O novo drama brasileiro “O Agente Secreto” se passa em 1977, um período que os créditos iniciais descrevem, na tradução em inglês, como uma época de “great mischief”. Essa expressão é uma tradução livre de pirraça, palavra que o astro do filme, Wagner Moura, tentou definir para mim recentemente.
“É como quando uma criança faz algo que sabe que os pais não aprovam, mas faz mesmo assim”, disse ele. Ao descrever esse comportamento, Moura sorriu. “Eu tenho isso.”
Para Moura, essa veia travessa surgiu sempre que ele percebeu expectativas sobre como um ator latino deveria se comportar em Hollywood. Depois de seu papel de destaque como Pablo Escobar, há dez anos, na série “Narcos”, da Netflix, Moura frustrou seus agentes ao recusar muitos dos projetos lucrativos e de grande repercussão que lhe foram oferecidos.
“Eles diziam ‘ah, você é um ator brasileiro, deveria estar muito feliz com essa oferta’”, lembrou ele. “E uma parte de mim sentiu uma espécie de prazer em dizer ‘não vou fazer isso’.”
Ironicamente, ao se manter fiel às suas convicções e escolher projetos peculiares como “O Agente Secreto”, Moura agora parece estar prestes a viver o maior momento global de sua carreira. O vibrante thriller político já lhe rendeu uma indicação ao Globo de Ouro e prêmios de melhor ator no Festival de Cannes e da Associação de Críticos de Nova York.
Embora enfrente uma concorrência acirrada com nomes como Leonardo DiCaprio, Timothée Chalamet e Michael B. Jordan na categoria de melhor ator, muitos especialistas acreditam que Moura conquistará sua primeira indicação ao Oscar por este filme.
Construir uma carreira de ator consistente em dois continentes não é tarefa fácil, mas Moura, de 49 anos, conseguiu, trazendo sensibilidade e inteligência a obras com temática política, como “Guerra Civil”, de 2024, a série “Ladrões de Drogas”, da Apple TV, e uma adaptação da peça “Um Inimigo do Povo”, de Henrik Ibsen, que ele apresentou recentemente em sua cidade natal, Salvador.
O diretor Kleber Mendonça Filho, que concebeu “O Agente Secreto” pensando em Moura, elogiou sua clareza progressista como artista. “Seu carisma vem da sua constância”, disse Mendonça Filho.
Moura atribui essa firmeza ao seu pai, já morto, um sargento da Aeronáutica. “Ele não era politicamente ativo, mas havia uma questão de valores, de como você deve se comportar como pessoa”, afirmou. “Não quero me vender como uma bússola moral, mas me mantenho fiel a quem sou e às coisas em que acredito ser certo.”
Brincando, ele acrescentou: “É meio arrogante dizer isso, mas vou dizer mesmo assim. Estou quase fazendo 50 anos, então que se dane”.
Pouco antes do Natal, encontrei Moura em Los Angeles, onde ele mora há vários anos com sua companheira de longa data, a fotógrafa Sandra Delgado, e seus três filhos. Em conversa, ele se mostrou animado e opinativo, com um senso de humor irreverente, seu rosto jovial contrastando com os cabelos grisalhos e uma voz tão profunda e ressonante que parecia um efeito especial.
“Este filme não precisa de Dolby Atmos”, brincou Mendonça Filho, “porque a voz de Wagner já tem”.
Mesmo assim, “O Agente Secreto” usa esse recurso com parcimônia, extraindo ainda mais força do olhar atento e compassivo de Moura. Ele interpreta Armando, um pai viúvo em fuga durante a ditadura militar brasileira. Perseguido por assassinos de aluguel, Armando assume uma nova identidade e se abriga com outros refugiados políticos enquanto aguarda uma passagem segura para fora do país.
Até lá, ele enfrenta a tarefa quase impossível de manter a calma e passar despercebido em um lugar onde a violência pode eclodir sem aviso prévio.
Após o drama brasileiro “Ainda Estou Aqui” ter ganhado o Oscar de melhor filme internacional no ano passado, muitos no país natal de Moura esperam que “O Agente Secreto” se torne outro sucesso na temporada de premiações. Ainda assim, ele sabe que nem todos no Brasil o apoiam.
