Cansaço extremo, náuseas e uma sensação de ansiedade inexplicável. Muitas mulheres sentem estes sintomas, mas seguem com a vida, sem imaginar que o coração está a pedir ajuda. O enfarte nas mulheres nem sempre começa com uma dor no peito, e essa diferença pode ser fatal.

Tunatura
Durante décadas, e ainda hoje, o enfarte agudo do miocárdio, foi (e é) associado à imagem de uma pessoa, de meia-idade, com uma dor intensa no peito, a ser levada para o hospital. No entanto, esta representação pode não corresponder totalmente à realidade, que é bem mais complexa, principalmente no caso das mulheres, em que os sinais podem não ser tão óbvios.
Embora o sintoma mais comum do enfarte, tanto em homens como em mulheres, continue a ser a dor no peito, “geralmente descrita como uma sensação de aperto”, como explica o cardiologista José Pedro Sousa, do grupo Luz Saúde, “no sexo feminino é mais provável que o enfarte se manifeste inicialmente através de sintomas que não incluem dor torácica, o que faz com que sejam classificados como atípicos”.
Sintomas de enfarte nas mulheres: porque são mais difíceis de reconhecer
Antes da dor no peito, nas mulheres, podem surgir sinais mais difusos e aparentemente menos alarmantes, o que torna mais difícil reconhecer aquilo a que chamamos, habitualmente, de ataque cardíaco. Essa dificuldade pode ser sentida, inclusivamente, pelos profissionais de saúde no momento do diagnóstico.
Há sintomas que podem ser confundidos com problemas digestivos, de stress ou crises de ansiedade, nomeadamente, cansaço extremo, falta de ar, náuseas, tonturas ou uma sensação de ansiedade difícil de explicar.
“Muitas vezes, esta sintomatologia é menos aparatosa e pode levar à sua negligência”, alerta o cardiologista, em entrevista à SIC Notícias. “Essa atitude pode ser fatal, porque estamos a falar de uma doença potencialmente crítica que exige uma abordagem médica imediata”, acrescenta.
Diferenças biológicas entre o enfarte masculino e feminino
As diferenças do enfarte no sexo feminino e no masculino não são apenas clínicas, são também biológicas. Nos homens, o enfarte resulta, na maioria dos casos, da rutura de uma placa de aterosclerose numa artéria coronária. Nas mulheres, o mecanismo pode ser outro.
“No sexo feminino, observam-se com mais frequência processos como a disseção da parede de uma artéria coronária ou a obstrução de vasos muito pequenos, a chamada microvasculatura”, explica José Pedro Sousa.
E, nestes casos, se a obstrução for funcional, a diminuição do fluxo sanguíneo não resulta necessariamente de um bloqueio físico visível nas artérias, ou seja, não é facilmente detetada nos exames tradicionais, o que torna o diagnóstico ainda mais desafiante.
Enfarte nas mulheres: quando é preciso estar mais atenta?
Há períodos, ao longo da vida de uma mulher, que o coração está particularmente vulnerável. Um dos mais relevantes é a fase pós-menopausa. “É nesse momento que o risco cardiovascular da mulher ultrapassa, pela primeira vez, o do homem”, sublinha o cardiologista. Isto acontece porque se dá a queda abrupta dos níveis de estrogénio, hormona com efeito cardioprotetor, que resguarda o coração e o sistema cardiovascular.
Kinga Krzeminska
Outro período crítico, embora mais circunscrito, é a gravidez e o pós-parto. As alterações hormonais e no sangue aumentam o risco de hipertensão arterial, pré-eclâmpsia e, em casos raros, mas graves, de disseção das artérias coronárias ou da aorta.
“São fases que exigem uma vigilância cardiovascular acrescida”, reforça José Pedro Sousa.
Sinais de alerta: quando ligar para o 112?
Dor no abdómen superior ou nas costas, desconforto no pescoço ou no maxilar, falta de ar súbita, suores frios, vómitos, tonturas ou mesmo perda momentânea de consciência fazem parte do quadro possível num enfarte agudo do miocárdio.
“É frequente estes sintomas serem interpretados como ansiedade ou mal-estar gastrointestinal, quando na realidade podem corresponder a um enfarte em evolução”, alerta o médico.
A sensação súbita de ansiedade ou inquietação é um sintoma muito referido pelas mulheres e não deve ser desvalorizado, sobretudo quando surge associado a outros sinais físicos.
“Não deve ser desvalorizado, sobretudo quando surge de forma súbita e associada a outros sinais físicos”, sublinha.
O atraso no diagnóstico de enfarte agudo do miocárdio pode ter consequências graves. Quanto mais tempo o músculo cardíaco fica sem oxigénio, maior é o dano e as probabilidades de complicações ou morte.
“Se um doente tiver sintomatologia consistente com enfarte agudo do miocárdio (designadamente dor torácica constritiva), deve ligar 112 o quanto antes, ou seja, o mais rapidamente possível. Deverá, depois, ser transportado, em segurança clínica (por exemplo, numa ambulância), para um hospital”, esclarece o cardiologista.
Num enfarte, cada minuto conta.
Em 2023, segundo dados do Instituto Nacional da Estatística (INE) registaram-se 3.664 mortes em Portugal por enfarte agudo do miocárdio, representando 3,1% da mortalidade total, menos 6,2% em relação ao ano anterior (3.908 óbitos). Os números mais recentes, divulgados em 2025, ditam que as mortes por enfarte agudo do miocárdio atingiram principalmente os homens, com uma relação de 156,4 óbitos de homens por 100 de mulheres, superior ao verificado ao ano anterior (155,8).
Do total de óbitos, 77,9% foram de pessoas com 65 e mais anos e 59,1% de pessoas com 75 e mais anos. Ou seja, 31,1% morreram com menos de 70 anos.