RecordPusher

Bo Ellegaard, proprietário da RecordPusher, com habitante da Gronelândia
Loja de discos tem obras da cantora dinamarquesa, mas recusa vender músicas quem beneficia “o outro lado do Atlântico”.
Quando se fala em boicotes, fala-se em economia, marcas de um determinado país. Ou sobre Jogos Olímpicos. Ou sobre… Eurovisão.
É difícil encontrar uma notícia sobre um boicote de uma loja de discos. Mas é o que temos aqui. Mais precisamente sobre uma a RecordPusher.
A RecordPusher é uma loja de discos na Dinamarca. Que, lá pelo meio, tem obras de Björk.
Tem, mas deixou de vender. Porque não quer promover alguém que está a beneficiar “o louco do outro lado do Atlântico”.
Contexto: Gronelândia, claro. Os proprietários da loja não gostaram do que a islandesa escreveu sobre a intenção de os EUA comprarem a ilha dinamarquesa: “Nada contribuem para a situação actual da Comunidade Dinamarquesa.”
“A publicação dela está factualmente incorrecta e ela cria a sua própria realidade, como Trump. Esta publicação divide amigos e só ajuda os malucos do outro lado do Atlântico… adeus, Björk“, anunciou a loja, no Facebook.
Entretanto, o proprietário Bo Ellegaard já admitiu que, devido a essa decisão, tem passado por “dias difíceis” – por causa da atenção dada pelos jornais locais, pela internet. Mas também agradeceu o apoio, o carinho…e a visita daquela mulher da Gronelândia (foto acima) que “fez questão de ir à loja para manifestar o seu respeito”.
“Um momento de serenidade e poder no meio da tempestade. Fiquei muito comovido. Obrigado a todos vós que escolhem o diálogo em vez das ameaças – e a humanidade em vez da polarização”, finaliza Bo.
Mas o que disse Björk?
Ou melhor, o que escreveu: habitantes da Gronelândia, lutem pela independência. Em resumo, foi isso.
E a cantora, que nasceu na Islândia, reforçou a sua ideia no X: “Os islandeses estão extremamente aliviados por se terem conseguido separar dos dinamarqueses em 1944”.
“Não perdemos a língua (os meus filhos estariam a falar dinamarquês agora). E eu transbordo de compaixão pelos habitantes da Gronelândia, vezes sem conta”.
Björk destaca o caso da contracepção forçada, onde 4.500 raparigas, algumas com apenas 12 anos, receberam um contraceptivo sem o seu conhecimento entre 1966 e 1970. Porque a Dinamarca estaria a tentar reduzir o número de habitantes da Gronelândia.
“E ainda hoje os dinamarqueses tratam os gronelandeses como se fossem cidadãos de segunda”, assegura a cantora.
Mas Björk não apoia a anexação da Gronelândia por parte dos EUA. Quer mesmo a independência da ilha: “O colonialismo causou-me repetidamente arrepios de horror. E a possibilidade de os meus conterrâneos da Gronelândia passarem de um colonizador cruel para outro – é demasiado brutal para sequer imaginar”.
Nuno Teixeira da Silva, ZAP //