O “Tasqueando Por Aí” desceu ao sul de Portugal para mostrar que vale sempre a pena visitar o Algarve. Apesar de muitas tascas fecharem no inverno, há quem mantenha as portas abertas neste “canto esquecido” do país quando não é verão. O resultado é um guia com três locais em Quarteira, um em Albufeira e outro em Portimão.
Tasca do Jorge (Quarteira)
A tasca mais única que eu já vi
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Tasca do Jorge
Daniel Pascoal

Tasca do Jorge
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Era o último dia do ano de 2025. Não esperava encontrar grande coisa aberta em Quarteira. Mas, num passeio despretensioso pela costa após o almoço, dei com a tasca mais única que já vi. Não há, na forma, comparação possível. Trata-se de uma pequena casa, quase uma cabana, isolada no centro de um largo. A esplanada estava vazia, mas a porta aberta. Lá dentro, apenas quatro lugares e uma parafernália de caixas, umas com bebidas, outras com… livros. Atrás do balcão, o João, com um copo de vinho tinto, sinal de uma tarde pouco movimentada.
“De ano para ano sentimos a falta de pessoas”, lamenta João, que herdou a tasca do pai Jorge. Quarteira é “um canto esquecido” do país, sobretudo quando não há verão que aqueça as multidões. Ainda assim, vai fidelizando alguma clientela. Nessa noite de 31 de dezembro, esperava um grupo de 16 irlandeses. E, como pude comprovar nos outros estabelecimentos que visitei, todos na restauração local conhecem o dono da Tasca do Jorge, que existe há mais de 50 anos.
Não vou mentir: não tenho muito a dizer sobre a comida. Fiquei-me pelos petiscos. Refeições completas aqui só com reserva, para que o João possa ir na véspera ao talho ou à lota. Uma espécie de menu personalizado, mais uma particularidade desta casa.
Embora exista quem venha de propósito, todos os anos, para comer as amêijoas, visitar a Tasca do Jorge tem pouco que ver com comida. É ambiente, é conversa, é comunhão. É terminar o dia a ver a minha amiga Ana ganhar um almanaque de 1978. O João vende livros, mas há coisas que não têm preço.
Morada: Largo das Cortes Reais 8
Preço médio: 10-15€
Tasca Alberto (Quarteira)
Onde até os cães são clientes habituais
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Tasca Alberto
Daniel Pascoal

Tasca Alberto
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Ano novo, tasca velha. “Como diz um cliente brasileiro, este é o boteco mais antigo de Quarteira”, conta o sr. Luís, dono da Tasca Alberto, fundada em 1957, com o nome do seu avô. O primeiro dia de 2026 levou-me a mais uma descoberta inesperada, numa viela localizada na mesma zona ribeirinha da cidade. Não há vestígio turístico nesta taberna, apenas residentes, portugueses e estrangeiros, que claramente não estão aqui pela primeira vez. Até há um cão, que se mantém sentado com uma disciplina notável, também ele presença habitual. “Vem aqui com o dono desde que era bebé”, explica o Luís. Há tascas personificadas nos seus donos, há outras indissociáveis dos seus clientes. Pareço estar diante das duas coisas.
Muitos trabalhadores, sobretudo pescadores, passam na Tasca Alberto antes de começar o dia de trabalho. Outros aparecem depois do expediente, para espairecer junto ao balcão ou nos cinco barris que fazem de mesas. E encontram, salvo raras exceções, a casa aberta. Na passagem de ano, Luís fechou as portas às 5h da manhã, foi tirar uma sesta em casa e às 8h já estava a abrir novamente. “Tudo com zero bebida”, garante, sem quaisquer sinais de fadiga.
Mas aqui também se come, embora a montra esteja absolutamente vazia na tarde do dia 1 de janeiro. Quase todos os produtos vêm do mar, conta Luís, que costuma servir lula, solha, peixe-espada, carapauzinho frito e patanisca de bacalhau. Paga-se pouco, seja para beber ou comer, mas é melhor levantar dinheiro antes.
Dois dias depois, regresso ao local, que tem tanto de tasca quanto de bar (depende das horas). Pelo menos 50% das pessoas são as mesmas. Desta vez, está o Manel atrás do balcão, já que o Luís só vem ao final da tarde. Junto ao balcão, impera uma discussão fascinante entre um português e um russo sobre as responsabilidades de Vladimir Putin na guerra na Ucrânia. Um brasileiro, que via na televisão o ataque dos EUA à Venezuela, levanta-se, pega numa cerveja, sorri e diz: “As guerras nunca vão acabar”. Não sei onde quero chegar com isto, mas sei que, de alguma maneira, isto define bem a Tasca Alberto.
Morada: R. Gago Coutinho 12
Preço médio: 5-10€
Meia Laranja (Quarteira)
A simpatia chama-se Eleutério
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Meia Laranja
Daniel Pascoal