Há poucos anos, quando Jair Bolsonaro era presidente, ele ajudou a virar grande parte da população contra Moura pelo fato de o ator criticar abertamente o governo de direita. “Politicamente, nunca me esquivei de dizer o que achava certo, mesmo que tivesse que arcar com as consequências”, disse Moura.
Dessa forma, ele pôde se identificar com Armando, que não é um guerrilheiro, mas um ex-professor que não se curva à corrupção sancionada pelo governo. Simplesmente por se manter firme aos seus valores, este homem comum é tachado de inimigo do Estado. “E eu me senti assim muitas vezes no Brasil.”
Apesar dessas experiências, Moura fala de seu país natal com profundo carinho. O Brasil o tornou famoso duas vezes —primeiro por meio de telenovelas e depois como protagonista de um drama policial de enorme sucesso, “Tropa de Elite”, cujas falas muitos brasileiros ainda sabem de cor.
No dia em que conheci Moura, ele se preparava para um feriado em família em Salvador, cidade que descreveu como um dos lugares mais diversos do planeta. “O passaporte brasileiro é o mais procurado no mercado negro porque qualquer um pode ser brasileiro”, disse. “Você não olha para o passaporte e pensa ‘acho que não’. Qualquer um pode ser brasileiro —você, eu, todo mundo.”
Mas, apesar de tudo o que ama no Brasil, como o calor de seu povo e ícones culturais como os cantores Caetano Veloso e Gilberto Gil, Moura não hesitará em confrontar seus problemas ou os políticos que os exploram.
Maratonar
“É lindo, mas o Brasil também é violento, elitista, misógino e homofóbico”, disse ele. “E Bolsonaro é a personificação de tudo isso.”
À medida que artistas como Moura e Mendonça Filho se tornavam mais falantes sobre a guinada conservadora do Brasil, também enfrentavam reações negativas da direita, vindas do governo Bolsonaro e nas redes sociais.
“Quando dizem que nós, artistas, somos essa elite intelectual contra o povo, as pessoas acreditam”, disse Moura. “É como o velho manual do fascismo, em que atacam a imprensa, artistas, universidades, coisas assim. E ele foi muito eficaz.”
Moura sentiu essa hostilidade com mais intensidade após sua estreia na direção com “Marighella”, uma cinebiografia política também ambientada durante a ditadura militar brasileira. Embora o filme tenha estreado no Festival de Berlim no início de 2019, o governo Bolsonaro efetivamente bloqueou seu lançamento no Brasil até o final de 2021.
Nessa época, Moura já havia sido retratado de forma tão controversa pela direita que alguns cinemas instalaram detectores de metal quando ele comparecia às sessões. “O que a extrema direita teme não é o que dizemos, mas o que fazemos”, observou Moura. “Se eu tivesse redes sociais, poderia ter passado todos os dias dizendo que ele [Bolsonaro] era fascista, mas isso não o incomodaria tanto quanto o filme que fiz.”
As atitudes nacionais começaram a mudar depois que Bolsonaro perdeu a eleição presidencial há quatro anos e foi condenado por planejar um golpe para se manter no poder. Ainda assim, Mendonça Filho acredita que, mesmo hoje, se os brasileiros fossem entrevistados nas ruas, cerca de um quarto continuaria a vê-lo, assim como Moura, de forma negativa.
“Um segmento da sociedade brasileira nos olha como se fôssemos comunistas”, disse Mendonça Filho.
Esse sentimento de perseguição política permeou “O Agente Secreto”, ambientado no final da violenta ditadura militar brasileira, que começou com um golpe de Estado em 1964 e durou 21 anos. “Este é um filme sobre um país que tem um problema com a memória”, disse Moura, ressaltando que, quando o regime militar terminou, uma lei de anistia livrou os perpetradores da punição.
“Bolsonaro jamais teria existido sem essa lei”, afirmou.
Mais recentemente, porém, Moura percebeu sinais de reconciliação. Em novembro, quando “O Agente Secreto” estreou no Brasil, foi recebido com grande entusiasmo. “Vendemos 1 milhão de ingressos, foi um grande sucesso”, disse Moura. “E eu adoro o fato de que este filme está sendo lançado no Brasil em um momento em que finalmente estamos, de certa forma, acertando as contas com a nossa memória.”
