Imagina comprar uma obra de arte anônima em um leilão na internet e, ao observar com atenção, perceber que a figura de um senhor idoso, careca, com uma barba espessa, de ponta-cabeça, se transforma na de uma jovem simpática, com longos cabelos e uma coroa de tranças.

Mas esse não é o ponto mais impressionante da obra, que reúne uma engenhosa ilusão de ótica. Ela foi pintada por Peter Paul Rubens, mestre barroco flamengo, e adquirida há três anos pelo negociante de arte belga Klaas Muller. Ele não comprou apenas um, mas duas obras do artista em uma única pintura, pagando menos de 100.000 euros em um leilão online.

Do leilão à certeza de um mestre

De acordo com o jornal The Guardian, o leiloeiro, que Muller descreveu apenas como uma “casa de leilões pouco conhecida no norte da Europa” para não atrair concorrência, apresentou a obra como um estudo em papel sem data, atribuído a um artista anônimo da escola flamenga. Nos últimos anos, pinturas de Rubens têm sido vendidas por valores entre 500 mil e 1 milhão de libras esterlinas ou mais.

Eu não tinha certeza se era um Rubens, só sabia que era muito parecido com o estilo dele, então ainda era uma aposta”, disse Muller, que se descreve como um admirador apaixonado pelo artista e diplomata nascido em 1577. “Tenho uma biblioteca de livros sobre ele em casa e os consulto quase todas as noites”, disse ele ao Guardian. “É quase um vício.”

Muller se sentiu mais seguro quando a pintura chegou à sua casa. Estava muito suja, mas o verniz havia protegido a obra, e ele pôde perceber que se tratava de um trabalho de altíssima qualidade.

No entanto, foi apenas depois de vários meses de estudo, no ano passado, pelo historiador de arte Ben van Beneden, ex-diretor da Casa de Rubens, que Muller começou a ter certeza de que havia adquirido um verdadeiro mestre antigo.

O velho que se repete nas obras

O velho retratado na pintura também aparece em outras obras conhecidas de Rubens, mostrando como o artista reutilizava modelos em diferentes contextos.

Em “A Elevação da Cruz”, na Catedral de Antuérpia, ele é Santo Amandus; em “A Adoração dos Magos”, no Museu do Prado, em Madrid, representa o Rei Melquior, vestido de vermelho; e em “O Tributo”, no Museu da Legião de Honra, em São Francisco, surge como o fariseu que observa Jesus por trás.

Rubens, influenciado por pintores italianos, reunia diferentes tipos de rostos para usar em pinturas maiores, e Muller pode ter encontrado um protótipo perdido da cabeça do velho. Além disso, a figura feminina dentro da barba foi pintada primeiro, provavelmente reaproveitando um papel antigo.

Recentemente, outra obra do mestre flamengo, “Cristo na Cruz” (1614-1615), foi descoberta em Paris e vendida por 2,3 milhões de euros. Hoje, a pintura adquirida por Muller está em sua casa e será exibida na feira Brafa, em Bruxelas, em 25 de janeiro, com possibilidade de empréstimo a museus.