“Operação Militar Especial” de Vladimir Putin já dura mais que a Grande Guerra Patriótica e isso quebra um mito que pode abalar a sociedade russa
Existe uma palavra específica para descrever o estado de espírito que o Kremlin alimenta na sociedade russa. Em 2005, um padre ortodoxo imortalizou o termo Pobedobesie – a “euforia” ou “frenesim” da vitória – para criticar o que lhe parecia ser a utilização do enorme sacrifício soviético como justificação para uma cultura de crescente militarização. Corriam apenas cinco anos de liderança de Vladimir Putin, que não criou este culto, mas conseguiu convertê-lo num dos principais pilares da identidade da Rússia moderna.
Mas, esta semana, o culto da vitória chocou com a realidade. Na próxima segunda-feira, dia 12 de janeiro, a “Operação Militar Especial” lançada por Vladimir Putin ultrapassa a duração da Grande Guerra Patriótica, o confronto existencial soviético que derrotou a Alemanha nazi após 1.418 dias. Este marco temporal arrisca quebrar um dos maiores mitos da sociedade russa e representa um perigo psicológico real para o regime. Numa altura em que, apesar dos avanços táticos, as perdas humanas são avassaladoras, a narrativa do “exército invencível” começa a desgastar-se e os russos podem começar a questionar-se porquê.
“Quatro anos depois […], nem o Donbass está completo. De alguma maneira, isto reduz a Rússia a uma certa insignificância militar que o Kremlin nunca entendeu que tinha, mas que tem. E isso pode influenciar a opinião pública a perceber a fraqueza relativa do Estado em que está inserida”, afirma à CNN Portugal Diana Soller, especialista em Relações Internacionais.
Apesar de ter conseguido conquistar mais território em 2025 do que nos dois anos anteriores juntos, a soma do novo território ocupado representa pouco mais de 1% de toda a superfície terrestre ucraniana. O exemplo mais flagrante desta paralisia estratégica acontece na cidade de Pokrovsk. Durante 14 meses, a Rússia concentrou esforços para capturar esta cidade que, antes da guerra, tinha apenas 61 mil habitantes e ocupava um modesto 73.º lugar na lista das maiores cidades ucranianas. Mesmo após mais de um ano de ofensiva, Pokrovsk não está totalmente sob controlo russo.
Para o Kremlin, o problema não é apenas a lentidão, mas o preço pago diariamente. Estima-se que a conquista destes escassos 1,45% de território tenha matado ou ferido entre um a 1,35 milhões de soldados russos. Para um regime que fez do culto ao sacrifício da Segunda Guerra Mundial uma espécie de religião estatal, as comparações são cada vez mais óbvias. O número de baixas russas na Ucrânia já supera o total de perdas de combate sofridas pelos Estados Unidos durante toda a Segunda Guerra Mundial.
Trata-se de uma sangria demográfica que terá dizimado cerca de 1% de toda a população masculina russa em idade ativa. E, apesar dos esforços de Donald Trump, o fim não parece estar ainda à vista. Para cumprir o objetivo mínimo de capturar os 20 mil quilómetros quadrados que faltam das regiões de Donetsk, Lugansk, Kherson e Zaporizhzhia, ao ritmo atual, o exército russo precisaria de combater até, pelo menos, maio de 2028.
“Se fosse russa, perguntaria como é que o meu ‘exército invencível’ está com dificuldades perante um exército ‘não-existente’ [na narrativa do Kremlin], que se formou e cresceu enquanto a guerra decorria”, sugere Diana Soller.
Ainda assim, os especialistas alertam que é preciso não subestimar a resiliência do regime e da população russa. Ao longo dos anos, o Kremlin, sob a liderança de Putin, preparou o terreno psicológico para o sacrifício. O tradicional apelo à paz do pós-guerra, “Nunca Mais”, metamorfoseou-se numa sinistra ameaça aos inimigos de Moscovo. “Podemos Repetir” (Možem povtorit), lê-se agora nas celebrações do Dia da Vitória. Mais do que um slogan, é a sinalização de disponibilidade para suportar o mesmo nível de sacrifício dos seus antepassados, numa guerra que custou a vida a pelo menos 27 milhões de cidadãos soviéticos, muitos deles civis que morreram à fome enquanto as tropas de Adolf Hitler avançavam pela Rússia adentro, antes de embaterem numa muralha formada por neve e gente que protegeu Moscovo.
“O aparelho de Estado começou a preparar a população para isto há muito tempo, com aquelas cerimónias do Dia da Vitória, em que mesmo artistas famosos se vestem com as fardas de 1940. […] Andam há tantos anos a ver aquilo que estão embriagados, já não conseguem ver bem o que se passa para além disso”, descreve à CNN Portugal Carlos Brás, antigo analista do Serviço de Informações de Segurança (SIS) que focou grande parte da sua carreira na análise da Rússia.
