Durante décadas, consolidou-se no imaginário popular a ideia de que o rock brasileiro “dominou” o mercado fonográfico nos anos 1980. As bandas surgidas naquele período – hoje tratadas como clássicas – ganharam enorme visibilidade em rádios FM, programas de TV e capas de revista. Mas os números contam outra história. Em um vídeo publicado em seu canal no YouTube, o jornalista André Barcinski desmonta esse mito ao analisar friamente as paradas de discos da década.
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Ivan Dorofeed @ www.unsplash.com
Segundo Barcinski, o problema começa pela própria noção de “parada de sucesso” no Brasil. “Essa é uma tarefa ingrata, porque paradas de discos no Brasil sempre foram notoriamente pouco confiáveis”, afirma. Diferentemente da Billboard nos Estados Unidos, nunca houve por aqui um sistema padronizado, transparente e auditável de aferição de vendas. Ainda assim, existe uma fonte histórica recorrente: a pesquisa do Nopen (Nelson Oliveira Pesquisas de Mercado), ativa desde 1965 e praticamente a única que permite comparações ano a ano.
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Barcinski ressalta que o Nopen tinha inúmeras limitações. A pesquisa era feita apenas em lojas do Rio de Janeiro e de São Paulo, excluindo regiões inteiras do país. Além disso, não divulgava números absolutos de vendas, apenas rankings. “Era uma pesquisa sujeita a muitas imprecisões”, explica. Compactos simples, compactos duplos e LPs apareciam misturados na mesma lista, o que distorcia ainda mais a leitura, já que formatos mais baratos vendiam naturalmente mais.
A popularidade do rock nacional dos anos 1980 no Brasil
Mesmo com todas essas falhas, o jornalista defende que o Nopen serve como termômetro. “Por pior que fosse, era ruim para todos os gêneros”, diz. A partir desse critério, Barcinski analisou os Top 10 de vendas de cada ano entre 1980 e 1989 – um total de 100 posições possíveis.
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O resultado é direto e surpreendente: apenas 7 discos de rock nacional apareceram no Top 10 ao longo de toda a década. “Dos 100 discos mais vendidos do Brasil entre 1980 e 1989, o rock teve só 10 representantes. Sete deles brasileiros”, afirma. Para efeito de comparação, Roberto Carlos sozinho também teve 10 discos no Top 10 no mesmo período, o mesmo número que todo o rock somado.
Ano a ano, o quadro fica ainda mais claro. Em 1980, nenhum disco de rock apareceu entre os dez mais vendidos. Em 1981 e 1982, o único representante do gênero foi John Lennon, impulsionado por sua morte recente. Só a partir de 1983 surgem nomes ligados à música jovem brasileira, como Richie e, depois, Kid Abelha. O auge simbólico do rock nacional acontece em meados da década, mas mesmo assim de forma pontual: RPM, Ultraje a Rigor, Legião Urbana e Cazuza aparecem isoladamente, nunca de forma dominante.
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Barcinski chama atenção para um dado emblemático: o LP Rádio Pirata ao Vivo, do RPM, frequentemente citado como o maior vendedor dos anos 80, não aparece no Top 10 do Nopen. “Das duas, uma: ou a parada errou feio, ou os números de venda desse disco foram inflados”, afirma, lembrando que as próprias gravadoras divulgavam dados sem auditoria.
O jornalista faz questão de frisar que os números não diminuem a importância histórica do rock brasileiro. “Foi um fenômeno superimportante, mudou a música brasileira, rejuveneceu o mercado, criou ídolos e revelou bandas absurdamente talentosas”, diz. Mas ele faz a distinção essencial entre impacto cultural e volume de vendas. “Não foi um fenômeno de massa comparável à música romântica. O rock sempre foi um mercado de nicho no Brasil.”
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Na visão de Barcinski, o que aconteceu nos anos 80 foi um momento raro de visibilidade ampliada. O rock saiu do nicho, ocupou rádios FM, programas de TV e grandes festivais como o Rock in Rio, mas isso não se traduziu em domínio comercial. “Para quem vivia aquilo, parecia gigantesco. Era o que a gente ouvia e via. Mas quando você compara com as vendas de Roberto Carlos, MPB romântica ou samba, a diferença é enorme.”
A conclusão do jornalista é clara: o rock nacional dos anos 80 foi um fenômeno cultural decisivo, mas não um fenômeno de vendas. A ideia de que ele “dominou as paradas” é mais memória afetiva do que realidade estatística.
Segundo o levantamento apresentado por André Barcinski, estes foram os 7 discos de rock nacional que conseguiram aparecer no Top 10 das paradas brasileiras entre 1980 e 1989, com base nos dados do Nopen. Ao todo foram apenas 4 álbuns – e não compactos.
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Menina Veneno – Richie (1983, compacto)
Vôo de Coração – Richie (1984, LP)
Como Eu Quero – Kid Abelha & Os Abóboras Selvagens (1984, compacto)
Louras Geladas – RPM (1985, compacto)
Nós Vamos Invadir Sua Praia – Ultraje a Rigor (1986, LP)
Que País É Este 1978/1987 – Legião Urbana (1988, LP)
O Tempo Não Para – Cazuza (1989, LP)
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