Um mapa português do início do século XVI coloca a Gronelândia sob bandeira portuguesa, numa época em que o território era ainda largamente desconhecido da Europa moderna. O Planisfério de Cantino, datado de 1502, inclui a inscrição “Terras del rey de Portugall” sobre a massa de terra hoje conhecida como Gronelândia, um detalhe que levanta questões históricas e geopolíticas revisitadas agora pela revista ‘Sábado’.
O documento surge no auge da expansão marítima portuguesa, durante o reinado de D. Manuel I, quando o Atlântico Norte era explorado na esperança de encontrar uma rota mais rápida para a Ásia. Segundo o historiador João Paulo Oliveira e Costa, o planisfério é uma Carta Padrão, um mapa oficial permanentemente atualizado na Casa da Índia à medida que regressavam novas expedições a Lisboa.
Corte-Reais e a ideia de uma “ponta da Ásia”
A presença portuguesa na cartografia da Gronelândia está associada às viagens dos irmãos Gaspar e Miguel Corte Real, que navegaram pelo Atlântico Norte. Não há provas de que tenham desembarcado na ilha, mas regressaram com relatos de terras avistadas. Uma legenda no mapa refere que a terra foi descoberta por mandado de D. Manuel I e que se acreditava tratar-se da extremidade da Ásia, uma interpretação que surpreende o historiador pela aparente incapacidade de relacionar essa massa continental com o conhecimento prévio da Gronelândia dos vikings.
A leitura do texto sugere que os navegadores avistaram serras densas, sem contacto direto com terra firme. A confusão geográfica reflete o contexto da época, marcada pelo desconhecimento da real dimensão do continente americano e pela persistência da ideia de uma ligação ocidental à Ásia.
Vikings, abandono e vazio de poder
Antes da passagem portuguesa, a Gronelândia tinha sido habitada por populações de origem americana desde há pelo menos três mil anos e povoada por vikings a partir do século XI. O contacto entre vikings e inuítes terá ocorrido no século XIII, mas, no século XV, as comunidades europeias acabaram por abandonar a ilha, devido às dificuldades de subsistência num território com áreas cultiváveis muito limitadas.
Os exploradores vikings partiram da Noruega, reino que, no final do século XIV, se uniu à Dinamarca e à Suécia sob a mesma coroa. Só no século XVIII a Dinamarca voltou a povoar de forma consistente o sul da Gronelândia. Quando os portugueses navegaram pela região, esse vazio demográfico e político ajudou a alimentar a ideia de oportunidade e influência.
Bacalhau, Terra Nova e bandeiras no mapa
Apesar da incerteza quanto à passagem efetiva pela Gronelândia, as crónicas indicam contactos claros com a Terra Nova, no atual Canadá. Foi nesse contexto que se iniciou a pesca do bacalhau, produto que se tornaria central na dieta portuguesa. O interesse estava sobretudo no mar, mais do que na ocupação territorial.
A bandeira portuguesa no mapa não corresponde a uma posse efetiva, mas a uma declaração simbólica. De acordo com João Paulo Oliveira e Costa, esta prática está ligada ao Tratado de Tordesilhas, que dividia áreas de influência e de negócio entre Portugal e Castela. A colocação de bandeiras em mapas servia para assinalar interesses estratégicos, mesmo sem ocupação no terreno, numa época em que ingleses e franceses navegavam pelo Atlântico à margem desse acordo.
Da cartografia do século XVI à disputa do século XXI
O historiador estabelece paralelos entre essa lógica de influência e o interesse contemporâneo dos Estados Unidos pela Gronelândia. A ilha mantém uma importância estratégica elevada, reforçada hoje pela riqueza em minerais e pela abertura de novas rotas marítimas resultantes do degelo. A mudança, explica, não está tanto na Gronelândia em si, mas na conjuntura geopolítica e geoclimática.
No século XVI, a bandeira portuguesa no Planisfério de Cantino traduzia uma intenção política e diplomática, mais do que uma realidade no terreno. Era um gesto simbólico num jogo de rivalidades entre potências ibéricas, semelhante, na sua lógica, às atuais disputas por zonas de influência.
Um mapa roubado que acabou num talho
O Planisfério de Cantino deve o nome a Alberto Cantino, um agente italiano que terá espionado a cartografia portuguesa em Lisboa. O mapa foi obtido de forma clandestina e enviado para Hercole de Este, duque de Ferrara. Apesar da política de sigilo de D. Manuel I, o documento acabou fora de Portugal, mas permaneceu praticamente desconhecido durante séculos.
No século XIX, o mapa foi encontrado a decorar um talho em Ferrara pelo diretor da Biblioteca Estense, que o adquiriu e o integrou na coleção. É nessa biblioteca que permanece atualmente, como um testemunho raro da ambição portuguesa e das incertezas do mundo conhecido no início da modernidade, segundo a SÁBADO.