Nascida há exato um mês, Yarin, filha do cantor MC Guimê e de Fernanda Stroschein, foi diagnosticada com APLV, Alergia à Proteína do Leite da Vaca, após apresentar uma sequência de sintomas que acenderam o alerta da família. No caso da bebê, os sinais vieram primeiro e o diagnóstico sucedeu esse quadro inicial, o que é comum em recém-nascidos com a condição, já que os sintomas costumam surgir antes da confirmação médica.

Segundo a mãe, o comportamento da filha começou a chamar atenção nos primeiros dias de vida, principalmente pela dificuldade para evacuar e pelo desconforto evidente após as mamadas. A situação evoluiu rapidamente e exigiu uma resposta ágil da família, que buscou orientação médica diante da intensificação dos sinais.

“Ela estava fazendo muito esforço para evacuação, e foi aí que a gente ficou muito preocupado. Logo em seguida, entramos em contato com a médica dela. Infelizmente os sintomas não melhoravam e se intensificaram. Então a gente teve que, de forma ágil, procurar a doutora dela”, contou Fernanda.

Para entender melhor o quadro e esclarecer dúvidas comuns sobre a condição, a CARAS Brasil ouviu a médica alergista e imunologista Dra. Brianna Nicoletti, que reforça que a APLV está longe de ser um exagero ou um diagnóstico banal, especialmente na primeira infância.

“A APLV é a alergia alimentar mais comum da infância, especialmente no primeiro ano de vida. Ela ocorre quando o sistema imunológico do bebê reconhece as proteínas do leite de vaca, como a caseína e as proteínas do soro, como uma ameaça, desencadeando uma resposta inflamatória. Ou seja, não é intolerância à lactose e não tem relação com ‘fraqueza do intestino’ ou ‘frescura’”, explica ela sobre o diagnóstico da filha do ex-BBB.

O que diferencia alergia de intolerância

A especialista destaca que a confusão entre alergia e intolerância é frequente, inclusive entre adultos, o que pode atrasar o diagnóstico correto nos bebês. Por isso, compreender essa diferença é essencial para um tratamento adequado desde os primeiros sinais.

“Essa confusão é muito frequente. A intolerância à lactose é causada pela deficiência da enzima lactase e provoca sintomas como gases, distensão abdominal e diarreia. Já a APLV é uma reação imunológica, que pode envolver o intestino, a pele e até o sistema respiratório. Na alergia, o corpo reage de forma inadequada a algo que, para a maioria das pessoas, é completamente inofensivo”, esclarece.

Sintomas, diagnóstico e tratamento da APLV

De acordo com a médica, a APLV pode se manifestar de formas diferentes, dependendo do tipo de resposta imunológica envolvida, e alguns sinais exigem atenção redobrada por parte dos pais e cuidadores.

“Os sintomas variam conforme o tipo de reação imunológica envolvida, podendo ser IgE mediada, não IgE mediada ou mista. Entre os sinais que merecem atenção estão cólicas intensas e persistentes, irritabilidade importante especialmente após as mamadas, fezes com muco e ou sangue, vômitos frequentes ou refluxo importante, dermatite perianal e assaduras de difícil controle, além de lesões de pele como eczema. Em casos mais raros, também podem surgir sintomas respiratórios. É fundamental reforçar que sangue nas fezes nunca é normal e sempre exige avaliação médica”, alerta.

O diagnóstico, segundo a especialista, não depende de um único exame isolado, mas da análise cuidadosa do quadro clínico do bebê e da resposta ao tratamento inicial.

“O diagnóstico da APLV é clínico, baseado na história, nos sintomas e na resposta à retirada da proteína do leite de vaca da dieta. Dependendo do quadro, podem ser utilizados testes alérgicos específicos nos casos IgE mediados, testes de exclusão e reintrodução alimentar supervisionada, além da avaliação do crescimento e do estado nutricional. Não existe um único exame que feche o diagnóstico em todos os casos, por isso o acompanhamento médico é essencial”, pontua.

O tratamento consiste, principalmente, na exclusão total da proteína do leite de vaca da alimentação do bebê, sempre com orientação especializada.

“O tratamento é a exclusão completa da proteína do leite de vaca da dieta do bebê. Em crianças que usam fórmula, são indicadas fórmulas extensamente hidrolisadas ou fórmulas à base de aminoácidos, conforme a gravidade do caso. Em bebês em aleitamento materno exclusivo, pode ser necessária a retirada total do leite e derivados da dieta da mãe, sempre com acompanhamento médico e nutricional. Com o manejo adequado, a maioria dos bebês apresenta melhora significativa dos sintomas em poucos dias ou semanas”, afirma.

A médica também tranquiliza os pais ao falar sobre o prognóstico da condição, que na maioria das vezes é temporária.

“A boa notícia é que, na maioria dos casos, a APLV é transitória. Cerca de 80 a 90% das crianças desenvolvem tolerância ao leite ao longo da infância, especialmente quando são bem acompanhadas e não passam por exposições inadequadas precoces. Por isso, não se trata de rotular a criança, mas de protegê-la enquanto o sistema imunológico amadurece”, explica.

Por fim, a especialista reforça a principal mensagem trazida pelo relato dos pais de Yarin, que pode ajudar outras famílias a reconhecerem os sinais precocemente.

“O depoimento dos pais da Yarin traz uma mensagem central: ouvir os sinais do corpo do bebê e procurar ajuda especializada faz toda a diferença. APLV não é exagero, não é moda e não deve ser minimizada. Quando reconhecida precocemente e tratada corretamente, permite que o bebê cresça com conforto, segurança e saúde. Informação de qualidade salva sofrimento e, em alguns casos, salva vidas”, conclui.

VEJA PUBLICAÇÃO DE MC GUIMÊ:


Dra. Brianna Nicoletti

Dra. Brianna Nicoletti é médica (CRM 113.368) com 21 anos de experiência. Graduada pela PUC Campinas, possui especialização em Alergia e Imunologia pela USP. Fez residência de medicina interna na Unicamp (2006), além de residência médica em Alergia e Imunologia na USP (2009). Também é Médica Especialista em Alergia e Imunologia do Corpo Clínico referenciada pelo Hospital Israelita Albert Einstein há 10 anos.