A HISTÓRIA: Três histórias que se debruçam sobre as relações de filhos adultos uns com os outros e com o pai, mãe ou pais de certa forma distantes. Cada capítulo tem lugar no presente e num país diferente. “Pai” tem lugar no nordeste dos EUA, “Mãe” em Dublin, Irlanda, e “Irmã Irmão” em Paris, França.
“Pai Mãe Irmã Irmão”: nos cinemas desde 8 de janeiro de 2026 (visionado no BFI London Film Festival 2025 em outubro).
Por Manuel São Bento (aprovado no Rotten Tomatoes. Membro de associações como OFCS, IFSC, OFTA. Veja mais no portfolio).
Classificação (0 a 5): * 1/2
“Pai Mãe Irmã Irmão” ambiciona ser uma tríptica discreta sobre o isolamento moderno e os laços familiares, mas a sua estrutura rígida e a aversão ao conflito transformam-na num exercício de estilo que se esvazia de verdadeiro conteúdo. Propositadamente monótono, lento e repetitivo, Jim Jarmusch promete silêncio contemplativo que, infelizmente, torna-se numa experiência praticamente nula, provando que o minimalismo, quando destituído de uma espinha dorsal emocional ou temática, é apenas inércia. Uma desilusão.
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Pai Mãe Irmã Irmão
Créditos: NOS Audiovisuais
A crítica
O realizador Jim Jarmusch (“Paterson”) é um nome que, por si só, carrega um peso significativo no cinema “indie” norte-americano, sendo conhecido por um estilo minimalista e de humor “deadpan”. A expectativa geral para um novo projeto — ainda por cima um vencedor do Leão de Ouro em Veneza e com um elenco de luxo — é sempre altíssima, mas pessoalmente, não é propriamente um cineasta com quem tenha grande familiaridade. Contudo, em “Pai Mãe Irmã Irmão”, o que se esperava ser uma meditação observacional sobre a complexidade familiar, revelou-se, para mim, numa experiência profundamente frustrante e esquecível.
Com argumento e realização a cargo do próprio Jarmusch, a obra divide a sua narrativa em três atos distintos, cada um explorando diferentes dinâmicas de famílias nucleares em diferentes países. O primeiro segmento, “Pai”, reúne os irmãos Jeff (Adam Driver) e Emily (Mayim Bialik) numa visita incómoda ao seu pai recluso (Tom Waits) em New Jersey. O segundo, “Mãe”, leva-nos a Dublin, onde as irmãs Timothea (Cate Blanchett) e Lilith (Vicky Krieps) se encontram para o chá anual com a sua mãe, uma autora austera (Charlotte Rampling). O segmento final, “Irmão Irmã”, acompanha os irmãos gémeos Skye (Indya Moore) e Billy (Luka Sabbat) em Paris, confrontando o legado dos seus pais recém-falecidos.
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Pai Mãe Irmã Irmão
Créditos: NOS Audiovisuais
A premissa do cinema de Jarmusch muitas vezes reside no “nada”, na observação atenta de interações humanas mundanas. O problema de “Pai Mãe Irmã Irmão” não é ser um filme lento, mas sim repetitivo e sem conseguir extrair significado ou humor suficiente da sua intenção formal.
A estrutura de tríptico, que deveria servir para nos mostrar as variações universais do tema da distância emocional, falha miseravelmente. Em vez de nos apresentar três perspetivas complementares, oferece três histórias tão semelhantes que é difícil não questionar se tinha substância para uma longa-metragem. A fórmula é quase sempre a mesma: famílias há muito afastadas que se reencontram, resultando numa sucessão de silêncios constrangedores e diálogos forçados que nunca se desenvolvem para um confronto, resolução ou sequer um entendimento. A tensão é palpável em todos os segmentos, mas Jarmusch recusa-se persistentemente a dar-lhe qualquer tipo de vazão, culminando numa sensação de vazio que não é poética, mas sim exaustiva.
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Pai Mãe Irmã Irmão
Créditos: NOS Audiovisuais
Cada núcleo familiar contém um “segredo” ou uma tensão não resolvida, sejam problemas financeiros não transparentes ou mentiras sobre o estado profissional. Estas são molas dramáticas que se esperava fossem exploradas ou, pelo menos, sentidas, mas que são simplesmente ignoradas pelos intervenientes. “Não quero lidar/falar sobre isso agora” é a frase explícita, como tantas outras, que paira no ar de forma constante, transformando cada capítulo numa meia-hora de tédio ineficaz.
Jarmusch salpica as histórias com uma série de motivos recorrentes que, pretensamente, deveriam ligar as narrativas ou injetar alguma excentricidade necessária, mas que acabam por sublinhar a sua monotonia propositada. É o brinde com água, chá ou café; a piada típica britânica forçada do “bob’s your uncle”; a obsessão por skaters em câmara lenta. É possível fazer um esforço hercúleo para ver os skaters como um símbolo fugaz de liberdade ou de escape à prisão das relações familiares obrigatórias, mas é um esticão que “Pai Mãe Irmã Irmão” nunca se dá ao trabalho de merecer. São apenas repetições que irritam, tornando a mensagem — de que todas as famílias são estranhas, distantes e desonestamente superficiais — numa constatação enfadonha.
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Pai Mãe Irmã Irmão
Créditos: NOS Audiovisuais
O humor seco e inexpressivo que aprecio em qualquer género também não funciona. Salvo raras exceções, as piadas morrem no ar. A receção no BFI London Film Festival refletiu-o: foi a única sessão do dia que terminou sem um único aplauso e com a sala em silêncio sepulcral. No entanto, há que reconhecer que, mesmo no meio desta dormência, o talento de alguns atores consegue brilhar. A personagem de Krieps, que surge com cabelo cor-de-rosa, é a injeção de diversão e irreverência de que o filme desesperadamente precisava. O seu confronto silencioso, mas cómico, com a irmã mais sóbria de Blanchett, é um dos poucos momentos que me arrancaram um sorriso genuíno.
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Pai Mãe Irmã Irmão
Créditos: NOS Audiovisuais
O terceiro segmento, focado nos gémeos de Moore e Sabbat, é, de longe, o mais aceitável. Talvez por não terem pais presentes, o seu diálogo flui de forma mais natural e a sua ligação é real, fugindo à performance monocórdica e forçada que marca os dois primeiros segmentos. É nesta parte que a caracterização das personagens, feita através de detalhes subtis e implícitos sobre a vida dos pais falecidos, consegue ser um pouco mais do que superficial.
Mas estes são pontos de luz insuficientes para redimir “Pai Mãe Irmã Irmão”. A profundidade que Jarmusch procura nas interações básicas é, ironicamente, substituída por uma superficialidade que não é redentora nem intrigante. Não se sente um desenvolvimento, nem a urgência de uma mensagem como “digam o que têm a dizer antes que seja tarde demais”. Tudo termina como começou: com indiferença.