Iranian Supreme Leader Office/ EPA

Ayatollah Ali Khamenei, Líder Supremo iraniano
Isolado internacionalmente, com a população novamente a protestar nas ruas e com um Trump motivado pelo recente sucesso na deposição de Maduro, Ayatollah Ali Khamenei pode ser o próximo líder a ser atacado pelos EUA.
Talvez ninguém fora da Venezuela ou de Cuba deva importar-se mais com a captura do presidente nominal Nicolás Maduro pelos EUA do que o líder supremo da República Islâmica do Irão, Ali Khamenei.
Khamenei e o seu regime estão em apuros, e não é claro como sobreviveriam no caso de a administração Trump decidir apoiar os milhões que desejam um novo sistema de governo sem Khamenei e os seus seguidores.
O Irão não tem aliados estatais dispostos a intervir militarmente a seu favor. Além disso, a sua outrora poderosa rede de milícias parceiras e aliadas – o Hezbollah libanês, os rebeldes houthis no Iémen e outros membros do Eixo da Resistência – tornou-se incapaz ou relutante em envolver-se. E a economia iraniana está em ruínas no meio de uma crise hídrica contínua, sem perspetiva de solução.
Além disso, o povo iraniano voltou às ruas para expressar as suas queixas contra as duras condições económicas, bem como contra a corrupção, a má gestão e a hipocrisia do governo, ecoando condições semelhantes às da Venezuela nos últimos anos. Por fim, o Presidente Donald Trump virou a sua atenção para o Irão. A 2 de Janeiro, Trump avisou Khamenei de que, se as suas forças reprimirem violentamente os manifestantes, o Irão será “duramente atingido” pelos EUA.
O aviso e a demonstração de solidariedade de Trump irão provavelmente encorajar os manifestantes, o que levará quase certamente a uma repressão ainda maior por parte da segurança interna iraniana, como já aconteceu no passado. Tal intervenção dos EUA poderia levar ao derrube do ayatollah, intencional ou não. Além disso, o destino de Maduro demonstra que a administração Trump está disposta a usar a força militar para esse fim, se assim o considerar necessário.
Estas condições colocam o regime de Khamenei sob maior ameaça hoje do que talvez em qualquer outro momento dos seus 46 anos de história.
Ameaças crescentes, internas e externas
Se Khamenei espera sobreviver política (ou mesmo fisicamente) tem três opções.
Em primeiro lugar, poderia ceder às exigências dos EUA para travar o programa de enriquecimento nuclear do Irão. Em segundo lugar, o Irão poderia apressar-se a produzir uma bomba nuclear. Por último, poderia fugir.
Na esperança de restaurar a dissuasão, Khamenei poderia também continuar a reconstruir as capacidades militares do seu país, que foram significativamente prejudicadas durante a guerra de 12 dias em Junho de 2025, na qual Israel e os EUA tinham como objetivo destruir a capacidade nuclear iraniana.
Israel está ansioso por abafar os planos de reconstituição do Irão, os protestos estão a espalhar-se e a intensificar-se, e Trump – através de retórica hostil e ações militares ofensivas – alertou Khamenei.
Os problemas de Khamenei não são apenas dele. O sistema de governo teocrático revolucionário que ele lidera corre o risco de ruir. E o seu aparelho militar e de segurança interna pode não ter tempo ou capacidade para lidar simultaneamente com as crescentes e inter-relacionadas ameaças internas e externas.
Há dois fatores fundamentais que os analistas consideram quando avaliam as ameaças inimigas: a capacidade ofensiva de infligir danos e as intenções hostis de utilizar essas capacidades para prejudicar os inimigos.
A determinação da capacidade ofensiva implica avaliar a qualidade do arsenal completo de um país ou organização – capacidades aéreas, terrestres, marítimas, cibernéticas e espaciais – e quão treinadas, disciplinadas, integradas e letais podem ser as suas forças. Determinar as intenções implica avaliar se, quando e em que condições as capacidades ofensivas serão utilizadas para atingir os seus objetivos.
Se os Estados esperam sobreviver quando sujeitos a tal pressão, a sua estratégia de defesa deve ter em conta as diferenças entre a sua própria capacidade militar e a do inimigo, especialmente se os inimigos pretendem atacar. Ou os Estados precisam de convencer os inimigos a serem menos hostis, se possível.
O erro de Maduro foi a sua incapacidade de se defender contra uma capacidade militar americana muito superior, ao mesmo tempo que acreditava que os líderes americanos não o afastariam do cargo. Maduro apostou e perdeu.
Más escolhas
O líder supremo do Irão enfrenta um dilema semelhante: em primeiro lugar, não existe um caminho previsível que permita a Teerão produzir ou adquirir as capacidades militares necessárias para dissuadir Israel ou derrotar os Estados Unidos, a não ser que o Irão desenvolva uma arma nuclear.