Meia Laranja
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Tenho amigos que dizem que quanto melhor é uma tasca, pior é o atendimento, um preço que se aceita pagar pela boa comida. Sempre desconfiei da ideia, mas o Algarve veio derrubar por completo o conceito. No Meia Laranja, que fica na mesma rua da Tasca Alberto – e foi uma recomendação do próprio sr. Luís -, Eleutério mostra-se um exímio anfitrião. A simpatia nota-se de imediato pelo telefone, mas presencialmente é ainda melhor. Sempre com um sorriso no rosto, explica cada prato com o orgulho de quem nasceu e cresceu no Algarve.
“A recomendação é o nosso peixe. Estamos a poucos metros do mar. Sugiro o bife de atum, o robalo, a dourada ou a sardinha”, diz Eleutério. Depois de deliciosas cenouras à algarvia de entrada, seguimos os conselhos e pedimos todos os peixes para a mesa. Para mim, destaca-se o bife de atum. Chamo o dono para elogiar e recebo a primeira aula do dia: “No nosso mar passam 7 subespécies de atum. O rabilho é uma das melhores, há quem o confunda com um bife de vitela”. No fim, as sobremesas conseguem superar os pratos principais. Cinco estrelas para o bolo do Algarve, feito de amêndoa, figo e alfarroba, “os três frutos secos produzidos na região, sem nenhum açúcar adicionado”.
Nas mesas que compõem o espaço, onde cabem cerca de 40 pessoas, várias famílias fazem mais ou menos os mesmos pedidos. Felicito o Eleutério por continuar a ter a casa cheia no inverno. “Não tão cheia assim”, responde o dono do Meia Laranja, que sente, como todos, a sazonalidade da região. “O Algarve é mesmo assim, mas, felizmente, vamos aguentando.” A conversa sobre o Algarve dá lugar a uma discussão sobre o futuro da comida tradicional portuguesa. Para Eleutério, “os jovens ainda gostam da nossa comida”, mas apresentam-lhes outra coisa: “O que aparece quando alguém abre o Uber Eats?”
Morada: R Gago Coutinho 29
Número: 289 380 731
Preço médio: 15-20€
O Estádio (Albufeira)
Um olho no peixe, outro na bola
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Dourada do restaurante O Estádio, em Albufeira
Daniel Pascoal

