O governo norte-americano reduziu oficialmente o número de vacinas recomendadas na infância de 17 para 10. A medida remove a recomendação das vacinas contra o rotavírus, a gripe, a doença meningocócica e a hepatite A.
Segundo um comunicado do departamento de saúde e serviços humanos dos Estados Unidos, continuará a recomendar-se que “todas as crianças sejam imunizadas contra 10 doenças para as quais existe consenso internacional”, como, por exemplo, a varicela.
Para outras doenças, a vacinação só será recomendada “para grupos e populações de alto risco, ou por meio de decisões clínicas compartilhadas quando não for possível para as autoridades de saúde pública definir claramente quem beneficiará da imunização”, lê-se.
Vários especialistas mantêm as recomendações anteriores sobre as vacinas, afirmando que não há novos dados científicos que justifiquem uma mudança, e mostram preocupação em relação a estas alterações (ver aqui).
Donald Trump partilhou, nas redes sociais, as atualizações no calendário de vacinação e afirmou que “os Estados Unidos não exigirão mais 72 ‘injeções’” para crianças. O presidente norte-americano também compartilhou uma imagem em que se refere que os EUA exigiam 72 injeções, enquanto “um país europeu” administrava apenas 11. Mas será que estes dados estão corretos?
É verdade que nos EUA eram exigidas 72 vacinas quando na Europa eram recomendadas apenas 11?
A comparação feita por Trump é enganadora. Nas redes sociais, o presidente dos Estados Unidos refere que nos EUA eram exigidas 72 injeções, mas que “um país europeu” administrava apenas 11.
Contudo, há uma confusão entre o número de doenças para as quais se recomenda a vacinação e o número de doses recomendadas de cada vacina.
Nos países europeus, o número de vacinas (e não doses) recomendadas na infância varia entre 10 (Dinamarca) e 16 (Áustria e Grécia).
Nos Estados Unidos, antes da alteração no calendário de vacinação, eram recomendadas vacinas contra 17 doenças (ver aqui, aqui e aqui): sarampo, papeira, rubéola (MMR); poliomielite; tétano; difteria; tosse convulsa; hepatite A e B; varicela; doença pneumocócica; doença meningocócica; rotavírus; Haemophilus influenzae tipo b (Hib); HPV (vírus do papiloma humano); Covid-19; e gripe.
Tanto nos Estados Unidos como nos países europeus, algumas das vacinas que fazem parte dos planos dos respetivos países requerem mais do que uma dose.
Nos EUA, sublinha-se num texto da Escola de Saúde Pública de Yale, isso significa, por exemplo, “28 doses até os dois anos (incluindo vacinas anuais contra a gripe)”,
“35 doses até os cinco anos (incluindo vacinas anuais contra a gripe)” e “54 doses até os 18 anos (com um terço proveniente de vacinas anuais contra a gripe)”.
Quando Trump refere “72 injeções” está a extrapolar um resultado que, na maior parte dos casos, não corresponde à realidade.
Em primeiro lugar, o país nunca recomendou 72 vacinas diferentes na infância. E, mesmo falando em doses, o número não é verdadeiro.
Esse número de doses teria de “incluir todas as vacinas anuais contra a gripe e contra a Covid-19 até os 18 anos” e, possivelmente, teria de contar (de forma errada) “vacinas combinadas (como a MMR, que protege contra três doenças) como três doses separadas”, explica-se no mesmo texto.
Algumas contagens até incluem vacinas recomendadas apenas a grávidas, que não deviam entrar para a contagem de injeções “obrigatórias” para crianças.
O número exato de doses que uma criança recebe pode variar de acordo com o momento, os calendários de atualização, as condições de saúde e as formulações das vacinas disponíveis.
Mas, em última análise, o número de doses administradas nos EUA e nos países europeus eram semelhantes antes da redução estabelecida pelo governo norte-americano.
Importa ainda sublinhar que, “ao contrário do que afirma Trump, nunca foram ‘obrigatórias’ 72 injeções, pois as famílias podiam optar por não as dar”, adianta a Associated Press (AP).
“Os estados exigem que as crianças recebam certas vacinas antes de se matricularem na escola”, mas “as listas estaduais de vacinas escolares eram mais reduzidas do que o calendário de vacinação anterior dos EUA, e muitos estados oferecem diferentes tipos de isenções”, lê-se no texto da AP.