Décadas de hostilidade mútua, a memória do outrora clandestino programa de armas nucleares do Irão e os recentes apelos dos parlamentares iranianos para o desenvolvimento de bombas nucleares minimizam a possibilidade de os líderes americanos verem as intenções de Khamenei como algo mais do que hostis.
Mas, como parte claramente mais fraca, é do interesse de Teerão mudar a opinião de Trump sobre as intenções hostis do país. A forma de o fazer seria abandonando o enriquecimento de urânio.
Em termos de análise de ameaças, os gritos frequentemente repetidos pelo regime de “Morte à América” e “Morte a Israel” talvez tenham enviado uma mensagem facilmente mal interpretada: a de que os líderes hostis do Irão pretendem destruir os EUA e Israel. Mas simplesmente não têm essa capacidade, por enquanto.
O presidente Theodore Roosevelt disse, um dia, “fale manso e carregue um grande cacete; irá longe”. Hoje, ele poderia dizer que Khamenei agiu de forma imprudente ao expressar-se com tanta virulência, considerando o poderio do Irão. Os Estados Unidos e Israel possuem capacidades militares muito superiores às do Irão – como demonstrado pela Guerra dos Doze Dias –, mas, naquele momento, não partilhavam a mesma intenção. Embora as operações de Israel e dos EUA tivessem como objetivo neutralizar o programa nuclear iraniano, os objetivos de Israel eram mais vastos e incluíam visar altos dirigentes iranianos e desestabilizar o regime.
Para sorte momentânea de Khamenei, tanto a nível pessoal como institucional, Trump apelou imediatamente a um cessar-fogo após os ataques de bombardeiros B-2 norte-americanos contra instalações nucleares iranianas, delineando os objectivos mais restritos dos Estados Unidos, que, na altura, não incluíam a mudança de regime no Irão.
Mas isto ocorreu antes de as forças norte-americanas retirarem Maduro de Caracas e antes do início dos protestos no Irão, ambos coincidindo com os preparativos de Israel para uma segunda ronda de hostilidades contra o Irão.
Irão sem Khamenei?
Durante a conferência de imprensa de 29 de dezembro em Mar-a-Lago com o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, Trump avisou que os EUA poderiam “dar uma tareia” ao Irão se o país reativasse as suas instalações nucleares.
Isto é diferente do aviso sinistro de que os EUA poderiam intervir a favor dos manifestantes iranianos; seria certamente de escala diferente.
No entanto, uma possível intervenção dos EUA poderia encorajar os manifestantes e minar e desestabilizar ainda mais o regime da República Islâmica. Khamenei, previsivelmente, ironizou e descartou o aviso de Trump.
Pode ser um grave erro.
O secretário de Estado Marco Rubio avisou a 3 de janeiro de 2025 que Khamenei não deveria “jogar sujo” como Maduro fez. Khamenei, disse Rubio, deveria levar os avisos de Trump a sério.
Se o Irão se abstiver de reprimir violentamente os manifestantes, existe a possibilidade de os protestos antigovernamentais derrubarem o governo. Mas as probabilidades de o líder supremo sobreviver a uma revolta popular são provavelmente maiores do que sobreviver a um exército americano ou israelita desenfreado, determinado a instaurar um novo Irão pós-República Islâmica.
Caso contrário, Khamenei terá de lidar rapidamente com a superioridade militar dos EUA e de Israel. Mas o Irão está falido, e mesmo que as sanções não estivessem a estrangular continuamente a economia iraniana, o país provavelmente nunca conseguiria alcançar a paridade militar com os EUA ou Israel.
Em alternativa, o Irão poderá concluir que necessita de desenvolver rapidamente uma arma nuclear para mitigar as capacidades militares americanas e israelitas e dissuadir futuras agressões. No entanto, é extremamente improvável que o Irão o consiga fazer sem que os serviços de informação americanos e israelitas descubram o projecto, o que desencadearia imediatamente uma campanha militar avassaladora que provavelmente aceleraria a mudança de regime no Irão.
E, tal como Maduro, o líder supremo está completamente sozinho. Nenhum dos parceiros mais próximos de Maduro – China, Rússia, Cuba e até o Irão – se dispôs a lutar em sua defesa, apesar de semanas de alertas e do aumento da presença militar dos EUA perto da Venezuela.
Nestas circunstâncias, pode ser impossível para Khamenei lidar com a esmagadora capacidade militar dos EUA e de Israel. Poderia, no entanto, reduzir a ameaça fazendo o necessário para garantir que os objetivos dos Estados Unidos em relação ao Irão se mantêm restritos e centrados no programa nuclear, o que também pode manter Israel sob controlo.
Contudo, Khamenei teria que demonstrar uma contenção sem precedentes, evitando reprimir violentamente os manifestantes, e uma disposição para abandonar o enriquecimento de urânio. Devido à animosidade e desconfiança históricas em relação aos EUA, ambas as coisas são improváveis, aumentando a probabilidade de um futuro Irão sem Khamenei.