Como qualquer caçador de votos que se preze, João Cotrim Figueiredo — que entrou tarde na política — tornou-se muito rápido a ler as pessoas. Percebe logo o máximo que vai conseguir tirar do contacto com cada eleitor. “Eu não nego que estou em campanha eleitoral. Não nego que um candidato tem como principal objetivo prático conquistar votos. O que eu recuso é a teoria de que as prioridades que um candidato defende para a sua candidatura sejam especificamente dirigidas a uma faixa etária”, afirmou no fim de uma dessas visitas.

Os idosos são particularmente arriscados: percebem mal, alguns já estão quase surdos (teve de gritar “as melhoras” para uma senhora o compreender), têm dificuldades naturais a falar, não se entendendo bem o que muitos dizem. O raciocínio pode já não estar apurado e podem ter reações imprevisíveis. São um teste para qualquer candidato, que está a ser filmado e fotografado de todos os ângulos neste tipo de ação de campanha.  É para isso fundamental ter sorte com o anfitrião ou anfitriã, que recebe o candidato à porta e o guia pelos idosos, apontando o nome, alguma particularidade que ele possa usar na conversa ou mesmo o interesse específico que alguma utente tenha manifestado em o conhecer.

Durante a maior parte da sua vida, João Cotrim Figueiredo terá tido horror a profissionais da política e a políticos profissionais. Nesta campanha presidencial, está a tentar ser o candidato mais profissional de todos, aplicando técnicas do mundo empresarial: definição clara de objetivos, planeamento, monitorização permanente dos dados, reavaliação constante de estratégia, identificação de mercados potenciais para crescer, noções de vendas e inovações no marketing (como se nota nas redes sociais).

Em teoria, já não consegue crescer mais no eleitorado jovem, onde, segundo as sondagens, tem sido o candidato preferido. A maior fragilidade do candidato é mesmo junto do eleitorado mais sénior, onde está atrás dos rivais do top cinco. Resta-lhe, portanto, ir ter com os eleitores mais seniores onde eles estão para expandir o mercado eleitoral e conquistar esses novos clientes.

É assim que se explica que só nestes primeiros dias de campanha até esta quinta-feira tenha feito quatro visitas a lares ou associações de idosos (Loulé, Santarém, Maceira e Vagos), mais um encontro com a Liga dos Ex-Combatentes (também de idade avançada, naturalmente) e uma ida a Pedrógão Grande, numa zona interior com muitos idosos na população. Além da ida à Universidade Sénior de Matosinhos nesta sexta, visita mais um lar em Castelo Branco na segunda-feira.

São na maioria mulheres, como acontecerá na maior parte dos lares. E são elas que mais mostram interesse em falar com o candidato durante mais tempo. Os contactos com idosos do sexo masculino são residuais. Num encontro na Associação Extragenária, em Vagos, dos 17 idosos sentados à sua volta, apenas dois eram homens e não fizeram qualquer pergunta. As senhoras, sim. A primeira perguntou: “O que é que faz um Presidente da República?”. O candidato tentou explicar pedagogicamente, falando das reuniões das quintas-feiras com o primeiro-ministro, e da pressão para certos temas não saírem da agenda, como a saúde naquele dia marcado pelos atrasos do INEM. “O Presidente tem de ser um chato de morte!”, dramatizou, a certa altura.

A segunda idosa pôs uma questão mais embaraçosa. Disse que os médicos se recusavam a pedir certos exames, por serem muito caros para o Governo, e perguntou: “Os idosos são um peso?” Cotrim mostrou o desconforto com o episódio (“Isso não faz sentido nenhum”), frisou que ninguém deve sentir-se assim depois de uma vida de descontos e tranquilizou-a: “Ficou esclarecida, D. Fernanda? Não é um peso. Nenhum de vocês é”.