Numa era em que o turismo excessivo domina as manchetes e as redes sociais transformam cidades inteiras em cenários repetitivos, encontrar um destino que ainda se sinta real tornou-se o novo luxo das viagens. De acordo com uma análise recente da InsureandGo, que passou a pente fino mais de 1,3 milhões de avaliações no Google Maps, o Porto consolidou-se como um dos raros refúgios de autenticidade no continente europeu.

O estudo comparou o vocabulário utilizado por viajantes em 144 cidades globais, focando-se na frequência com que termos como “autêntico” e “tradicional” apareciam nas críticas de restaurantes e atrações, por oposição a queixas de “armadilhas para turistas” ou preços inflacionados. O Porto alcançou a quarta posição no ranking europeu, com uma pontuação de 43,6 em 100, batendo destinos historicamente conhecidos pela sua forte identidade cultural.

O segredo da Invicta e os líderes da lista europeia

O que separa o Porto de outras metrópoles é a perceção de que a vida local ainda não foi totalmente engolida pelo comércio turístico. Enquanto cidades como Londres ocupam os últimos lugares da tabela, os utilizadores do Google Maps destacam no Porto a facilidade em encontrar experiências que não parecem encenadas para o visitante, com especial destaque para as caves de Vinho do Porto e a arquitetura nortenha.

No topo da lista europeia, Marselha (França) sagrou-se a campeã da autenticidade. Logo atrás surgem Varsóvia (Polónia) e a capital da Geórgia, Tbilisi. A lista das principais cidades autênticas da Europa é dominada por destinos onde o custo de vida permite ao viajante “tropeçar” na realidade da cidade sem filtros:

  1. Marselha, França (51.5 pontos)

  2. Varsóvia, Polónia (50.6)

  3. Tbilisi, Geórgia (44.2)

  4. Porto, Portugal (43.6)

  5. Lyon, França (41.2)

  6. Vilnius, Lituânia (41.0)

  7. Gdańsk, Polónia (39.8)

  8. Nápoles, Itália (36.4)

  9. Frankfurt, Alemanha (36.3)

  10. Lago Bled, Eslovénia (34.2)

A América Latina domina o mapa mundial

Para medir a autenticidade global, a InsureandGo utilizou uma fórmula que subtrai as queixas de “armadilhas para turistas” aos comentários positivos sobre experiências genuínas. O resultado revela um domínio claro da América Latina, que ocupa mais de dois terços do top 10 mundial.

Bogotá alcançou uma pontuação perfeita

Bogotá alcançou uma pontuação perfeita
Créditos: Delaney Turner | Unsplash

Cidades como Bogotá, Lima e Quito são frequentemente elogiadas pela sua cultura de rua e património preservado. Estes destinos oferecem uma mistura de raízes indígenas com herança colonial que cativa quem procura fugir do óbvio. Os mercados locais e as artes de rua nestas cidades criam um ambiente que os viajantes descrevem como profundamente enraizado na vida quotidiana.

  1. Bogotá, Colômbia (100.0 pontos)

  2. Lima, Peru (70.5)

  3. Taipé, Taiwan (68.6)

  4. Mascate, Omã (68.3)

  5. Quito, Equador (63.5)

  6. Valparaíso, Chile (62.7)

  7. Medellín, Colômbia (59.0)

  8. Rio de Janeiro, Brasil (58.8)

  9. São Paulo, Brasil (55.7)

  10. Cairo, Egito (54.5)

À mesa é que a gente se entende (especialmente na Colômbia)

O estudo aprofundou também a análise especificamente para a gastronomia, criando um ranking paralelo das cidades com os restaurantes mais autênticos. Aqui, a América Latina domina sem rival.

Bogotá, na Colômbia, atingiu a pontuação perfeita de 100 pontos. Segundo as avaliações, a capital colombiana é o melhor lugar do mundo para comer como um local, graças a uma cultura de comida de rua muito forte (arepas e empanadas) e sopas tradicionais que resistem à globalização dos menus. A lista dos “paraísos foodie” completa-se com Quito (Equador) e Taipei (Taiwan), provando que, para os viajantes modernos, a autenticidade sente-se, acima de tudo, no paladar.

A queda dos gigantes: as “armadilhas” de Veneza e Chicago

Se o Porto e Bogotá brilham pela positiva, o estudo serve também de aviso para os destinos que estão a sucumbir à sua própria fama. Veneza, uma das cidades mais visitadas do mundo, surge no fundo da tabela com uma pontuação de apenas 2.6, refletindo o volume massivo de queixas sobre preços abusivos.

Veneza tem feito esforços para combater o Overtourism

Veneza tem feito esforços para combater o Overtourism
Créditos: Ludovico Lovisetto | Unsplash

A nível global, a situação é ainda mais gritante nos Estados Unidos. Chicago foi declarada a cidade menos autêntica do mundo (pontuação de 2.0), acompanhada por Las Vegas. Nestes locais, a experiência turística é descrita nas avaliações como “altamente comercial”, centrada em grandes cadeias desenhadas exclusivamente para extrair o máximo de lucro de cada visitante.

Para o viajante de 2026, o veredito parece claro: a beleza de um destino já não se mede apenas pelos seus monumentos. Mede-se pela capacidade de nos fazer sentir que fazemos parte do lugar.