Pesquisa Datafolha sobre as metas dos brasileiros para 2026 aponta que um em cada quatro querem melhorar a alimentação, e a mesma proporção quer iniciar uma atividade física.

Já um levantamento do Instituto Locomotiva em parceria com a QuestionPro mostrou que, entre os brasileiros que fizeram resoluções neste ano novo, 63% se comprometeram a melhorar a saúde e mudar hábitos. Nove em cada 10 pretendem melhorar a alimentação e praticar mais exercícios, e oito em cada dez querem melhorar a aparência.

Se esse assunto, principalmente o emagrecimento, remete aos medicamentos agonistas de GLP-1, as famosas canetas emagrecedoras, faz sentido: afinal, eles vêm, sim, revolucionando os tratamentos contra a obesidade. Mas, em muitos casos, o caminho ainda pode ser mudar a alimentação e fazer atividade física sem remédio. O endocrinologista Ramon Marcelino citou algumas dessas situações:

“Sempre que possível, é mais interessante fazer o processo de emagrecimento sem uso da medicação, por vários motivos. Um deles, porque é mais barato: o custo das medicações, infelizmente, é um fator muito limitante. Tem os efeitos colaterais, como qualquer outra medicação. Elas não devem ser usadas em pessoas que têm transtornos alimentares descompensados, como, por exemplo, anorexia nervosa ou bulimia. Não devem ser usadas também em pacientes que têm câncer específico de tireoide, quadros de pancreatite de repetição e déficits nutricionais muito importantes”, explica.

Custo elevado limita o acesso no Brasil

A questão financeira, citada por ele, é uma barreira mesmo para quem poderia ter indicação médica. No Brasil, esses remédios não tem cobertura prevista por planos de saúde – salvo em alguns casos judiciais -, não são oferecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e o tratamento pode custar entre R$ 300 e R$ 3,5 mil reais mensais.

Para a professora Wanderleia Caetano, tanto o valor quanto a falta de conhecimento sobre o assunto foram os motivos para optar por um processo mais tradicional. “O que me motivou a procurar uma mudança foi que algumas atividades simples do dia a dia estavam sendo difíceis de serem realizadas, subir uma escada sem ficar ofegante, pegar algum peso. Eu entrei na academia e, além de ir entre quatro e cinco vezes na semana, tenho feito caminhadas regularmente e tento fazer uma reeducação alimentar. E já me sinto mais disposta, principalmente quando acordo, e sinto menos dores nos braços e nas costas”, relata.

2 de 3 Caminhada — Foto: Freepik

Caminhada — Foto: Freepik

No entanto, ela também enfrenta alguns desafios: “em alguns momentos, me sinto depressiva. Era acostumada a consumir bastante açúcar e a redução tem aumentado meu estresse, mas acredito que seja uma condição passageira. E tem a questão da integração de um hábito novo na sua rotina. É difícil, tem que adaptar muita coisa – os horários, às vezes uma mudança financeira em que você precisa abrir mão de outras coisas para investir na sua saúde”.

“Mas acredito que, por mais que seja difícil, mantendo a constância e trabalhando a mente é possível mudar os hábitos e, a longo prazo, colher os frutos. Não só por você, mas pela sua família e quem precisa de você”, conclui.

Como evitar desmotivação?

A nutricionista Fernanda Imamura aponta caminhos para evitar a desmotivação – incluindo evitar comparações com quem emagreceu mais rápido usando medicações. “É muito importante olhar para sua trajetória, refletir sobre como foram sendo construídos os seus hábitos e de como foram acontecendo as mudanças no seu corpo ao longo do tempo, usando você mesmo como referência”, diz.

“Você provavelmente não ganhou peso de um dia para o outro e a perda de peso também não será dessa forma. É importante ter paciência, entender que quanto mais as mudanças forem graduais, maiores as chances de manter a longo prazo. E pensar também em outros fatores além do peso, como melhora da disposição, do funcionamento do intestino, aumento da força”, aconselha.