O resultado desta política é uma cegueira patriótica difícil de quebrar e que se tornou “parte da identidade deles”. Ou seja, “um ataque a esse mito é um ataque a cada indivíduo, a si próprio”. Por isso, o regime russo aprendeu a manipular o alvo da fúria da população russa. A definição de “nazi” na Rússia foi distorcida para ir muito além das políticas e crenças dos nacional-socialistas alemães da década de quarenta que invadiram a “mãe Rússia”. Segundo os manuais escolares russos, a principal característica dos “nazis” é terem atacado a União Soviética. Esta lógica é particularmente útil para o regime de Putin, porque permite classificar como nazis todos aqueles que o Kremlin vê como inimigos.
“Nazi é tudo quanto se opõe aos interesses russos. Tudo quanto se opõe àquilo que são os interesses da ‘Santa Mãe Rússia’ é nazi. É uma definição simples e que serve para tudo. Criaram um nazismo ‘pronto a utilizar’, onde metem lá o que quiserem”, explica Carlos Brás.
Esta manipulação semântica serve como um escudo vital para o regime: se o inimigo é o “mal absoluto”, qualquer sacrifício é justificado. E, mais importante, se a Rússia é a herdeira espiritual dos vencedores de 1945, a derrota torna-se uma impossibilidade religiosa. Por isso, quando a realidade no campo de batalha corre mal, a história é simplesmente reescrita ou apagada. “O objetivo é mostrar que a Rússia não pode ser vencida. Historicamente atacaram a Rússia várias vezes e a Rússia venceu sempre”, nota o antigo analista do SIS, alertando contudo que “isto é mentira”.
Vários passageiros passam por cartazes de propaganda do regime russo instalados na estação de metro de Dostoyevskaya, em São Petersburgo. No cartaz da esquerda é possível ver uma imagem de promoção das Forças Armadas (Contributor/Getty Images)
Mas se a narrativa interna ainda é capaz de ser mantida, a projeção externa de poder está em colapso evidente. A “superpotência” que o Kremlin vende aos russos é, na análise de Diana Soller, um gigante com “pés de barro”. O sistema internacional atual já não é bipolar, mas sim de “duas potências e meia”, onde a Rússia ocupa o lugar da fração, numa posição de “profunda dependência da China”. “Quem tem consciência política percebe que, no dia em que a China retirar o seu apoio, a Rússia vai revelar-se uma potência de pés de barro”, alerta a especialista em Relações Internacionais.
A capacidade russa de impor a sua vontade nas suas zonas de interesse está cada vez mais reduzida e é cada vez mais difícil de esconder. Desde que invadiu a Ucrânia, a Rússia limitou-se a assistir à queda do regime sírio, após anos de apoio militar, à derrota do Irão contra Israel e os Estados Unidos, ao afastamento de Nicolás Maduro e, mais recentemente, à apreensão de um petroleiro com bandeira russa por parte dos Estados Unidos. “A incapacidade que [a Rússia] tem de conseguir ajudar estes países da sua esfera de influência afeta a sua credibilidade”, frisa Diana Soller.
Internamente, as fissuras começam a surgir não entre as figuras liberais, que em grande parte já foram silenciadas, mas na própria base de apoio da guerra. Diana Soller nota que os “bloggers militares”, as únicas vozes com alguma liberdade no ecossistema de Putin, têm mostrado desagrado frequente com a “incapacidade russa de reagir” a ataques ucranianos e à perda de influência russa. “Não está a cair nada bem nas pessoas que mais defendem esta operação.”
Só que também na economia surgem sinais preocupantes para o regime. Apesar de os governantes russos terem contrariado as expectativas ocidentais de que as sanções colapsariam a economia do país, a economia russa começa a mostrar algumas brechas, principalmente com a queda do preço do petróleo. Além disso, o Fundo de Reserva Nacional russo já perdeu mais de metade da sua liquidez desde o início da invasão e a inflação corrói o poder de compra nas grandes cidades, ao mesmo tempo que a falta de mão de obra coloca sérios problemas às empresas russas.
No final, ao ultrapassar a barreira dos 1.418 dias, a Rússia de Putin entra num terreno tão incógnito quanto perigoso. A sociedade, militarizada e “embriagada” pelo mito do Pobedobesie, enfrenta um teste sem precedentes. O desfecho desta guerra longa dependerá, portanto, da resposta a uma única dúvida existencial que paira sobre o país. “Não sabemos duas coisas: como é que os russos verdadeiramente reagem a isto, porque esta situação é inédita; e se o espírito de sacrifício [da população] é superior à incompetência do regime. No fundo, é isso que está aqui em questão”, defende Diana Soller.