As lembranças podem exercer papel decisivo no desenvolvimento infantil. Do ponto de vista neurocientífico, experiências marcantes ativam áreas fundamentais do cérebro, como o hipocampo — responsável pela memória — e o sistema límbico, ligado às emoções. Quanto maior a carga emocional positiva de uma situação, maior a chance de ela ser consolidada como memória de longo prazo, tornando-se uma referência interna que a criança acessa.

Um fato chama atenção. Segundo o jornal francês Le Monde, uma pesquisa publicada na revista Science revelou que aos 12 meses de idade, o hipocampo humano parece capaz de codificar “memórias episódicas” rudimentares, os alicerces da nossa memória autobiográfica – muito antes da idade das primeiras memórias que conseguimos relatar como adultos. Os cientistas, liderados por Nicholas Turk-Brown da Universidade de Yale, realizaram o estudo com 26 crianças entre 4 e 24 meses dentro de uma máquina de ressonância magnética (MRI) e estudaram as respostas cerebrais às imagens apresentadas a elas.

Durante o experimento, as crianças observaram imagens de rostos, paisagens e objetos, projetadas no teto do aparelho. Assim, mediram a atividade do hipocampo enquanto estas imagens eram codificadas pelo cérebro. A tecnologia permitiu aos pesquisadores avaliar a atividade neuronal no hipocampo medindo os níveis de oxigênio nos pequenos vasos sanguíneos do cérebro: quanto maior o nível, mais ativa estava a região. O resultado mostrou que aos 12 meses, o hipocampo (especialmente na região posterior) revelou mais atividade para as imagens que as crianças lembrariam um pouco depois. Essa região posterior está associada à função de memória episódica em adultos.

É importante destacar que no campo educacional, as memórias de experiências funcionam como “pontes” para o aprendizado. Ao vivenciar viagens, brincadeiras ao ar livre, contato com diferentes culturas ou até mudanças simples de rotina, a criança amplia seu repertório cognitivo. O cérebro aprende melhor quando consegue associar novos conteúdos a experiências concretas já armazenadas. Assim, uma aula de geografia, ciências ou língua portuguesa passa a fazer mais sentido quando o aluno conecta o conteúdo às próprias vivências, o que estimula a curiosidade, a atenção e a capacidade de interpretação.

No aspecto emocional, as lembranças das férias, por exemplo atuam como reguladoras internas. Experiências de descanso, vínculo familiar, autonomia e diversão estimulam a liberação de neurotransmissores como dopamina e serotonina, associados à sensação de bem-estar e segurança emocional. Essas memórias positivas ajudam a criança a lidar melhor com frustrações, desafios escolares e momentos de estresse, funcionando como um “estoque emocional” que reforça a autoestima e a resiliência.

Por outro lado, no desenvolvimento mental, o impacto está diretamente ligado à neuroplasticidade — a capacidade do cérebro de criar e reorganizar conexões neurais. Durante as férias, a diversidade de estímulos ativa múltiplas áreas cerebrais, favorecendo a flexibilidade cognitiva, a criatividade e o pensamento crítico. Ao longo do ano, o cérebro recorre a essas conexões para resolver problemas, elaborar emoções e adaptar-se a novas demandas.