A descoberta preenche uma lacuna importante nos registos fósseis e reforça teoria da origem africana do Homo sapiens.

Mandíbula com 773.000 anos, proveniente da pedreira de Thomas, em Marrocos.
Hamza Mehimdate, Programme Préhistoire de Casablanca
Fósseis humanos descobertos em Marrocos e datados com grande precisão em 773 mil anos reforçam a hipótese de que a origem do Homo sapiens é africana, ajudando a preencher uma lacuna importante no registo fóssil e a esclarecer a separação entre as linhagens humanas africanas e euro-asiáticas.
O fóssil mais antigo conhecido de Homo sapiens, o único representante vivo do género Homo, foi descoberto em Jebel Irhoud, em Marrocos, e tem cerca de 300 mil anos.
No entanto, estudos genéticos e paleontológicos indicam que os antepassados do Homo sapiens se terão separado muito antes das linhagens euro-asiáticas que deram origem aos neandertais e aos denisovanos, já extintos, provavelmente entre 750 mil e 550 mil anos atrás.
Durante décadas, os fósseis mais relevantes desse período no chamado “Velho Mundo” ocidental foram encontrados sobretudo em Atapuerca, em Espanha, incluindo o Homo antecessor, datado de há cerca de 800 mil anos. Esta espécie apresenta uma combinação de traços do Homo erectus com características mais próximas do Homo sapiens e dos neandertais.
A ausência de fósseis africanos comparáveis levou alguns investigadores a defender a hipótese, muito debatida, de que o Homo sapiens poderia ter tido uma origem fora de África, regressando mais tarde ao continente.
Jean-Jacques Hublin é paleoantropólogo francês e professor no Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, em Leipzig, onde dirige o Departamento de Evolução Humana.
Fósseis encontrados em Casablanca mudam o cenário
Essa lacuna começa agora a ser preenchida com a datação precisa de fósseis humanos descobertos na chamada Caverna dos Hominídeos, na pedreira Thomas, em Casablanca, na costa atlântica de Marrocos.
O local foi identificado em 1969 e escavado ao longo de mais de 30 anos por uma equipa franco-marroquina.
Os investigadores encontraram vértebras, dentes e fragmentos de mandíbulas humanas, incluindo uma mandíbula “muito graciosa”, descoberta em 2008, cuja morfologia intrigou os especialistas.
“Os hominídeos que viveram há meio milhão ou um milhão de anos não tinham, geralmente, mandíbulas pequenas. Aqui era claramente algo invulgar. E questionávamos qual seria a sua idade”, recordou Hublin.
Mandíbulas inferiores (maxilares) do Norte de África, ilustrando a variação entre os hominídeos fósseis e os humanos modernos. Os fósseis apresentados são Tighennif 3 da Argélia (canto superior esquerdo), ThI-GH-10717 da Pedreira Thomas em Marrocos (canto superior direito) e Jebel Irhoud 11 de Marrocos (canto inferior esquerdo), comparados com uma mandíbula de um humano moderno recente (canto inferior direito). Todos os espécimes são apresentados à mesma escala, permitindo a comparação direta do seu tamanho e forma.
Philipp Gunz, MPI for Evolutionary Anthropology
O sítio foi ocupado de forma intermitente por hominídeos que utilizaram ferramentas de pedra da indústria acheulense, mas funcionou também como refúgio de carnívoros. Um fémur humano com marcas, provavelmente deixadas por uma hiena, confirma essa utilização mista do espaço.
Uma datação excecionalmente precisa
Durante anos, as tentativas de datar os fósseis não tiveram sucesso. A resposta surgiu em 2022, com a aplicação de um método baseado na inversão ds polos magnéticos da Terra.
Há cerca de 773 mil anos, ocorreu a transição Matuyama–Brunhes, a última grande inversão geomagnética, em que o polo norte magnético passou da proximidade do polo sul geográfico para a posição atual. Esta inversão deixou um sinal claro nas rochas e sedimentos em todo o mundo.
Na Caverna dos Hominídeos, os fósseis foram encontrados precisamente nas camadas sedimentares correspondentes a essa inversão, permitindo uma datação “muito, muito precisa”, com uma margem de erro de apenas cerca de quatro mil anos, sublinha Hublin.
Segundo os autores, trata-se de uma das datações mais rigorosas alguma vez obtidas para fósseis humanos do Pleistoceno africano.
Jean-Paul Raynal e Fatima Zohra Sihi-Alaoui, co-directores do programa “Pré histoire de Casablanca” durante a escavação que levou à descoberta da mandíbula ThI-GH-10717, em Maio de 2008.
Próximos da raiz da nossa linhagem
A análise anatómica detalhada revela que estes fósseis apresentam uma combinação de características arcaicas e mais modernas. São semelhantes aos fósseis de Atapuerca, mas não idênticos.
“Estamos a observar populações que já estão em processo de separação e diferenciação”, explica Hublin.
Esta diferença sugere que as linhagens africanas e euro-asiáticas já estavam a divergir há cerca de 773 mil anos.
Estudos com microtomografia computorizada (micro-CT) aos dentes mostram que estes hominídeos são distintos tanto do Homo erectus como do Homo antecessor, sendo compatíveis com populações africanas próximas da base evolutiva que conduziu ao Homo sapiens.
África e Europa ligadas por antigos corredores
Embora o Médio Oriente seja considerado a principal rota de saída dos hominídeos de África, os investigadores admitem que, em determinados períodos de descida do nível do mar, possam ter existido passagens entre o Norte de África e o Sul da Europa, nomeadamente através do Estreito de Gibraltar ou entre a Tunísia e a Sicília.
Para Hublin, estes fósseis constituem “mais uma evidência de possíveis intercâmbios muito antigos” entre o Norte de África e o Sudoeste da Europa, embora essas trocas tenham ocorrido antes da separação clara das populações agora identificadas.
Uma peça-chave na história da evolução humana
O estudo, conduzido por uma equipa internacional que envolve investigadores de Marrocos, França, Alemanha, Itália e Espanha, reforça a ideia de uma origem profundamente africana do Homo sapiens.
Os fósseis de Casablanca são quase contemporâneos dos de Atapuerca, mas cerca de meio milhão de anos mais antigos do que os restos humanos de Jebel Irhoud. Pela sua posição temporal e morfológica, aproximam-se daquilo que os dados genéticos indicam como o último ancestral comum de humanos modernos, neandertais e denisovanos.
“Estes fósseis podem ser os melhores candidatos que temos atualmente para populações africanas próximas da raiz dessa ancestralidade comum”, conclui Jean-Jacques Hublin.