Pesquisadores dos Estados Unidos iniciaram um novo ensaio clínico que pode representar um avanço no tratamento da degeneração macular relacionada à idade (DMRI), principal causa de perda de visão e cegueira entre pessoas com 65 anos ou mais. A aposta é um implante microscópico com células-tronco, mais fino que um fio de cabelo, desenvolvido para substituir células danificadas da retina e, potencialmente, recuperar parte da visão perdida.
- Segundo um neurocientista, esta é a idade em que se alcança a felicidade plena
- Quando começa a velhice? Estudo indica marco biológico aos 78 anos
A pesquisa é conduzida por cientistas do USC Roski Eye Institute, ligado ao Keck Medicine of USC, e entra agora na fase 2b de testes clínicos. O foco está na forma seca avançada da degeneração macular, a mais comum e que atualmente dispõe de opções de tratamento bastante limitadas.
A doença afeta a visão central, dificultando tarefas como ler, reconhecer rostos e focar objetos à frente, além de provocar manchas escuras ou áreas borradas no campo visual à medida que progride.
O implante é composto por células-tronco embrionárias cultivadas em laboratório e transformadas em células do epitélio pigmentar da retina (RPE), fundamentais para a manutenção da visão. Essas células são fixadas a uma película ultrafina, que é inserida cirurgicamente na retina em um procedimento ambulatorial, com o objetivo de substituir as células que deixaram de funcionar.
“Esperamos determinar se o implante de retina baseado em células-tronco pode não apenas interromper a progressão da degeneração macular seca relacionada à idade, mas também melhorar a visão dos pacientes”, afirmou Sun Young Lee, MD, PhD, cirurgiã de retina do Keck Medicine e investigadora principal do estudo ao diário especializado Science Daily. “Os resultados podem ser revolucionários, porque, embora existam alguns tratamentos que retardam a progressão da degeneração macular, não há nenhum capaz de reverter os danos já causados”, completou.
O novo ensaio se baseia em resultados encorajadores de uma fase anterior, realizada com um pequeno grupo de pacientes. Nesse estudo inicial, o implante se mostrou seguro, permaneceu estável no olho e foi absorvido com sucesso pelo tecido da retina. Cerca de 27% dos participantes apresentaram algum nível de melhora na visão.
“A fase anterior do ensaio clínico demonstrou que o tratamento é seguro e tem potencial para beneficiar a visão dos pacientes; esta próxima etapa vai investigar se a terapia pode alcançar melhorias clinicamente significativas”, explicou Lee, que também é professora associada de oftalmologia e fisiologia e neurociência na Keck School of Medicine.
Estima-se que cerca de 20 milhões de americanos convivam com a degeneração macular relacionada à idade, incluindo a forma úmida da doença, menos frequente, porém geralmente mais grave. Na DMRI avançada, a perda das células RPE leva diretamente ao declínio visual.
“O estudo vai analisar se o implante desenvolvido em laboratório pode assumir a função das células danificadas, agir como células RPE normais e melhorar a visão de pacientes que hoje não têm outras opções de tratamento”, disse Rodrigo Antonio Brant Fernandes, MD, PhD, oftalmologista do Keck Medicine e cirurgião responsável pelo estudo.
O ensaio clínico será realizado em cinco centros nos Estados Unidos, incluindo o Keck Medicine. Ao todo, 24 pacientes entre 55 e 90 anos, com degeneração macular seca avançada associada à atrofia geográfica, participarão do estudo. Parte deles receberá o implante, enquanto outros passarão por um procedimento simulado. Todos serão acompanhados por pelo menos um ano, para avaliação de segurança e possíveis mudanças na visão.
Para os pesquisadores, o trabalho pode abrir caminho para uma nova era no tratamento de doenças degenerativas da retina.
“O USC Roski Eye Institute está comprometido em desenvolver tratamentos inovadores para melhorar vidas por meio da restauração da visão”, afirmou Mark S. Humayun, MD, PhD, codiretor do instituto. “Implantes de retina derivados de células-tronco podem oferecer uma das maiores possibilidades de ajudar pacientes com degeneração macular seca relacionada à idade e, um dia, talvez até uma cura”.