Perante a aceleração do comércio digital, a empresa sueca está a reformular o seu modelo de negócio para defender quota de mercado num segmento que cresce a ritmos de 17,4% ao ano.
A IKEA é uma espécie de quebra-cabeças para adultos. Cada móvel que chega em caixas planas convida o consumidor a dar asas à imaginação. Este modelo tem funcionado durante décadas. A marca conquistou clientes em todo o mundo ao oferecer design funcional e preços acessíveis. Com 808 lojas espalhadas por 63 países e vendas na ordem dos 44,6 mil milhões de euros, segundo a Bloomberg. A logística já oleada e os móveis em blocos que permitem transportar peças de grandes dimensões para casa sem complicações, formaram uma fórmula imbatível.
Mas, o jogo está a mudar. Há outros players de olho neste segmento de mercado. Segundo a Blomberg, a Amazon, a Shein e a Temu, que passaram também a vender artigos para o lar e mobiliário, estão na mira deste negócio com a promessa de entregas rápidas, preços baixos e conveniência digital. Uma combinação explosiva que está a roubar quota de mercado ao setor e, claro a morder os calcanhares à gigante sueca.
Questionados sobre este ataque dos marketplaces digitais, fonte oficial da IKEA não confirma nem desmente a informação, mas garante que a empresa mantém o foco no crescimento a longo prazo, assente numa estrutura financeira sólida. “Essa base tem-nos permitido investir estrategicamente num contexto de mercado em rápida transformação, chegando cada vez a mais pessoas, via diferentes canais.” Mas, admitem que vivemos num período de mudança acelerada, com impactos visíveis no retalho.
“A instabilidade geopolítica e económica, a entrada de novos concorrentes e as expetativas cada vez mais exigentes dos clientes estão a acelerar a transformação do setor”, sublinha ainda a empresa. Apesar disso, reforçam que esta realidade não é nova para a IKEA, que tem vindo a realizar uma profunda transformação do seu modelo de negócio, procurando ser mais ágil e eficiente, sem comprometer o design, a qualidade, a sustentabilidade ou a experiência de clientes e colaboradores.
Quando Ingvar Kamprad fundou a IKEA, em 1943, aos 17 anos com o dinheiro que o pai lhe deu por ter sido um bom aluno, dificilmente lhe passaria pela cabeça que a concorrência feroz viria do online. No entanto, quem gere atualmente a marca acredita estar no caminho certo. Estamos a testar e a aprender”, afiançam, dando como exemplo o investimento feito em Portugal na implementação dos Estúdios de Planificação e Encomenda, distribuídos um pouco por todo o país, apoiando os clientes em compras de maior envolvimento e complexidade, como cozinhas ou roupeiros, mas também sendo uma extensão das lojas standard. “Estes estúdios permitem a clientes de Beja, Lagos ou Leiria, por exemplo, aceder a toda a gama com apoio personalizado apesar de viverem mais longe das lojas de maiores dimensões”.
A empresa destaca ainda o desenvolvimento positivo dos canais digitais e remotos, que em Portugal já representam mais de 20% das vendas, respondendo a uma procura crescente por parte de consumidores que preferem uma compra autónoma. “Os clientes esperam hoje poder escolher quando, onde e como interagem com a marca”, sublinham. Nesse sentido, a IKEA admite continuar a testar novos formatos, como lojas mais pequenas e de proximidade, acelerando o investimento na estrutura logística e nas capacidades digitais, mantendo a loja física como ponto central do ecossistema.
A IKEA Portugal registou um crescimento de 1,5% no ano fiscal de 2025, período compreendido entre 1 de setembro de 2024 e 31 de agosto de 2025, atingindo 611 milhões de euros em vendas, face aos 602,7 milhões de euros no ano fiscal anterior.
A IKEA conta em Portugal com cinco lojas standard, 16 Estúdios de Planificação e Encomenda, canais digitais (IKEA.pt e aplicação móvel), vendas remotas acompanhadas e pontos de recolha distribuídos por todo o país. Em 2025 foram inaugurados três novos estúdios, em Aveiro, Beja e Guimarães. As vendas online e remotas representaram 22,5% do total do volume de negócios, enquanto o número de membros IKEA Family ascendeu a 1,8 milhões, um crescimento de 9% face ao ano anterior.
O exercício de 2025 ficou também marcado por uma forte redução das emissões de CO₂ nas operações da empresa. “Reduzimos em 53% as emissões no Scope 1 e 2 entre o ano fiscal de 2024 e 2025, comprovando que o crescimento do negócio e a redução do impacto ambiental são compatíveis”, afirmam, mostrando-se otimistas quanto ao futuro.
No mesmo período, 78% das entregas foram realizadas com veículos elétricos e 91% dos resíduos foram enviados para reciclagem. A aposta na economia circular traduziu-se na venda de 670 mil artigos na Área Circular, incluindo produtos em segunda mão, de exposição ou com pequenos danos não estruturais. Em abril, a empresa lançou ainda a plataforma IKEA Preowned, que já ultrapassou 1000 transações entre clientes.
Ao nível dos recursos humanos, emprega 3244 colaboradores de 40 nacionalidades, um aumento de 8%. E 96% têm contrato permanente. 52% das posições de liderança são ocupadas por mulheres e a empresa mantém 0% de diferença salarial entre homens e mulheres em funções equivalentes. Terminam, dizendo que “a oferta de soluções completas para uma vida em casa mais confortável, funcional e a preços baixos nunca foi tão relevante”.