Estados-membros procuram para já evitar um confronto direto com Washington, DC e apostam na diplomacia para preservar a unidade e a segurança transatlântica, ainda que o presidente dos Estados Unidos tenha dito em entrevista recente que não precisa do direito internacional

A NATO está a avaliar o reforço da sua presença no Ártico, na sequência do agravamento da retórica do presidente norte-americano, Donald Trump, sobre a possibilidade de os Estados Unidos assumirem o controlo da Gronelândia, avança o Politico. A iniciativa surge depois de vários países da Aliança Atlântica terem manifestado preocupação com as implicações estratégicas e políticas de uma eventual ação unilateral de Washington, DC. 

Segundo diplomatas da NATO, numa reunião à porta fechada realizada esta semana em Bruxelas, os embaixadores dos 32 Estados-membros concordaram que o flanco ártico da Aliança deve ser reforçado. Entre as ideias discutidas estão o aumento da vigilância na região, um maior investimento em Defesa, a deslocação de equipamento militar para latitudes mais altas e a realização de exercícios militares adicionais no Ártico. 

O debate reflete um clima de inquietação crescente na Europa, alimentado pelas recentes declarações da Casa Branca, que voltou a recusar excluir um cenário de intervenção militar na Gronelândia, território autónomo da Dinamarca. Trump tem insistido que a ilha está vulnerável às influências russa e chinesa, uma avaliação que vários especialistas contestam, sublinhando que Moscovo e Pequim concentram os seus esforços militares sobretudo no Ártico oriental. 

Para vários aliados europeus, a prioridade passa por evitar uma rutura aberta com Washington, DC, refere o Politico. A possibilidade de um compromisso político com a administração norte-americana é vista como a solução preferencial, numa tentativa de conter uma crise que poderia pôr em causa a própria sobrevivência da NATO e a estabilidade das relações transatlânticas. 

A sensibilidade do dossiê ficou evidente no tom adotado durante a reunião em Bruxelas. De acordo com fontes diplomáticas citadas pelo jornal, o encontro decorreu num ambiente descrito como “produtivo” e “construtivo”, em que foram evitados confrontos diretos. O embaixador da Dinamarca defendeu que a questão da Gronelândia deve ser tratada como um assunto bilateral, aproveitando a ocasião para destacar progressos recentes na estratégia da NATO para o Ártico e a necessidade de aprofundar esse trabalho – uma posição que recolheu apoio generalizado.

O tema não ficou circunscrito à NATO. O Politico noticia que também numa reunião de embaixadores da União Europeia responsáveis pela Defesa e Política Externa, o assunto Gronelândia foi discutido, apesar de não constar da agenda formal. As capitais europeias expressaram solidariedade com Copenhaga e a Dinamarca deverá apresentar um ponto de situação detalhado numa próxima reunião dos representantes da UE.

Numa entrevista recente ao New York Times, o presidente norte-americano admitiu que a sua administração poderá “ter de escolher” entre preservar a NATO ou prosseguir a ambição de controlar a Gronelândia. Questionado sobre as razões do seu interesse no território, Trump afirmou que apenas a “propriedade” garantiria aos Estados Unidos vantagens estratégicas que “não seriam alcançáveis através de acordos ou tratados”, acrescentando ainda que não se sente limitado nos seus poderes. “Não preciso do direito internacional”, sublinhou.

As reações europeias não tardaram. A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, avisou que um ataque norte-americano a um país da NATO significaria, na prática, o fim da Aliança. Já o presidente francês, Emmanuel Macron, acusou Washington, DC de se afastar gradualmente dos seus aliados e das regras internacionais que o país ajudou a construir após a Segunda Guerra Mundial.