James St. John / Wikimedia

Mina de ouro na Gronelândia

Os depósitos de elementos de terras raras da Gronelândia podem estar entre os maiores do mundo em volume. Mas não só: ouro, prata, metais radioativos, petróleo, e até diamantes, tornam a maior ilha do Mundo um território cheio de riquezas inexploradas — mas difíceis de extrair.

O interesse de Donald Trump na Gronelândia pode não ter apenas a ver com motivos geopolíticos ou rotas comerciais. Na verdade, a maior ilha da Terra tem algumas das mais ricas reservas de recursos naturais em todo o mundo.

Entre as suas riquezas,  incluem-se matérias-primas críticas como o lítio e elementos de terras raras (ETR) que são essenciais para as tecnologias verdes, além de outros minerais e metais valiosos, e um enorme volume de hidrocarbonetos, incluindo petróleo e gás.

Três dos depósitos da Gronelândia que contêm ETR, nas profundezas sob o gelo, podem estar entre os maiores do mundo em volume, encerrando um grande potencial para o fabrico de baterias e componentes elétricos essenciais à transição energética global, diz o geólogo Jonathan Paul, professor de Ciências da Terra na University of London, num artigo no The Conversation.

A dimensão do potencial de hidrocarbonetos e da riqueza mineral da Gronelândia tem estimulado uma investigação extensa por parte da Dinamarca e dos Estados Unidos sobre a viabilidade comercial e ambiental de novas atividades como a mineração.

O Serviço Geológico dos EUA estima que o nordeste da Gronelândia continental (incluindo áreas cobertas de gelo) contenha cerca de 31 mil milhões de barris de equivalente de petróleo em hidrocarbonetos — um volume que é semelhante ao total de reservas comprovadas de petróleo bruto dos EUA.

Mas a área livre de gelo da Gronelândia, que é quase o dobro do tamanho do Reino Unido, representa menos de um quinto da superfície total da ilha – levantando a possibilidade de que enormes reservas de recursos naturais inexplorados estejam presentes sob o gelo.

A concentração de riqueza em recursos naturais da Gronelândia está ligada à sua história geológica imensamente variada ao longo dos últimos 4 mil milhões de anos.

Algumas das rochas mais antigas da Terra podem ser encontradas aqui, bem como blocos de ferro nativo (não derivado de meteoritos) do tamanho de camiões.

Também depósitos de diamantes foram descobertos na década de 1970, mas ainda não foram exploradas, em grande parte devido aos desafios logísticos da sua mineração.

Do ponto de vista geológico, é muito invulgar (e entusiasmante para geólogos como Jonathan Paul) que uma dada região tenha passado pelas três formas fundamentais através das quais os recursos naturais, desde petróleo e gás até ETR e pedras preciosas, são gerados.

Estes processos relacionam-se com episódios de formação de montanhas, rifting (relaxamento e extensão crustal) e atividade vulcânica.

A Gronelândia foi moldada por muitos períodos prolongados de formação de montanhas. Estas forças compressivas fragmentaram a sua crosta, permitindo que ouro, pedras preciosas como rubis e grafite fossem depositados nas falhas e fraturas.

A grafite é crucial para a produção de baterias de lítio, mas, segundo o Serviço Geológico da Dinamarca e da Gronelândia, permanece “subexplorada”, em comparação com grandes produtores como a China e a Coreia do Sul.

Mas a maior proporção dos recursos naturais da Gronelândia tem origem nos seus períodos de rifting, incluindo, mais recentemente, a formação do Oceano Atlântico desde o início do Período Jurássico, há pouco mais de 200 milhões de anos.

As bacias sedimentares continentais da Gronelândia, como a Bacia de Jameson Land, parecem deter o maior potencial de reservas de petróleo e gás, análogas à plataforma continental rica em hidrocarbonetos da vizinha Noruega. Contudo, os custos proibitivamente elevados têm limitado a exploração comercial.

Existe também um corpo crescente de investigação que sugere que possa haver  sistemas petrolíferos potencialmente extensos circundando a totalidade da costa da Gronelândia.

Metais como chumbo, cobre, ferro e zinco estão também presentes nas bacias sedimentares continentais (maioritariamente livres de gelo) e têm sido trabalhados localmente, em pequena escala, desde 1780.

Elementos de terras raras difíceis de obter

Embora não tão intimamente relacionada com a atividade vulcânica como a vizinha Islândia, que, de forma única, se situa na intersecção de uma dorsal oceânica e uma pluma do manto,– muitas das matérias-primas críticas da Gronelândia devem a sua existência à sua história vulcânica.

Terras raras como nióbio, tântalo e itérbio foram descobertos em camadas de rocha ígnea – semelhantes à descoberta (e subsequente mineração) de reservas de prata e zinco no sudoeste de Inglaterra, que foram depositadas por águas hidrotermais quentes a circular na extremidade de grandes intrusões vulcânicas.

Estima-se também que a Gronelândia detenha reservas sub-glaciares de elementos como disprósio e neodímio  suficientes de para satisfazer mais de 1/4 da procura global futura prevista, num total de quase 40 milhões de toneladas.

Estes elementos são cada vez mais vistos como os ETR economicamente mais importantes, mas difíceis de obter, devido ao seu papel indispensável na energia eólica, motores elétricos para transportes rodoviários limpos e ímanes em ambientes de alta temperatura como reatores nucleares.

O desenvolvimento de depósitos como o de Kvanefjeld, no sul da Gronelândia, para não mencionar aqueles ainda não descobertos no núcleo rochoso central da ilha, poderia facilmente afetar o mercado global de ETR, devido à sua relativa escassez global.

Em breve, poderá ser necessário abordar um dilema infeliz. Deverá a riqueza de recursos cada vez mais disponível da Gronelândia ser extraída com entusiasmo, de modo a sustentar e melhorar a transição energética?

Mas fazê-lo irá aumentar os efeitos das alterações climáticas na Gronelândia e não só, incluindo a degradação de grande parte da sua paisagem pristina e contribuindo para a subida do nível do mar que poderia inundar os seus povoados costeiros.

Atualmente, todas as atividades de mineração e extração de recursos são fortemente reguladas pelo governo da Gronelândia através de quadros legais abrangentes que remontam à década de 1970.

Contudo, as pressões para flexibilizar estes controlos e para conceder novas licenças de exploração e aproveitamento poderão aumentar face ao forte interesse dos EUA no futuro da Gronelândia.


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