Ela destacou a importância do acompanhamento profissional e afirmou que o processo, embora desafiador, não deve causar sofrimento. “É importante fazer mudanças graduais e que se encaixem na realidade de cada um. A alimentação saudável, ela precisa ser prazerosa e por isso o acompanhamento nutricional é necessário. Muita gente pensa que comer de forma saudável é comer, por exemplo, só salada com frango e não comer nenhum alimento que gosta. Longe disso. É possível se alimentar de forma nutritiva e sem restrições radicais. Mas, tudo depende da relação com a pessoa com a comida, e isso é discutido no acompanhamento. O acompanhamento multiprofissional é muito rico, oferece um cuidado integral para várias áreas da vida, e precisa ser individualizado. Por isso, também é ideal evitar ficar seguindo dicas da internet ou de terceiros”, ressalta.

A importância do exercício físico

Para a educadora física Cida Conti, o exercício é o protagonista de qualquer mudança de estilo de vida. E, nessa frente, ela considera vantajoso começar o processo sem usar medicação.

“Eu vejo claras vantagens, porque o corpo, sem dúvida alguma, responde melhor ao treino, à recuperação. Muitas pessoas que fazem uso têm aqueles efeitos colaterais, acabam não comendo bem e isso acaba até gerando uma falsa sensação de emagrecimento, porque a pessoa perde peso, mas isso inclui perda de massa muscular também, enquanto o importante é diminuir o percentual de gordura”, diz.

“Muitas vezes o uso dessas canetas interfere de uma forma muito negativa no rendimento diante da prática esportiva”, afirma.

3 de 3 Exercícios físicos fazem parte do processo de emagrecimento — Foto: Freepik

Exercícios físicos fazem parte do processo de emagrecimento — Foto: Freepik

As dificuldades para sair do sedentarismo podem ser muitas. Por isso, a profissional ressalta algumas orientações: “uma das principais mensagens é para que as pessoas encarem atividade física não como um castigo, mas como uma poupança, um autocuidado, cujos resultados a gente vai observando cada vez mais ao longo do tempo. Muitas pessoas veem o ambiente das academias muito estandardizado e é importante que se sintam acolhidas no ambiente de treinamento – o Brasil é o segundo país em número de academias, só perde para os EUA, então temos academias de todos os formatos e modalidades. É importante procurar no mercado um lugar que seja simpático aos olhos do consumidor. Começar devagar, porque as dores musculares do começo do treinamento podem deixar uma experiência negativa. E respeitar o ritmo pessoal, a evolução vem através da constância, não da pressa”.

“Ninguém gosta de treinar no começo. Poucas pessoas falam ‘nossa, estou adorando’. Começar requer um pouquinho de sacrifício, mas o hábito vem com o tempo”, conclui.

Menos 43 kg sem medicamentos

O empresário e estudante de medicina veterinária Ítalo Matheus, 31 anos, é um exemplo de sucesso nesse sentido: passou dos 121kg para 78kg.

“Eu sempre fui acima do peso, desde criança, e o processo começou por uma insatisfação com o corpo, não só esteticamente, mas funcionalmente. Eu não conseguia praticar esporte, jogar um futebol com os amigos. A gota d´água do problema, porque obesidade é um problema crônico, foi um sonho muito real em que eu morria. Isso me ‘traumatizou’, mas foi uma força para começar o processo”, relata.

Além de emagrecer, ganhou músculos e agora foca em se aperfeiçoar. Ele define o processo como natural: sem medicamentos nem hormônios anabolizantes. “Quem quer mudar de vida tem que acreditar em si e esse era o meu problema, focava nas pessoas e esquecia o principal, que era eu mesmo. Comida é conforto, chegar em casa e comer o que quiser vai ser muito mais prazeroso que comer uma salada ou uma refeição indicada pelo nutricionista. Então é um sacrifício grande, mas que vale muito a pena”, conta.

“O caminho mais difícil é um caminho que vale. Chega no fim e você vê que valeu a pena cada segundo, cada suor investido naquele processo. Hoje eu posso afirmar que eu venci a obesidade”, declara.

Quem decidiu mudar o estilo de vida dessa forma ganhou um novo argumento, inclusive. Um estudo divulgado nesta semana, de pesquisadores da Universidade de Oxford e publicado pelo BMJ, mostrou que pessoas que interrompem o uso de injeções para emagrecer acabam recuperando todo o peso perdido em menos de dois anos: mais rápido do que aquelas que optam por outras formas de perda de peso.