Ao contrário de António José Seguro e de Luís Marques Mendes, que segundo as sondagens não conseguem convencer todo o eleitorado dos seus partidos originais, André Ventura está bem posicionado para o fazer. E é isso que a campanha se reflete. Para que passe à segunda volta das eleições, o resultado que conseguiu nas últimas legislativas (22,76%) é, aparentemente, mais do que suficiente. Portanto, a missão para esta primeira fase das presidenciais é: não mexer muito para não estragar.
Sendo, sem sombra de dúvidas, o ativo mais valioso do Chega, Ventura tem consciência de que ninguém conseguiria um melhor resultado do que o próprio. Assim, somando e subtraindo prós e contras, o presidente do Chega concentra-se em falar para os seus, com ênfase nos temas do costume: corrupção e imigração e um cheirinho em tudo o que é problema para as pessoas, desde a saúde, às pensões baixas e à fuga de cérebros para o estrangeiro.
Por tudo isto, Ventura não tem sentido a necessidade de entrar em grandes aventuras para tornar-se o centro das atenções, quando só precisa dos votos que conseguiu num passado muito recente. Mais uma vez: numa eleição tão fragmentada como esta, os eleitores que o partido teve em maio chegariam e sobrariam para uma passagem à segunda volta e, possivelmente, para uma vitória à primeira (como várias sondagens apontam).
Para que isso aconteça há um dado relevante: a fidelização de quem vota no Chega. Tal como tem vindo a ser revelado por diversas sondagens, acredita-se que Ventura tem o eleitorado mais fiel e menos volátil. O presidente do partido está mesmo a contar com essa vantagem teórica. Em declarações aos jornalistas, o líder do Chega falou em estudos do partido que “são claros”, dando-lhe o primeiro lugar, com uma “fidelização de voto na casa dos 86/87%, pessoas que dizem que já não alterarão o sentido de voto”. “Neste momento, sou o maior adversário de mim próprio“, atirou esta quinta-feira, dizendo que o seu grande objetivo é mesmo conquistar “todos os eleitores” que votaram no Chega nas últimas legislativas.
A partir daí, e se passar de facto à segunda volta, as coisas mudarão de figura, claro. “Há uma tendência para vencermos a primeira volta e para podermos não vencer a segunda volta. Não quero dourar a pílula, as coisas são o que são, porém, uma segunda volta é completamente diferente de uma primeira, nas suas dinâmicas, na sua estrutura, na sua organização. Depois do dia 18 vamos ter outra luta de três semanas, em que vamos só dois candidatos dizer ao país o que é que querem, e isso significa que podemos e devemos lutar pela inversão dessa tendência”, assumiu o próprio candidato. Mas, com o conforto de um eleitorado altamente fiel, o céu é mesmo o limite para Ventura.