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O investidor de capital de risco John Doerr apoiou alguns dos empreendedores de maior sucesso do mundo, entre os quais Jeff Bezos e os dois fundadores do Google, Larry Page e Sergey Brin – que estão a cortar laços com a Califórnia
Sergey Brin e Larry Page, os co-fundadores do Google, estão a reduzir os seus laços ao estado norte-americano onde construíram as suas fortunas. Peter Thiel está a fazer o mesmo. Os bilionários de Silicon Valley preparam-se para fugir da Califórnia — e do seu novo imposto sobre as grandes fortunas.
Durante quase três décadas, a Google esteve profundamente enraizada na lenda de Silicon Valley.
Em 1998, Larry Page e Sergey Brin, dois estudantes de pós-graduação da Universidade de Stanford, criaram um motor de busca que viria a mudar o mundo, numa garagem de um amigo em Menlo Park, na Califórnia. Ali nasceu o Google.
Com o tempo, a empresa fundada na altura pelos dois visionários tornou-se num colosso de quase 4 biliões de dólares, ajudando a consolidar a região do norte da Califórnia como o epicentro mundial da indústria da internet.
Agora, Brin e Page estão a cortar alguns laços com o estado onde fizeram as suas fortunas.
Segundo documentos consultados pelo The New York Times, nos 10 dias antes do Natal, uma holding ligada a Sergey Brin, de 52 anos, encerrou ou transferiu para fora do estado 15 empresas da Califórnia que supervisionam alguns dos seus interesses comerciais e investimentos. Sete dessas sociedades transferidas para o Nevada, diz o jornal.
Brin está a juntar-se a Larry Page, também de 52 anos, na redução da sua presença na Califórnia. Mais de 45 sociedades de responsabilidade limitada da Califórnia associadas a Page apresentaram documentos no mês passado para se tornarem inativas ou para se transferirem para fora do estado.
Segundo uma escritura consultada pelo Times, um fundo fiduciário com ligações a Page adquiriu também esta semana uma mansão de 71,9 milhões de dólares no bairro de Coconut Grove, em Miami. Outra entidade gerida conjuntamente por Brin e Page transferiu-se da Califórnia para o Nevada na véspera de Natal.
A diminuição das ligações dos fundadores da Google à Califórnia parece ser fruto do potencial impacto de uma medida que foi proposta a referendo recentemente, que pode afetar os residentes mais ricos do estado.
Apresentada por um sindicato da área da saúde, a medida prevê que os californianos com património superior a mil milhões de dólares sejam obrigados a pagar um imposto único equivalente a 5% dos seus ativos.
Se a medida reunir assinaturas suficientes para chegar a referendo estadual em novembro e for aprovada, aplicar-se-á retroativamente a qualquer pessoa que tenha vivido no estado a 1 de janeiro. Os abrangidos teriam cinco anos para pagar a nova taxa.
O potencial imposto sobre o património já levou alguns bilionários da Califórnia a estabelecerem mais ligações fora do estado. No mês passado, o capitalista de risco Peter Thiel, que pode ter que pagar mais de 2 mil milhões de dólares se o novo imposto for aprovado, anunciou que abriu um escritório para a sua empresa de investimento familiar em Miami.
Também David Sacks, investidor tecnológico e conselheiro da Casa Branca para inteligência artificial e criptomoedas, inaugurou um novo escritório para a sua empresa de capital de risco, Craft Ventures, em Austin, no Texas.
Mas as movimentações de Brin e Page destacam-se devido ao elevado valor do seu património combinado, que totaliza mais de 518 mil milhões de dólares, segundo estimativas da Forbes, mas também devido à forma como estão intimamente identificados com a Califórnia.
Embora ambos se tenham afastado da gestão quotidiana da Google e da sua empresa-mãe, Alphabet, em 2019, continuam no conselho de administração da empresa. Brin e Page mantêm ainda ligações à Califórnia, incluindo propriedades por todo o estado, mas não é claro quanto tempo irão passar no estado este ano.
O Wall Street Journal noticiou anteriormente a compra da casa de Page em Miami e o Business Insider divulgou alguns pormenores sobre a transferência das empresas de Page e Brin.
A iniciativa de referendo, que foi proposta pelo Service Employees International Union-United Healthcare Workers West para compensar cortes orçamentais federais que afetarão o sistema de saúde da Califórnia, suscitou um amplo espetro de reações.
O governador Gavin Newsom classificou a medida como uma má política, argumentando que levará os bilionários simplesmente a mudarem-se para estados com impostos mais favoráveis.
O deputado democrata Ro Khanna, cujo círculo eleitoral inclui parte do Silicon Valley, defendeu a iniciativa, atraindo críticas de investidores e empresários da área das tecnologias — que já estão a discutir o financiamento de um adversário para o seu lugar.
Há quem defenda que o imposto pode afastar empresários e investidores da Califórnia, e sufocar a inovação no estado. Reid Hoffman, o bilionário cofundador do LinkedIn e residente no Silicon Valley, diz que a medida é “uma ideia horrenda” que poderia forçar fundadores e executivos a vender ações das empresas que dirigem simplesmente para cumprir a obrigação fiscal.
“Impostos mal concebidos incentivam a evasão, a fuga de capitais e distorções que, em última análise, arrecadam menos receitas”, escreveu Hoffman nas redes sociais na quarta-feira.
Jensen Huang, presidente executivo da Nvidia e um dos homens mais ricos da Califórnia, é um dos poucos bilionários que disse publicamente aceitar o imposto sobre o património. “Escolhemos viver no Silicon Valley e quaisquer que sejam os impostos que queiram aplicar, que assim seja“, disse numa entrevista à Bloomberg.
Suzanne Jimenez, chefe de gabinete do Service Employees International Union-United Healthcare Workers West, considera que a ideia de que venha a haver um êxodo de bilionários da Califórnia é um exagero.
“A esmagadora maioria dos bilionários optou por permanecer na Califórnia depois do prazo de 1 de janeiro”, afirmou Jimenez. “Apenas uma percentagem muito pequena partiu antes do prazo, apesar de semanas de argumentos alarmistas a afirmar que um imposto modesto desencadearia uma partida em massa”.
Se o imposto for aprovado, logo se verá se os bilionários que terão que o pagar o consideram modesto — e quantos, chegada a altura de se separarem de 5% dos seus ativos, continuarão a optar por permanecer na Califórnia. Mas, naturalmente, sendo o imposto retroativo, já o dinheiro estará a caminho dos cofres do estado.