Imunologia

Pesquisa mostra como sistema imunológico reage a transplante de rim de porco em paciente vivo

Resultados indicam que a resposta imune inata permanece ativada, mesmo com o uso de imunossupressores, e abrem caminho para a busca de novas terapias para evitar rejeição de órgãos

Imunologia

Pesquisa mostra como sistema imunológico reage a transplante de rim de porco em paciente vivo

Resultados indicam que a resposta imune inata permanece ativada, mesmo com o uso de imunossupressores, e abrem caminho para a busca de novas terapias para evitar rejeição de órgãos

O primeiro paciente a receber um rim de porco foi um homem de 62 anos com doença renal terminal, que passou por cirurgia em 2024 no Hospital Geral de Massachusetts. A equipe foi liderada pelo brasileiro Leonardo Riella, um dos autores do artigo publicado ontem na Nature Medicine (imagem: Massachusetts General Hospital)

Luciana Constantino | Agência FAPESP – Pesquisa pioneira, liderada por brasileiros, descreve em detalhes as reações do sistema imunológico do primeiro paciente vivo a receber um transplante de rim de porco geneticamente modificado, abrindo caminhos para a busca de terapias que possam evitar a rejeição de órgãos.

O estudo mostra a viabilidade desse tipo de enxerto, mas indica ser insuficiente apenas controlar a rejeição inicial. Isso porque, mesmo com o uso de imunossupressores, a ativação contínua da imunidade inata – ou seja, da primeira linha de defesa do organismo, especialmente macrófagos, que reagem a qualquer ameaça – pode comprometer a sobrevida a longo prazo.

Usando análises transcriptômicas, proteômicas, metabolômicas e espaciais, os cientistas apontam que serão necessárias novas estratégias para alcançar a sobrevivência duradoura e desfechos clínicos favoráveis. Sugerem combinar terapias direcionadas à imunidade inata dos pacientes e engenharia genética avançada nos porcos doadores, além de prevenir a rejeição precoce mediada por linfócitos T e implementar abordagens de monitoramento mais sensíveis.

O xenotransplante consiste em transplantar órgãos, tecidos ou células de uma espécie animal – principalmente porcos geneticamente modificados – para humanos. É considerado uma solução promissora para a escassez de órgãos, porém a rejeição tem sido um grande desafio.

O primeiro paciente vivo a receber um rim de porco foi um homem de 62 anos com doença renal em estágio terminal, que passou por cirurgia em março de 2024 no Hospital Geral de Massachusetts, ligado à Harvard Medical School, em Boston. A equipe foi liderada pelo nefrologista brasileiro Leonardo Riella, um dos autores correspondentes do artigo, publicado ontem (08/01) na revista científica Nature Medicine. O paciente morreu dois meses depois – a causa provável foi fibrose miocárdica crônica prévia.

O transplante de rim é o que tem maior demanda no Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde. Em 2025, foram 6.670 cirurgias desse tipo no país.

Além disso, estima-se que entre 10 milhões e 12 milhões de brasileiros tenham alguma doença renal – número que pode aumentar com o envelhecimento da população e de pessoas com diabetes, pressão alta e obesidade. Em casos mais graves, um tratamento temporário pode ser a diálise, processo artificial para remover resíduos e excesso de líquidos do organismo quando os rins não funcionam adequadamente.

“O principal achado do estudo foi a caracterização detalhada, inédita e de alta resolução da resposta imunológica humana após o transplante de um rim de porco geneticamente modificado em um paciente vivo. Os resultados mostram que, para o xenotransplante se tornar uma opção clínica segura e duradoura, não basta controlar apenas a imunidade adaptativa, como fazemos tradicionalmente nos transplantes entre humanos. Será necessário também desenvolver estratégias específicas para modular a resposta imune inata e garantir a sobrevivência prolongada de enxertos xenogênicos em humanos”, afirma à Agência FAPESP Thiago Borges, professor e pesquisador no Hospital Geral de Massachusetts e na Harvard Medical School, autor correspondente do artigo.

Olhar múltiplo

Para avaliar de forma abrangente a resposta desencadeada pelo xenotransplante renal, os pesquisadores caracterizaram o perfil imune do receptor cruzando informações obtidas de análises clínicas com as do conjunto de proteínas (proteômica) e de metabólitos, como açúcares, lipídios e aminoácidos, entre outros.

Observaram que na primeira semana após a cirurgia o organismo do paciente reconheceu o órgão transplantado como “estranho” e ativou um tipo específico de defesa chamado rejeição celular, conduzida principalmente por linfócitos T. Esse processo, que pode danificar o órgão transplantado, foi identificado e controlado com medicamentos imunossupressores.

O estudo mostrou que, embora não tenha ocorrido rejeição mais grave (mediada por anticorpos), o sistema imunológico continuou parcialmente ativo (especialmente monócitos e macrófagos), revelando um papel central e até então subestimado da imunidade inata na rejeição de xenotransplantes.

Essa rejeição não chegou a ser detectada por meio de exames de sangue, mas os testes que medem fragmentos de DNA do órgão transplantado no sangue indicaram lesão no rim. Com isso, o grupo indica que os níveis de DNA livre de células derivado de doadores suínos (dd-cfDNA) podem ser um potencial biomarcador para o problema. No caso analisado, o rim de porco tinha 69 modificações genéticas para aumentar a compatibilidade imunológica.

“Demonstramos que fragmentos de DNA do rim de porco circulando no sangue do paciente podem ser usados como marcador sensível e não invasivo de rejeição. Isso abre a possibilidade de monitorar o enxerto em tempo real, o que potencialmente reduz a necessidade de biópsias”, explica Borges.

Observou-se também uma ativação persistente da imunidade inata, com sinais de inflamação contínua. Os achados indicam que, apesar dos avanços, os tratamentos atuais ainda não conseguem controlar totalmente as formas de resposta imune.

“Esse estudo foi importante por permitir uma visão ampla de todas as alterações moleculares e celulares que aconteceram no transplante. Isso pode ajudar a guiar e melhorar a eficiência da imunossupressão”, diz Helder Nakaya, pesquisador sênior do Hospital Israelita Albert Einstein e um dos autores do artigo.

Professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (FCF-USP), Nakaya recebe apoio da FAPESP no projeto “Biologia integrativa aplicada à saúde humana”, cujo objetivo é desenvolver abordagens inovadoras para analisar bases de dados epidemiológicos; mapear hotspots de transmissão de doenças; integrar dados de transcriptoma com informações clínicas e imunológicas e usar aprendizado de máquina para interpretação e análise de imagens microscópicas.

Ele também é pesquisador principal do Centro de Pesquisa em Doenças Inflamatórias (CRID, sigla em inglês para Center for Research in Inflammatory Diseases), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) da FAPESP.

“Pelo trabalho no desenvolvimento de várias ferramentas analíticas, incluindo análise de single cell, fomos convidados pelos pesquisadores de Harvard para trabalhar na análise multiômica integrada desses milhares de moléculas”, completa Nakaya.

Em novembro de 2025, um outro grupo de cientistas ligados a instituições dos Estados Unidos publicou pesquisa avaliando a rejeição de rim de porco transplantado em uma pessoa com morte cerebral (leia em: nature.com/articles/s41586-025-09847-6).

O artigo Immune profiling in a living human recipient of a gene-edited pig kidney pode ser lido em nature.com/articles/s41591-025-04053-3.