Esta prudência também acaba por colocá-lo na área da moderação e da estabilidade política, argumento que um dos seus adversários, Luís Marques Mendes, tem usado para tentar fragilizar as candidaturas que vêm de outras áreas políticas. Seguro já disse que não dissolve a Assembleia da República em caso de chumbo de Orçamento do Estado — ao contrário do atual Presidente — e tem reagido com pinças aos casos do dia, evitando aparecer como um provocador de instabilidade.
Logo na segunda-feira, em Loulé, quando foi confrontado com a presença de Luís Montenegro e as críticas que fez à sua candidatura, António José Seguro saltou por cima evocando o “dever de reserva”. “Não faço comentários às palavras do primeiro-ministro, porque espero recebê-lo dentro de dois meses no Palácio do Belém, na qualidade de Presidente da República.”
Nas sua intervenções tem mesmo usado uma imagem para o ilustrar a relação que pretende manter, ao jurar que não será “um primeiro-ministro sombra”. Afasta-se de alguns dos antigos Presidentes, incluindo um do seu próprio partido, Mário Soares, com as suas “Presidências Abertas”, muito criticadas pelo então primeiro-ministro, Aníbal Cavaco Silva. Nesta campanha, Seguro já anunciou que vai regressar “às presidências abertas e às presidências de proximidade em todo o território nacional”, mas sempre “cooperação” com o Governo.
Ao mesmo tempo, também já avisou por várias vezes que não tenciona ter o primeiro-ministro às quintas-feiras em Belém “para tomar chá” com Luís Montenegro. Afinal, à sua esquerda, vai sentindo também a pressão e as críticas sobre o seu estilo de liderança e a relação pouco dura que manteve com as forças de direita. Um legado que vem dos tempos como secretário-geral do PS, entre 2011 e 2014, e em que Pedro Passos Coelhos governava com a troika no país.
No Parlamento, PSD e CDS não precisavam dos votos de mais ninguém, mas mesmo assim, o socialista Seguro anunciava uma “abstenção violenta” ao Orçamento da sua bancada. Essa decisão pesa até hoje, sobretudo nas investidas da esquerda sobre a sua candidatura. Jurar que não “vai tomar chá” com Montenegro e que será exigente é uma tentativa de provar a esse eleitorado mais à esquerda que, em Belém, não facilitará a vida ao Governo.