A escassez de quetiapina, usada em doenças mentais como esquizofrenia e depressão, levou o Infarmed a recomendar a médicos e farmácias a gestão das existências e a consideração de alternativas terapêuticas

O Infarmed alertou esta sexta-feira para uma situação de escassez generalizada que está a afetar os medicamentos que contêm o princípio ativo quetiapina, amplamente utilizados no tratamento de patologias psiquiátricas como a esquizofrenia, a depressão maior e os episódios bipolares. A autoridade do medicamento portuguesa recomenda expressamente que os clínicos ponderem outras opções de tratamento e que as farmácias limitem a dispensa a tratamentos mensais, evitando acumulações desnecessárias.

O problema, que se arrasta há algum tempo de forma mais ou menos visível, ganhou agora contornos oficiais. A origem do desabastecimento, segundo a circular informativa divulgada no site do Infarmed, está assente em constrangimentos de produção na principal unidade fabril que fornece o mercado. Essa fábrica, situada na Grécia, enfrenta dificuldades que se repercutiram em cadeia, criando um efeito dominó. A procura transferiu-se massivamente para os medicamentos similares de outros laboratórios, que, mesmo fazendo um esforço suplementar, não conseguiram responder ao aumento súbito da procura. E assim o défice instalou-se.

“Devido a esta situação, verificou-se um aumento na procura dos medicamentos similares dos restantes titulares que, apesar dos esforços para aumentar a produção, não conseguiram assegurar o abastecimento do mercado”, pode ler-se no documento. A situação é particularmente crítica para a forma farmacêutica de comprimido de libertação prolongada, em todas as suas dosagens, e é partilhada por toda a União Europeia, não sendo um problema exclusivo de Portugal.

As perspetivas, por ora, não são animadoras. Com base em informações da Agência Europeia do Medicamento, o Infarmed antevê que estes constrangimentos no fornecimento se vão manter, pelo menos, durante todo o primeiro semestre do ano de 2026. Enquanto isso, as autoridades nacionais e europeias tentam, em conjunto, encontrar soluções que possam atenuar o impacto clínico destas ruturas.

Na prática, o que isto significa é que médicos, doentes e farmácias vão ter de navegar num período de incerteza. Após consulta à Comissão Nacional de Farmácia e Terapêutica, o Infarmed emitiu um conjunto de orientações específicas para os diferentes intervenientes. Aos médicos, é sugerido que, para os doentes já estabilizados com quetiapina de libertação prolongada e para os quais não haja uma alternativa viável, a prescrição se mantenha, mas com extrema contenção.

Para outros casos, a transição para a forma de libertação imediata do mesmo princípio ativo pode ser uma possibilidade, ainda que o processo não seja simples nem linear. “Apesar de a transição entre diferentes antipsicóticos não ser fácil ou direta, dada a ausência de consenso na equivalência de doses, alguns doentes poderão transitar para quetiapina de libertação imediata”, refere o Infarmed, sublinhando que qualquer ajuste deve ser feito de forma individualizada. Medicamentos como a zotepina ou a olanzapina são apontados como outras opções a considerar na falta da quetiapina.

O alerta dirige-se também à cadeia de distribuição. Aos grossistas, é pedido que façam uma distribuição “equitativa e criteriosa” das embalagens que ainda têm em stock, de modo a evitar que algumas farmácias fiquem completamente desabastecidas enquanto outras acumulam. Como medida excecional, e para tentar travar a saída do produto do país, a exportação destes medicamentos foi temporariamente proibida.

Já as farmácias, no contacto final com o utente, têm um papel crucial na gestão da escassez. Devem dispensar apenas a quantidade necessária para um mês de tratamento, e preferencialmente após confirmar que se trata de um doente já em tratamento contínuo. O Infarmed é perentório ao pedir que se “abstenham de dispor de quantidades elevadas destes medicamentos em ‘stock’”, uma prática que, neste contexto, poderia agravar ainda mais a falta para outros doentes.

Para os doentes, a mensagem é clara: em caso de dificuldade em adquirir a medicação na farmácia habitual, o contacto com o médico prescritor deve ser o primeiro passo. Só o clínico, conhecedor do historial e da situação específica, poderá indicar a melhor alternativa terapêutica, evitando a interrupção brusca do tratamento, que pode ter consequências graves.

A circular informativa do Infarmed, que detalha estas recomendações, está disponível para consulta no seu portal oficial: https://www.infarmed.pt/.

NR/HN/Lusa

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