Em 2012, os Amigos de Sobreposta, de Braga, editavam a canção “Bota Fogo no Terreiro”. Na altura, passou “despercebida”. Em 2025, 12 anos depois, a música tornou-se num fenómeno em festas de jovens e já assumiu o estatuto de viral nas redes sociais. Como chegou até aqui? Rodas de concertina e muito TikTok.
Foi preciso mais de uma década para “Bota Fogo no Terreiro” deixar de ser “mais uma” do disco “A Cabra da Minha Vizinha” e “explodir”. Adão Marques, o autor da música e membro dos Amigos de Sobreposta, ainda hoje fica espantado como o tema “toca em todo o lado”: “Nunca pensei”.
“Como é possível isto chegar a este ponto?”
O primeiro grande choque com esta realidade aconteceu na Receção ao Caloiro de Bragança, no início de novembro de 2025, perante uma plateia de 4.000 jovens, quase não precisou de cantar o ‘hit’ do grupo.
“Foi assustador, as minhas pernas tremiam. Eu não estava habituado. Como é possível isto? Eu agradeço a Deus todos os dias por me ter dado agora a oportunidade. Como é possível isto chegar a este ponto?”, refere, em declarações a O MINHO.
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Para explicar o fenómeno de popularidade, Adão Marques aponta às rodas de concertinas, concentrações de tocadores que acontecem amiúde em Braga, Taipas, Guimarães e um pouco por todo o Minho. As pessoas “começaram a pegar no tema”, os jovens que estão a aprender a tocar concertina também acharam piada para fazer versões e começaram a surgir uns vídeos no TikTok, onde Adão Marques também é um criador ativo. Essa presença no digital ainda “incendiou” mais.
“No TikTok também fazia alguns pequenos concertos, showcases e numa semana aquilo chegava a atingir aos 50 a 60 mil. E depois vai-se espalhando”, explica o artista, que é irmão dos cantores Zé Amaro e Jorge Amado.
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E, acima de tudo, “as pessoas gostam”.”Estão a fugir mais para este tipo de música, popular, música de baile que alegra as pessoas”, considerou.
Hoje, são às centenas os vídeos com a música dos Amigos de Sobreposta no TikTok ou Instagram.
@otiagodavid 💃 “Bota Fogo no Terreiro”, dos Amigos da Sobreposta, é a canção do momento! #TikTokEntretenimento #tuga #musica
Escreveu “por instinto”
A letra surgiu da cabeça de Adão Marques “por instinto”. “Foi inspiração, saiu, como saíram as outras”, diz. Não foi longe buscar as ideias e escreveu sobre o que conhecia, com realidade, mas também uma boa dose de imaginação.
“Era numa época em que, na minha freguesia, as pessoas hoje estavam juntas e amanhã separadas. Eu dizia para a minha esposa, na brincadeira: Ontem ela era casada, hoje é divorciada e amanhã já anda com outro? E amanhã pode ser minha. E não é que eu comecei a escrever isto…”, explica.
Fala da “loirinha”, a sua esposa, que era a sua “vizinha do lado” e começaram a namorar ainda muito novos. Todas essas referências estão na letra.
“Foi uma inspiração aquilo que eu passei na minha vida e no dia-a-dia, em que se vê muitos divórcios”, refere. Mas desdramatiza: “A vida continua, ninguém é obrigado a estar preso a ninguém que não goste”.
Amigos de Sobreposta têm 40 anos de carreira
Uma música que passou despercebida, apesar dos elogios na altura. Mas nada que permitisse atingir este grau de sucesso. No YouTube, o tema original já tem mais de 800 mil visualizações e no TikTok, só a versão original já ultrapassa os 500 vídeos.
Uma realidade difícil de ser imaginada há 40 anos, quando José Rodrigues fundou os Amigos de Sobreposta. Era um conjunto “mais simples”, nada a ver com a banda “completa” e “com bailarinas” que têm atualmente, com um repertório “mais alegre”.
Após o sucesso, que foi “tipo Covid” no contágio, já têm mais de 30 concertos agendados para 2026. Passam por todo o país, com o Minho em destaque, mas também Trás-os-Montes – “são loucos” pelo grupo para lá do Marão. Vão ainda passar pelas comunidades portugueses na Suíça e Luxemburgo.
@iam_romeu e lá no fundo, nós só queremos é botar fogo no terreiro 🔥 #utad #vilareal #universidade #portugal #festa
“Agosto já está quase todo completo, julho também. De maio até setembro é sempre a bombar”, atira.