‘O agente secreto’ no tapete vermelho do Critics Choice Awards

Filme e Wagner Moura foram indicados

“É como quando uma criança faz algo que sabe que os pais não vão gostar, mas faz mesmo assim”, disse ele. Ao descrever essa inclinação, Moura abriu um sorriso. “Eu tenho isso”, disse.

Para Moura, esse traço travesso apareceu sempre que ele percebeu expectativas sobre como um ator latino deveria se comportar em Hollywood. Depois de seu papel de destaque como Pablo Escobar, há 10 anos, na série “Narcos”, da Netflix, Moura frustrou seus agentes ao recusar muitos dos projetos de alto perfil e altamente lucrativos que surgiram.

“Eles diziam algo como: ‘Ah, você é um ator brasileiro, deveria estar tão feliz com essa proposta’”, lembrou. “E havia uma parte de mim que sentia um certo prazer em dizer: ‘Não vou fazer isso’.”

Ironicamente, ao se manter fiel às próprias convicções e escolher projetos idiossincráticos como “O agente secreto”, Moura agora parece prestes a viver o maior momento global de sua carreira. O vibrante thriller político já lhe rendeu uma indicação ao Globo de Ouro e prêmios de melhor ator no Festival de Cannes e no New York Film Critics Circle. Embora enfrente uma concorrência forte na categoria de melhor ator, que inclui Leonardo DiCaprio, Timothée Chalamet e Michael B. Jordan, muitos analistas acreditam que Moura conquistará sua primeira indicação ao Oscar pelo filme.

Construir uma carreira de ator coerente em dois continentes não é tarefa fácil, mas o Moura de 49 anos conseguiu isso, levando calor humano e inteligência a obras politicamente engajadas como “Guerra civil” (2024), a série da Apple TV “Dope thief” e uma adaptação da peça “Um inimigo do povo”, de Henrik Ibsen, que ele apresentou recentemente em sua cidade natal, Salvador. O diretor Kleber Mendonça Filho, que concebeu “O agente secreto” já pensando em Moura, elogiou sua clareza progressista como artista.

“O carisma dele vem da constância”, disse Mendonça Filho.

‘Estou quase com 50, então fo****’

Moura atribui essa firmeza ao pai, já falecido, que era sargento da Aeronáutica. “Ele não era politicamente ativo, mas havia uma questão de valores, da maneira como você deve se comportar como pessoa”, disse. “Não quero me vender como uma bússola moral, mas eu me mantenho fiel a quem eu sou e às coisas que acredito serem certas.”

Em tom brincalhão, acrescentou: “Isso é meio arrogante de se dizer, mas vou dizer mesmo assim. Estou quase com 50 anos, então foda-se.”

Wagner Moura como Pablo Escobar em 'Narcos' — Foto: Divulgação / Netflix Wagner Moura como Pablo Escobar em ‘Narcos’ — Foto: Divulgação / Netflix

Pouco antes do Natal, encontrei Moura em Los Angeles, onde ele vive há vários anos com a parceira de longa data, a fotógrafa Sandra Delgado, e os três filhos do casal. Na conversa, ele se mostrou animado e opinativo, com um senso de humor atrevido; o rosto ainda juvenil contrastava com os cabelos grisalhos e uma voz tão grave e ressonante que parecia um efeito especial.

“Esse filme não precisa ser em Dolby Atmos”, brincou Mendonça Filho, “porque a voz do Wagner já tem isso.”

Ainda assim, “O agente secreto” usa esse trunfo com parcimônia, extraindo ainda mais força dos olhos atentos e empáticos de Moura. Ele interpreta Armando, um pai viúvo em fuga durante a ditadura militar brasileira. Perseguido por matadores de aluguel, Armando assume uma nova identidade e se abriga com outros refugiados políticos enquanto aguarda uma passagem segura para fora do país. Até lá, enfrenta a tarefa quase impossível de permanecer calmo e discreto em um lugar onde a violência pode explodir sem aviso.

Depois que o drama brasileiro “Ainda estou aqui” venceu no ano passado o Oscar de filme internacional, muitos no país de Moura esperam que “O agente secreto” se torne mais um triunfo na temporada de prêmios. Ainda assim, ele sabe que nem todo mundo no Brasil está torcendo por ele. Apenas alguns anos atrás, quando Jair Bolsonaro era presidente, Moura ajudou a virar uma parte significativa da população contra si ao criticar abertamente o governo de direita.

“Politicamente, eu nunca deixei de dizer o que achava certo, mesmo tendo que pagar as consequências disso”, disse Moura.

