O Sol, a estrela mais próxima da Terra, é facilmente observável durante o dia. No entanto, a maioria das estrelas permanece oculta aos olhos humanos. Contudo, existem eventos astronômicos que desafiam essa norma.
Em 1604, um notável acontecimento chamou a atenção de Johannes Kepler, um astrônomo de apenas 34 anos na época. Ele observou uma supernova, agora conhecida como SN 1604, que era tão intensa que permaneceu visível durante o dia por três semanas consecutivas. Este evento foi um marco na história da ciência ocidental, pois desafiou a visão aristotélica do universo como um sistema imutável.
Após sua aparição, a supernova desapareceu do campo visual humano e permaneceu fora do radar até que seu remanescente fosse redescoberto em 1941. Desde então, observatórios modernos têm estudado esse objeto celeste, incluindo o telescópio Chandra da NASA. Recentemente, um vídeo foi produzido mostrando a evolução desse remanescente ao longo dos últimos 25 anos.
Como explica o portal Galileu, a explosão de uma estrela deixa para trás detritos que os cientistas classificam como remanescentes de supernovas. Após a explosão inicial, esses materiais são aquecidos a milhões de graus e emitem um brilho intenso em raios X. O telescópio Chandra tem capturado imagens desse fenômeno ao longo de duas décadas, permitindo aos pesquisadores observar as mudanças nos detritos ao longo do tempo.
O vídeo mais recente inclui dados coletados em anos distintos: 2000, 2004, 2006 e 2014. Os pesquisadores descobriram que as partes mais rápidas do remanescente se movem a aproximadamente 22,2 milhões de quilômetros por hora, equivalendo a cerca de 2% da velocidade da luz. Em contraste, as partes mais lentas se deslocam a uma velocidade de 6,4 milhões de quilômetros por hora, ou cerca de 0,5% da velocidade da luz. Essa variação de velocidade se deve à densidade diferente do gás que o remanescente encontra em sua trajetória.
Jessye Gassel, pesquisadora da Universidade George Mason nos Estados Unidos, comentou sobre a relevância dessa descoberta: “É notável que possamos observar os restos dessa estrela despedaçada colidindo com material já lançado ao espaço”.
Durante um quarto de século de observações detalhadas sobre o remanescente da supernova descoberta por Kepler, os astrônomos identificaram que a estrela original era uma anã branca que provavelmente explodiu após ultrapassar sua massa limite. Essa situação pode ter ocorrido devido à atração de material proveniente de outra estrela ou pela fusão com outra anã branca.
A supernova em questão é classificada como do tipo “Ia”, um tipo fundamental para os astrônomos no cálculo da expansão do universo. Essas explosões não apenas geram remanescentes estelares mas também criam elementos essenciais para a formação de planetas e vida. O papel das supernovas no cosmos tem sido cada vez mais reconhecido à medida que os cientistas buscam entender melhor esses fenômenos celestiais.
A equipe de pesquisa também se dedicou à análise da largura das bordas formadas pela onda de choque resultante da explosão. Medindo tanto sua largura quanto sua velocidade de deslocamento, os cientistas poderão reunir informações valiosas sobre o evento da explosão e seu ambiente circundante.
Brian Williams, do Centro de Voos Espaciais Goddard da NASA, destacou a importância dessa pesquisa: “Compreender exatamente como elas [as supernovas] se comportam é crucial para conhecermos a nossa história cósmica [porque] as explosões de supernovas e os elementos que elas lançam no espaço são a força vital de novas estrelas e planetas”.
Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.