Dourada do restaurante O Estádio, em Albufeira
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Cheguei tarde (e faminto) a Albufeira, no limite para encontrar restaurantes abertos. Saindo da estação rodoviária, dei prioridade ao local mais próximo da lista: o restaurante O Estádio, localizado debaixo da bancada central do Estádio Municipal de Albufeira. Fico à espera de mesa ao lado da cozinha e do balcão de vidro com os peixes, num corredor de passagem obrigatória para chegar à sala principal. Muitos clientes cumprimentam o sr. Paulo, o simpático homem da grelha, que eu, cheio de fome, não sei se amo ou odeio.
O apetite é tanto que demoro a perceber que estou numa espécie de museu do Imortal Desportivo Clube, emblema centenário fundado em 1920. Entre quadros, camisolas e reportagens de jornais, vejo dois adeptos, vestidos a rigor com a camisola do clube e cerveja na mão, em direção à saída. Atrevo-me a perguntar se há jogo e recebo duas surpresas: ambos são estrangeiros (ainda há quem diga que não se querem integrar) e, sim, há jogo, a começar em meia hora. Sei que, para muitos leitores, assistir a uma partida da 1.ª divisão distrital de futebol do Algarve não será o plano mais aliciante para uma tarde de sábado, mas garanto que é dos acasos mais bonitos que o destino já planeou por mim.
Entretanto, chega o peixe. Uma apetitosa dourada, a melhor que já comi na vida, acompanhada de batata cozida e gaspacho algarvio. Sinto que, apressado pela bola, nem desfruto da refeição com a calma que merecia. Ainda assim, peço sobremesa e café para ter mais tempo de conversa com a dona Ana, que gere este restaurante fundado há 18 anos, um menino perto do clube.
No Municipal de Albufeira, ao lado de várias pessoas que também estavam no restaurante, vejo o Imortal, líder da distrital do Algarve, perder com o segundo classificado, o Quarteirense, o que reanimou a luta no campeonato. Admito que, face aos primeiros dias do ano em Quarteira, torci por um empate. No pavilhão ao lado, o Imortal também foi derrotado na liga nacional de basquetebol. Não se pode ter sorte em tudo. MVP (melhor jogador) do dia: dourada do Paulo.
Morada: Estádio Municipal de Albufeira, R. do Estádio
Número: 962 450 876
Preço médio: 10-15€
Dona Barca (Portimão)
“Se não gostar, não pague e… dê porrada no empregado”
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Dona Barca
Daniel Pascoal

Dona Barca
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Nunca tinha visto tantas vezes a palavra “fechado”, assinalada no Google ou na porta do estabelecimento, como nesta viagem ao Algarve. Muitos planos tiveram de ficar no papel. Mas, em Portimão, encontrei uma espécie de oásis no Largo da Barca, onde, durante séculos, era feita a ligação de barco entre as margens do rio Arade. Um local fértil em restaurantes, a maioria bem recomendado. Decido entrar no Dona Barca por um critério indubitável: ter um amigo de Ponte da Barca.
Já passou das 14h e a casa está praticamente lotada – nem imagino a azáfama no verão – mas os funcionários lá arranjam um cantinho para mim. O Dona Barca autodenomina-se “o pior lugar de Portimão”. Duvido, mas quem escreveu o menu à entrada não tem certamente a melhor letra – o que não é mau, até faz parte do charme. A decoração é toda uma homenagem a Portimão e ao Algarve. “É a nossa cultura”, resume Jorge, o proprietário do restaurante, nascido na década de 1980. “Quase todas as pinturas são de artistas locais”, explica o dono, que, assim como o primo com quem abriu o negócio, descende de uma família compradora de peixe.
Aliás, o peixe aqui é tratado como deve ser, num grelhador coletivo que serve três restaurantes no Largo da Barca. É de lá que vem uma dourada para o Dave e para a Jennifer, um simpático casal de ingleses sentado ao meu lado. “Gostámos muito da vossa comida tradicional. Não moramos em Portugal, mas já viemos a este sítio várias vezes”, conta-me Dave, que, sem conseguir disfarçar o riso, diz que eu também devia provar a comida da terra dele. É neste momento que agradeço por viver em Portugal, esquecendo os baixos salários, a crise na habitação e todos os outros problemas. Há algo que orgulhe mais o português do que a sua gastronomia?
Caso o leitor visite o Dona Barca um dia, peço encarecidamente que pague e, de preferência, não dê porrada no empregado (ver segunda fotografia). É pouco provável que não goste, mas nunca se sabe.
Morada: Largo da Barca
Número: 282 484 189
Preço médio: 10-15€
O “Tasqueando Por Aí” nasce com o objetivo de conhecer Portugal através da cultura que vive em cada mesa. Não é apenas sobre avaliar um bitoque ou uma patanisca. O ambiente conta, porque uma tasca é feita de memórias, tradições e, sobretudo, de pessoas, as que servem e as que comem. Até à próxima viagem.