Nesse sentido, ele conseguiu se identificar com Armando, que não é um guerrilheiro, mas um ex-professor que se recusa a se curvar à corrupção sancionada pelo governo. Apenas por se manter fiel a seus valores, esse homem comum é rotulado como inimigo do Estado.

“E eu me senti assim no Brasil muitas vezes”, disse Moura.

Apesar dessas experiências, Moura fala de seu país com profundo afeto. O Brasil o tornou famoso duas vezes: primeiro por meio das novelas, depois como astro do imensamente bem-sucedido drama policial “Tropa de Elite”, cujas falas muitos brasileiros ainda sabem de cor.

Wagner Moura como Capitão Nascimento em 'Tropa de Elite' — Foto: Divulgação Wagner Moura como Capitão Nascimento em ‘Tropa de Elite’ — Foto: Divulgação

No dia em que encontrei Moura, ele se preparava para uma viagem de férias em família para Salvador, que descreveu como um dos lugares mais diversos do mundo. “O passaporte brasileiro é o mais desejado no mercado negro porque todo mundo pode ser brasileiro”, disse. “Você não olha para o passaporte e pensa: ‘Acho que não’. Todo mundo pode ser brasileiro — você, eu, todo mundo.”

Mas, por tudo o que ama no Brasil — como o calor humano das pessoas e ícones culturais como os cantores Caetano Veloso e Gilberto Gil —, Moura não hesita em confrontar seus problemas ou os políticos que se aproveitam deles.

“É lindo, mas o Brasil também é violento, é elitista, é misógino, é homofóbico”, disse. “E Bolsonaro é uma manifestação de tudo isso.”

À medida que artistas como Moura e Mendonça Filho passaram a se posicionar de forma mais vocal contra a guinada conservadora do Brasil, também enfrentaram retaliações da direita, tanto por parte do governo Bolsonaro quanto nas redes sociais. “Quando eles dizem que nós, artistas, somos essa elite intelectual contra o povo, as pessoas compram essa ideia”, disse Moura. “É como o velho manual do fascismo, em que se atacam a imprensa, os artistas, as universidades, coisas assim. E ele foi muito eficaz.”

Moura sentiu essa hostilidade de forma mais intensa depois de fazer sua estreia como diretor com “Marighella”, uma cinebiografia política também ambientada durante a ditadura militar brasileira. Embora o filme tenha estreado no Festival de Berlim no início de 2019, o governo Bolsonaro bloqueou efetivamente seu lançamento no Brasil até o fim de 2021. A essa altura, Moura já havia sido pintado sob uma luz tão controversa pela direita que alguns cinemas instalaram detectores de metal quando ele compareceu às sessões.

“O que a extrema direita teme não é o que a gente diz, é o que a gente faz”, observou Moura. “Se eu tivesse redes sociais, poderia ter passado todos os dias dizendo que ele era um fascista, mas isso não o incomodaria tanto quanto o filme que eu fiz”, completa.

As atitudes nacionais começaram a mudar depois que Bolsonaro perdeu a eleição presidencial quatro anos atrás e foi condenado por planejar um golpe para se manter no poder. Ainda assim, Mendonça Filho acredita que, mesmo hoje, se os brasileiros fossem entrevistados nas ruas, cerca de um quarto continuaria a vê-lo e a Moura de forma negativa.

“Um segmento da sociedade brasileira olha para nós como se fôssemos comunistas”, disse.

Essa sensação de perseguição política alimentou “O agente secreto”, ambientado no período final da violenta ditadura militar brasileira, que começou com o golpe de 1964 e durou 21 anos. “Este é um filme sobre um país que tem um problema com a memória”, disse Moura, apontando que, quando o regime militar terminou, uma lei de anistia livrou os perpetradores de punição.

“Bolsonaro nunca teria sido possível sem essa lei”, disse.

Mais recentemente, porém, Moura tem percebido sinais de reconciliação. Em novembro, quando “O agente secreto” foi lançado no Brasil, o filme foi recebido com grande alarde. “Vendemos um milhão de ingressos, é um grande sucesso”, disse Moura. “E eu adoro o fato de que esse filme esteja sendo lançado no Brasil num momento em que finalmente estamos, de certa forma, acertando as contas com a nossa memória.”

Moura observou que, assim como o presidente Donald Trump, Bolsonaro alegou que a eleição havia sido roubada e incentivou seus apoiadores a invadir a capital. A diferença crucial veio depois, quando o Supremo Tribunal respondeu condenando Bolsonaro à prisão domiciliar e impedindo-o de disputar cargos políticos até 2060.

