cientistas chamam de “aglomerados de entulho” ou “pilhas de escombros”: conjuntos de pedaços menores de rocha e detritos, mantidos juntos principalmente pela gravidade.
Esses corpos têm pouca resistência interna. Se girarem rápido demais, a força centrífuga supera a atração gravitacional, e o asteroide se despedaça.
No cinturão principal de asteroides, localizado entre Marte e Júpiter, esse limite crítico é bem conhecido. Objetos que levam menos de 2,2 horas para completar uma rotação só conseguem se manter intactos se forem estruturalmente muito resistentes. A maioria não é.
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É aí que o 2025 MN45 se torna extraordinário. Ele não apenas ultrapassa esse limite como o faz de forma extrema. Com quase dois minutos por rotação e um diâmetro superior a 500 metros, o asteroide desafia os modelos mais comuns sobre a estrutura desses corpos.
“Claramente, este asteroide deve ser feito de um material com altíssima resistência para se manter íntegro enquanto gira tão rapidamente”, afirmou Sarah Greenstreet, astrônoma assistente do NSF NOIRLab e autora principal do estudo, em comunicado. Segundo ela, os cálculos indicam que o objeto precisaria ter uma força coesiva comparável à de uma rocha sólida.
Em outras palavras, o 2025 MN45 provavelmente não é um amontoado frouxo de fragmentos, mas um corpo muito mais compacto. Uma possibilidade é que ele seja um fragmento sólido remanescente de um asteroide muito maior, destruído em uma colisão antiga. Outra é que sua composição interna seja incomum, com materiais capazes de suportar tensões extremas.
A descoberta só foi possível graças às capacidades inéditas do Observatório Vera Rubin. Instalado no topo de uma montanha no Chile, ele foi projetado para escanear repetidamente o céu do Hemisfério Sul ao longo de dez anos, como parte do projeto LSST (Legacy Survey of Space and Time). O objetivo é criar um registro em time-lapse do Universo, capturando desde explosões de supernovas até objetos que se movem rapidamente, como asteroides.
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A câmera LSST, com 3.200 megapixels, consegue registrar uma nova imagem do céu a cada 40 segundos. Em apenas sete noites de observações, distribuídas entre abril e maio de 2025, o observatório identificou cerca de 1.900 asteroides nunca antes vistos.
Dentro desse enorme conjunto de dados, os pesquisadores analisaram com mais detalhe 76 asteroides cujos períodos de rotação puderam ser medidos com precisão. Entre eles, 16 foram classificados como de rotação “super-rápida”, com períodos entre 13 minutos e 2,2 horas. Outros três entraram na categoria ainda mais rara de rotação “ultra-rápida”, completando uma volta em menos de cinco minutos.
O 2025 MN45 é o caso mais extremo desse grupo. Mas ele não está sozinho. O estudo também destaca objetos como o 2025 MJ71, com rotação de 1,9 minuto, o 2025 MK41, de 3,8 minutos, o 2025 MV71, de 13 minutos, e o 2025 MG56, de 16 minutos. Todos têm centenas de metros de diâmetro e estão entre os asteroides subquilométricos mais rápidos já identificados.
Um aspecto particularmente relevante é onde esses corpos estão localizados. Até agora, a maioria dos asteroides de rotação muito rápida conhecidos orbitava relativamente perto da Terra, na categoria dos chamados objetos próximos da Terra, ou NEOs. Isso não significa necessariamente que eles sejam mais comuns ali, mas sim que são mais fáceis de observar devido à proximidade.
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As observações regulares e contínuas do Rubin acumularão dados de forma sistemática. Isso permitirá acompanhar mudanças sutis ao longo do tempo e montar um retrato cada vez mais detalhado desses corpos primitivos. Se o 2025 MN45 é um prenúncio do que está por vir, a próxima geração de descobertas sobre asteroides promete desafiar, mais uma vez, o que se acreditava saber sobre as rochas que vagam pelo espaço.
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