Numa só semana, a OpenAI anunciou o lançamento do ChatGPT Health, uma nova vertente do seu chatbot dedicado só à saúde, e revelou um relatório interno com números impressionantes: todos os dias, mais de 40 milhões de pessoas usam o ChatGPT para questões de saúde. 40 milhões, todos os dias. E este valor, nas estatísticas semanais, ultrapassa os 200 milhões de utilizadores.

O que nos dizem estes dados? À primeira vista, torna evidente que a procura por respostas rápidas e fáceis de entender é cada vez maior. O universo médico, repleto de sintomas e diagnósticos com palavras complicadas para os leigos na matéria, choca de frente com a aparente facilidade com que abrimos o telemóvel e fazemos uma pesquisa num motor de busca. Durante anos, recorremos ao “doutor Google”, mas ele remetia-nos sempre para sites que nem sempre tinham linguagem acessível.

Os chatbots vieram mudar isso. Qualquer pergunta, por muito complexa que seja, pode ter sempre uma resposta simplificada ao máximo, em pequenos pontos e segmentos – o que é, como se trata, o que deve dizer ao médico, e por aí fora.

O ChatGPT Health surge como resposta a esta procura massiva dos internautas. A OpenAI sabe que ninguém consegue travar o vento com as mãos, por isso lança esta plataforma com o objetivo de ser mais especializada, capaz de apoiar utilizadores na navegação do sistema de saúde, esclarecer dúvidas sobre sintomas, preparar consultas, interpretar exames e até ajudar a lidar com questões administrativas como seguros ou faturação. Mas eu pergunto: esta ferramenta foi validada por equipas médicas, sistemas de saúde nacionais? Os profissionais de saúde em Portugal já a testaram?

A experiência dos leigos que recorrem à IA em momentos de incerteza é tudo menos linear. E pode aumentar (e muito) os níveis de ansiedade.

Nos últimos dias, vivi isso na pele, com o meu filho internado no Hospital de Santa Maria. Sou jornalista e bem sei que não podia estar melhor entregue: o Santa Maria é uma das maiores instituições de saúde em Portugal e uma referência na investigação e formação médica. Mas, entre a espera por respostas e a ansiedade natural de pais com um filho a queixar-se de dores, demos por nós a usar os chatbots e a fazer perguntas sobre hipóteses de doenças, exames, tratamentos.

De todas as vezes, o ChatGPT devolveu-nos inúmeras hipóteses de doenças, cada uma pior do que a outra, mas também nos deu conselhos para manter a calma, sugeriu perguntas para fazer aos médicos e até tentou adotar um tom empático, quase humano. Foi, aliás, nesse ponto, quando o ChatGPT escreveu “Conselhos como se fosse de mãe para mãe” que torci o nariz e comecei a apurar o sentido crítico das restantes respostas.

Estas ferramentas, de facto, podem ajudar-nos numa sitação limite, em que estamos sozinhos e não sabemos como reagir a um problema, mas não devem ser usadas a toda a hora, para todos os casos, muito menos quando já estamos entregues a uma equipa médiaca: a maior parte das respostas dos chatbots são vagas, outras refletem apenas aquilo que queremos ouvir, e esta tentação de procurar certezas rápidas pode ser muito perigosa para toda a família.

Falo pela minha experiência pessoal, mas penso que todos concordamos que é fácil empatizar com a ansiedade de quem está doente ou cuida de alguém doente, e a vontade de ter respostas rápidas e conclusivas é compreensível.

Mas é fundamental manter o sentido crítico perante as respostas dos chatbots: muitas vezes, dizem-nos o que queremos ouvir, não necessariamente a verdade.

A IA não faz magia, se as perguntas são vagas ou incompletas, os diagnósticos também o serão. E há ainda uma questão essencial: para onde vai a informação que carregamos nestas plataformas? Quem pode aceder aos nossos dados clínicos, exames, relatórios? Para que fins podem ser usados no futuro?

À hora a que escrevo esta newsletter continuo sem saber o problema que o meu filho tem, mas sei que está entregue aos cuidados atentos e profissionais de uma equipa médica excelente, dedicada e presente.

A tecnologia pode ser uma aliada poderosa, mas nunca deve substituir o olhar, o conhecimento e a ética humana de quem passa anos a estudar para cuidar de nós.

Não tenhamos dúvidas: o futuro da saúde será mais digital, mas cabe-nos também garantir que continuará a ser seguro. Gostava de ouvir mais profissionais de saúde a falarem sobre o uso amador destas tecnologias e o impacto que já está a ter nos consultórios médicos. Não deve ser fácil ter de lidar com “tudólogos” de IA.

JB: Não posso nem quero alongar-me mais neste tema, mas Woolf, aproveito para te perguntar se tens algum conselho para diminuir a ansiedade de alguém que passou muitas horas a fazer pesquisas nos chatbots sobre o estado de saúde do filho.

Compreendo perfeitamente essa sensação — é muito fácil cair num ciclo de pesquisa constante, sobretudo quando se trata da saúde de um filho. Aqui ficam alguns conselhos práticos para ajudar a diminuir a ansiedade depois de tantas horas a consultar chatbots e informação online:

Faz pausas conscientes: Afasta-te dos ecrãs durante algum tempo, respira fundo e tenta distrair-te com algo que gostes ou que te traga conforto, mesmo que por breves minutos.

Confia na equipa médica: Lembra-te que os profissionais de saúde estão a acompanhar o teu filho com conhecimento e experiência. Permite-te confiar neles e partilhar as tuas dúvidas diretamente com a equipa.

Aceita a incerteza: Nem sempre é possível ter respostas imediatas. Aceitar que há momentos de espera e indefinição pode ajudar a aliviar a pressão de “ter de saber tudo já”.

Partilha o que sentes: Falar com alguém de confiança sobre as tuas preocupações pode ajudar a relativizar e a sentir-te menos sozinha neste processo.

Cuida de ti: Dormir, comer e descansar são fundamentais para conseguires apoiar o teu filho e lidar melhor com a ansiedade.

E, acima de tudo, lembra-te: procurar informação é natural, mas não és obrigada a ter todas as respostas. O mais importante é estares presente para o teu filho e confiares que estás a fazer o melhor possível.

Se precisares de mais alguma sugestão ou apoio, estou aqui para ajudar.

JB: Não preciso de mais ajuda tua por agora.

Se tudo correr bem, as Conversas ao Ouvido voltam na próxima semana.

Até lá, desejo-lhe boas escutas e muita saúde! Bom 2026!