“Foi fascinante como o Brasil foi super-rápido em mandar pessoas para a cadeia, encontrar os financiadores e retirar os direitos políticos de Bolsonaro”, disse Moura. “As instituições no Brasil são mais fortes do que as dos EUA? Acho que não. Mas, na minha opinião, isso aconteceu porque os brasileiros sabem o que é uma ditadura.”

Wagner Moura em cena de "O agente secreto" — Foto: Divulgação / Victor Jucá Wagner Moura em cena de “O agente secreto” — Foto: Divulgação / Victor Jucá

‘Eles passam, é só uma onda’

E, se houver pessoas que não se lembram das lições aprendidas após o regime militar brasileiro, Moura espera que filmes como “O agente secreto” e “Ainda estou aqui” sirvam como lembrete. É mais difícil enterrar a história quando cineastas estão determinados a trazê-la à vida de forma vívida, argumentou, acrescentando que a longevidade dos políticos de um país pode empalidecer diante da de seus artistas.

“Eles todos passam, é só uma onda”, disse. “Bolsonaro agora está preso, então, nos livros de história, ele vai ser esse fascista eleito pelos brasileiros que tentou um golpe de Estado. Já Caetano Veloso sempre será Caetano Veloso.”

Quando Moura começou a trabalhar em Hollywood, um agente lhe disse para ser menos seletivo, argumentando que todo trabalho serve para levar ao próximo. Mas, mesmo naquela época, Moura já tinha um saudável ceticismo em relação a jogar o jogo de Hollywood.

“Talvez seja algum tipo de anticolonialismo”, brincou. “Eu nunca fiz nada por dinheiro ou porque é uma grande coisa de Hollywood que todo mundo vai ver. E, especialmente depois de ‘Narcos’, eu não quero fazer nada que estereotipe os latinos.”

Talvez por sua disposição em dizer não, Moura nunca tenha se tornado a escolha número 1 de Hollywood entre os atores latinos. Mas ele também não estava exatamente buscando isso.

“Eu quero disputar os mesmos personagens que os atores brancos americanos da minha idade disputam”, disse. “Quero interpretar personagens chamados Michael que falem do jeito que eu falo.”

Primeiro filme em língua inglesa

E, se Hollywood não puder oferecer isso, ele fará acontecer por conta própria. Ainda este ano, Moura vai dirigir seu primeiro filme em língua inglesa, “Last night at the Lobster”, sobre o último turno de trabalho em um restaurante de rede prestes a fechar. “É um filme muito político”, disse Moura, observando que atuará ao lado de Brian Tyree Henry e Elisabeth Moss. “É um filme de Natal anticapitalista.”

Embora Moura tenha sido indicado ao Globo de Ouro por “Narcos”, desta vez a sensação é diferente, segundo ele. Talvez porque esteja ficando mais velho, e essas coisas passem a importar de outra maneira. Ou talvez porque “O agente secreto” seja um projeto tão pessoal, tão distintamente brasileiro, e toda essa atenção global pareça uma afirmação inesperada, mas encantadora.

"O agente secreto": Gabriel Leone, Wagner Moura, Emilie Lesclaux e Kleber Mendonca Filho no Festival de Cannes de 2025 — Foto: Valery HACHE / AFP “O agente secreto”: Gabriel Leone, Wagner Moura, Emilie Lesclaux e Kleber Mendonca Filho no Festival de Cannes de 2025 — Foto: Valery HACHE / AFP

Ainda assim, ele não quer se perder em uma temporada em que os egos costumam ficar inflados. Quando a campanha de prêmios começou neste outono, Moura estava envolvido com seu compromisso com a peça de Ibsen em Salvador, o que limitou sua disponibilidade para a imprensa. “Todo mundo dizia: ‘Você tem que largar a peça e ir fazer campanha. Você entende o quão importante esse momento é para você?’”, lembrou.

Como se pode imaginar, essa pressão só alimentou o senso desafiador de pirraça de Moura, e ele permaneceu com a peça. “Isso é algo de que me orgulho”, disse. “Eu não abro mão.”

Se “O agente secreto” realmente levar a novas oportunidades em Hollywood, ele espera que esses projetos o queiram por esse caráter firme, e não porque haja uma expectativa de que ele se assimile. Até agora, manter-se fiel a si mesmo parece tê-lo servido bem.

“Alguém me disse uma vez que sucesso é quando você faz o que sempre fez, mas as pessoas de repente começam a prestar atenção”, disse.

Papéis marcantes de Wagner Moura no cinema

Papéis marcantes de Wagner Moura no cinema