Moura destacou que, assim como o presidente Donald Trump, Bolsonaro alegou que a eleição foi roubada e incentivou seus apoiadores a invadirem a capital. A diferença crucial veio depois, quando o Supremo Tribunal Federal respondeu condenando Bolsonaro à prisão domiciliar e o impedindo de exercer cargos políticos até 2060.
“Foi fascinante como o Brasil foi extremamente rápido em mandar pessoas para a cadeia, encontrar os financiadores e caçar os direitos políticos de Bolsonaro”, disse Moura. “As instituições no Brasil são mais fortes que as dos Estados Unidos? Acho que não. Mas, na minha opinião, isso aconteceu porque os brasileiros sabem o que é uma ditadura.”
E se há pessoas que não se lembram das lições aprendidas após o regime militar brasileiro, Moura espera que filmes como “O Agente Secreto” e “Ainda Estou Aqui” sirvam como um lembrete. É mais difícil enterrar a história quando os cineastas estão determinados a trazê-la à vida de forma vívida, argumentou ele, acrescentando que a vida útil dos políticos de um país pode ser insignificante em comparação com a de seus artistas.
“Todos eles desaparecem, é como uma onda”, disse ele. “Bolsonaro está preso agora, então nos livros de história, ele será esse fascista eleito pelos brasileiros que tentou um golpe de Estado. Já Caetano Veloso será sempre Caetano Veloso.”
Quando Moura começou a trabalhar em Hollywood, um agente o aconselhou a ser menos seletivo, argumentando que todo trabalho serve de porta de entrada para o próximo. Mas mesmo assim, Moura tinha um saudável ceticismo em relação ao jogo de Hollywood.
“Talvez seja uma espécie de anticolonialismo”, brincou. “Nunca fiz nada por dinheiro ou porque é um grande sucesso em Hollywood que todo mundo vai ver. E especialmente depois de ‘Narcos’, não quero fazer nada que estereotipe os latinos.”
Talvez por sua disposição em dizer não, Moura nunca se tornou a primeira escolha latina de Hollywood. Mas ele também não estava exatamente buscando isso.
“Quero interpretar os mesmos personagens que os atores brancos americanos da minha idade estão buscando”, disse ele. “Quero interpretar personagens chamados Michael que falem como eu falo.”
E se Hollywood não puder proporcionar isso, ele mesmo fará acontecer. Ainda este ano, Moura dirigirá seu primeiro filme em inglês, “Last Night at the Lobster”, sobre o último turno em uma rede de restaurantes prestes a fechar.
“É um filme muito político”, disse Moura, observando que atuará ao lado de Brian Tyree Henry e Elisabeth Moss. “É um filme natalino anticapitalista.”
Embora Moura tenha sido indicado ao Globo de Ouro por “Narcos”, desta vez a sensação é diferente, disse ele. Talvez seja porque está ficando mais velho e essas coisas passam a ter um novo significado. Ou talvez seja porque “O Agente Secreto” é um projeto tão pessoal e distintamente brasileiro, e toda essa atenção global soa como uma afirmação inesperada, mas adorável.
Ainda assim, ele não quer se perder em uma temporada em que os egos costumam se tornar gigantescos. Quando a campanha para o prêmio começou neste outono, Moura estava envolvido com seu compromisso com a peça de Ibsen em Salvador, o que limitava sua disponibilidade para a imprensa.
“Todo mundo dizia ‘você tem que se livrar da peça e ir para a campanha. Você entende a importância deste momento para você?’”
Como você pode imaginar, essa pressão só alimentou o espírito aventureiro de Moura, e ele permaneceu em cartaz com a peça. “É algo de que me orgulho”, afirmou. “Não faço concessões.”
Se “O Agente Secreto” lhe abrir novas oportunidades em Hollywood, ele espera que esses projetos o queiram por causa de sua personalidade firme, e não porque haja uma expectativa de que ele se adapte. Até agora, manter-se fiel a si mesmo parece ter lhe servido bem.
“Alguém me disse uma vez que sucesso é quando você continua fazendo o que sempre fez, mas as pessoas de repente começam a prestar atenção.”