É mais um capítulo na crescente tensão entre a Administração de Donald Trump e os seus parceiros europeus sobre a Gronelândia. O Presidente norte-americano disse, na sexta-feira, que os Estados Unidos “vão fazer algo [lá], quer eles gostem quer não”. “Não queremos ser americanos”, responderam os líderes de cinco partidos gronelandeses, incluindo o do primeiro-ministro, num comunicado conjunto.
Faz, neste sábado, uma semana que os Estados Unidos atacaram a Venezuela e raptaram o Presidente Nicolás Maduro. Desde então, praticamente todos os dias, a Administração de Donald Trump parece ter definido um novo alvo: a Gronelândia, que integra o reino da Dinamarca, país parceiro dos EUA na Nato.
No final de uma reunião, na sexta-feira, na Casa Branca, com responsáveis de empresas petrolíferas, dedicada ao futuro da Venezuela, Trump invocou a História — ainda que de forma imprecisa — para justificar uma eventual intervenção na maior ilha do mundo. “Sou um grande admirador [da Dinamarca]. Mas o facto de um navio seu ter ali desembarcado há 500 anos não significa que sejam donos daquela terra” (a colonização dinamarquesa, na verdade, remonta a há cerca de 300 anos).
E não se ficou por aqui: “Gostaria de chegar a um acordo, sabem, a bem”, comprando a ilha a Copenhaga. “Mas, se não o fizermos a bem, fá-lo-emos a mal”.
Desde que as ameaças de Donald Trump subiram de tom — a vontade em anexar a Gronelândia vem desde o seu primeiro mandato —, Copenhaga tem alertado para o risco que tudo isto representa para a NATO. “Se os Estados Unidos decidirem atacar militarmente outro país da NATO, tudo pararia — isto inclui a NATO e a estrutura de segurança estabelecida após a Segunda Guerra Mundial”, tinha avisado a primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen.
Trump apresenta um ponto de vista diferente, explicando que se, não fosse por ele, “já não haveria NATO”. “Não vamos permitir que a Rússia ou a China ocupem a Gronelândia — e é isso que vai acontecer se não o fizermos”, disse ainda, deixando um novo aviso: “Por isso, vamos fazer algo em relação à Gronelândia, seja a bem, seja da forma mais difícil.”
“Queremos ser gronelandeses”
Ainda na sexta-feira, os líderes de cinco partidos políticos da Gronelândia, incluindo o do primeiro-ministro do território, Jens-Frederik Nielsen, emitiram um comunicado conjunto: “Não queremos ser norte-americanos, não queremos ser dinamarqueses, queremos ser gronelandeses”, pode ler-se no documento a que o jornal Guardian teve acesso.
Numa sondagem feita há cerca de um ano, 85% da população daquele território disse rejeitar a ideia de integrar os EUA. “Nenhum outro país pode intrometer-se nisto. Temos de decidir nós próprios o futuro do nosso país — sem pressões para tomar uma decisão apressada, sem adiamentos e sem interferências de outros países”, pode ainda ler-se no documento.
Vários parceiros europeus da Dinamarca também se reuniram durante a semana e emitiram uma nota conjunta sobre o tema. “A segurança do Árctico mantém-se uma prioridade chave para a Europa e é crucial para a segurança internacional e transatlântica. A NATO deixou claro que a região é uma prioridade e os aliados europeus estão a agir. Nós e muitos outros aliados aumentámos a nossa presença, actividades e investimentos para manter o Árctico seguro e para dissuadir adversários. O reino da Dinamarca — incluindo a Gronelândia — é parte da NATO”, lê-se.
No mesmo sentido seguiu o presidente do Conselho Europeu, António Costa, durante a semana devido às crescentes ameaças vindas dos EUA. “A Gronelândia pertence ao seu povo. Nada pode ser decidido sobre a Dinamarca e sobre a Gronelândia sem a Dinamarca ou sem a Gronelândia. Têm o pleno apoio e a solidariedade da União Europeia”, disse o antigo primeiro-ministro de Portugal.
Uma reunião do parlamento da Gronelândia, o Inatsisartut, será antecipada para garantir que decorre um debate político justo e abrangente e que os direitos do povo são salvaguardados, disseram os líderes. O parlamento da Gronelândia reuniu-se pela última vez em Novembro e tem nova sessão marcada para 3 de Fevereiro, segundo o seu site.