O volume de empréstimos das empresas sempre foi superior ao dos depósitos, mas em outubro houve inversão. Presidente do Banco de Fomento quer que a rentabilidade seja usada para investir.

O stock de depósitos das empresas superou o dos empréstimos, o que nunca tinha acontecido, pelo menos, desde o final de 1979, quando o Banco de Portugal começou a compilar estes dados. A ultrapassagem foi feita pela primeira vez em outubro e repetida em novembro.

Nesse último mês, foi batido um novo recorde no volume de depósitos acumulados pelas empresas (74,66 mil milhões de euros), o que contrasta com o crédito, em que o valor máximo foi atingido em novembro de 2010 (118,86 mil milhões), poucos meses antes da intervenção da Troika. Desde então, tem sido quase sempre a cair, acumulando uma queda superior a 30%, apesar da ligeira inversão de tendência na pandemia (2020 e 2021).

Comparando os números mais recentes com o final de 2019, antes de a covid ter espalhado o caos, o volume de empréstimos contratados pelas empresas até subiu 10,3%. Mas no lado dos depósitos o aumento é bastante superior — 65,6% nos mesmo período (de 45 para 74 mil milhões de euros). E recuando mais dois anos, já está em causa o dobro do valor (eram 37 mil milhões em dezembro de 2017).

Em declarações ao Jornal Económico, o presidente do Banco do Fomento, Gonçalo Regalado, nota que esta subida contínua “é fruto da rentabilidade das empresas”, mas também acontece porque “as empresas não investem, ou investem pouco”.

“Se continuam a ter muito bons resultados, como têm sido os últimos anos, e como espero que seja em 2026, as empresas usam a rentabilidade para depósitos ou dividendos. Como a maioria das empresas tem uma política de dividendos conservadora, fica com os depósitos”, constata.

Gonçalo Regalado “compreendia ter uma boa base de depósitos quando as taxas de remuneração estavam entre 3% e 4%”, mas, tendo em conta “a remuneração abaixo de 1% no depósito a prazo”, o responsável considera que “não é muito expectável que os depósitos continuem a crescer de forma contínua”. Significa que “os empresários não encontraram investimentos em que a sua rentabilidade seja superior a 1%, o que é pouco comum”, nota o responsável. “A rentabilidade das empresas, felizmente, está a ser crescente. Podem investir a sua rentabilidade”, sugere.

Por outro lado, em relação aos empréstimos, lembra que houve “uma desalavancagem muito rápida” após a chegada da Troika, com empresários e bancos comerciais a adotarem uma política de emagrecimento do crédito. “Hoje, mais de 60% das empresas em Portugal só têm depósitos”, sublinha.

Agora, Gonçalo Regalado antevê que “a base de depósitos possa ser mantida, ou até um pouco reduzida”, para “a casa dos 70 mil milhões de euros” e que o crédito recupere “de forma moderada e equilibrada”, atingindo os 80 mil milhões em 2 anos.